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Cosimo Galluzzi

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PUT YOUR BEARD IN MY MOUTH
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@adhdjunkyfairy
I was just kidding...
É triste o bastante imaginar que eu, esse tempo todo, estive só brincando
Mas eu estive.
É triste, com certeza, lembrar das cenas em que tudo parecia verdade
Mas não era.
Então, se for pra falar da tristeza que é, todos os dias, lembrar de algumas verdades que doem, eu prefiro mentir.
- Você foi uma pessoa boa pra mim;
- Você me fez feliz;
- A culpa foi minha;
- Eu estive brincando com você.
Aceitei um fardo que não era meu, tudo bem. Tudo bem? Tudo mais ou menos bem.
Acho que não estou muito bem.
Tenho algumas duvidas quanto ao progresso que fiz depois de você. Mas é claro que eu não conto pra mim mesma quantos passos no caminho contrário eu acabei dando - por culpa minha? -.
Tenho algumas duvidas sobre o que eu estou fazendo da minha vida. Mas, é claro, que eu não conto pra mim mesma que eu desaprendi a entender as minhas vontades.
Mas, apesar de todas as duvidas existenciais que possam me ocorrer, a pergunta a qual eu ainda não achei resposta é:
Quando eu vou começar a culpar você?
Not a love letter
Ela olhou pra mim e passou. Eu peguei e sorri. Não gostava dela. Estranha, linda, complicada... Não gostava dela. Dei um trago pra olhar diferente. Não adiantou... ela ainda era estranha. E, enquanto eu avaliava, ela ria - não era pra mim, mas aquilo me maltratava -. Eu não conseguia gostar dela. Ela levantava, dava umas voltas, apertava o rabo de cavalo, tentava tirar uma sujeira do dente sem que ninguém percebesse e eu, alí, continuava sem gostar dela. Comecei a me perguntar por quê. Não fazia sentido, não entendia. Ela percebia que eu a encarava e olhava nos meus olhos. Voltava. Sentava do meu lado, batia sua perna na minha e sorria. Por céus! Como eu não gostava dela. O meu corpo arrepiava de repulsa. Quando eu passava o cigarro em diante, ela encostava o queixo no meu ombro. Chegava tão pertinho que eu sentia sua respiração no meu ouvido. Beijava meu pescoço, vez ou outra, subia pelo meu maxilar. O meu corpo queria se afastar, mas não se mexia. Minha mente se contorcia, por quê? Quando eu me virava pra ela - eu queria que ela visse no meu rosto o meu desgosto - ela sorria e me beijava. Aquela língua áspera me virava do avesso. Por que? Quando eu soltava a boca dela, úmida, macia, eu dava um gole na minha cerveja pra ver se tirava o gosto dela de mim. Mas, enquanto isso, ela sorria. Ela usava aparelho há uns dois anos atrás, era estranho. O sorriso era lindo demais. Minhas mãos coçavam pra castigá-la. Meus dedos contraíam pela vontade de segurar nos cabelos dela - sempre tão encaracolados e bagunçados -. Por dentro eu só queria pedir pra que ela nunca mais me beijasse, nunca mais. Eu não gostava dela. Ela sussurrava alguma coisa no meu ouvido, mordiscava minha orelha, lambia meu pescoço e eu chorava por dentro, tremendo por fora. E toda vez que ela virava e olhava em volta, eu não gostava de mim. Toda vez que eu a via conversando com outras mulheres, eu me queria menos. Eu demorei pra entender que eu a amava. O amor que eu sentia por ela consumia meu amor próprio de todas as maneiras imagináveis. Eu não gostava dela porque ela me destruía. Mesmo que ela, sem querer, tenha sido quem me construiu.
x nature blog x
Viela
Corta o caminho
Atalho
Vem mais rápido
Sempre mais rápido
Chega logo, vem correndo
Pega a viela
Tem comida na mesa
Tem tua esposa esperando na cama
Tem teu filho, na casa da avó,
Vendo TV, te esperando
Tem tua mãe preocupada
Mas ela mal sabe
Viela também pode ser atalho pro azar.
Foi alí que Renato, voltando da faculdade particular, parou
Eram quase meia-noite
A mãe em casa, aflita
Renato e o traficante na viela, rápido
Fizeram negócio e Renato foi pra casa
Sua mãe suspirava aliviada
Carol voltava do segundo trabalho
Precisava encontrar Miguel, seu filho
A mãe de Carol não gostava de cuidar do neto
Mas foi o traficante que a encontrou
Foi um assalto rápido, Carol passou quase tudo que tinha
Mas o traficante queria mais
Queria o corpo, queria a alma
Carol tentou fugir, espernear
Foi calada...
Sentiu o soco e ouviu os botões da blusa baterem no chão
Gritou enquanto o estuprador rugia
Chorou
Mas ele mandou você não gritar, Carol!
O som da bala, da arma, não incomodou ninguém
Carol não iria incomodar mais, também.
O traficante se arruma e vai calmo para casa
A esposa o espera na cama.
...
No dia seguinte a avó de Miguel vai levá-lo à creche
A imunda mãe do garoto deve ter passado a noite na balada
A avó vai falando no caminho
Vai contando pra Miguel, de 4 anos, porque o pai dele tinha abandonado Carol
Porque Carol era uma... “cachorra”
Se não fosse pela avó, como seria a vida desse Miguel!?
A avó decidiu pegar um atalho pela viela
Eram seis e meia da manhã
...
Encontraram o azar
Carol semi-nua e morta
Miguel não entendia e a avó gritava
Acordaram toda a vizinhança
...
Quando o Datena mostrou na TV
Quase consegui ouvir
A esposa do traficante dizendo que “ela deve ter pedido”
A mãe de Renato rindo da “neguinha”
O pai de Miguel com medo de, agora, ter que cuidar do filho
Renato cheirando no banheiro da faculdade
A mãe de Carol tentando entender o porquê
Miguel chorando
E o traficante tranquilo...
Não seria a primeira e nem a última Carol
Que na pressa de chegar logo
Pegava um atalho pro fim.
(Laís Carvalho, 27/07/2016)