tenho sentido muita raiva
tenho sentido medo
tenho sentido vergonha
como uma pessoa que é exposta nua no meio de um evento e procura com muita pressa suas roupas jogadas no chão e vai embora com vontade de nunca mais ver ninguém, de nunca mais ouvir ninguém, de não saber o que acharam de vê-la nua daquela forma
me irritam as pessoas que me veem nessa angústia e dizem
não importa a nudez
não importa a pressa
não precisa de medo
e não percebem que preciso naquele momento de pegar as coisas no chão
não deixar minhas coisas ali para serem olhadas
voltar para qualquer coisa que eu chame de casa
mesmo que jamais seja
e ficar ali até que se esqueçam da minha imagem
até que outras pessoas em outras festas também fiquem nuas
que eu vire uma história que as pessoas não lembram
porque se empoeirou e perdeu-se
trocar novamente de número
não ser lembrado como um efeito natural do decorrer do tempo
me ver eternamente na possibilidade dificílima de não ser encontrado
ou só ser encontrado feliz de passagem
porque só se é feliz de passagem
e deixar o meu corpo nu apenas dentro de casa
ou de qualquer coisa que eu chame de casa
mesmo que jamais seja
e me deter na raiva no medo e na vergonha
deitado em lençóis trocados todos os dias
bêbado e distraído
não querendo sentir nada disso dessas coisas
nem entender nada disso dessas compreensões
ficar em paz
mesmo que de passagem
porque só se tem paz de passagem
fingir não estar atento ao mundo à minha volta
por ser mais ou menos um
não dizer os números que correspondem à porta
que deverá ser aberta para que me encontrem
deitado
como um passarinho
respirando
esperando
outra festa maior acontecer
em que nela haja uma tragédia
que fará meu corpo nu
não significar nada.
















