Entre Gritos e Silêncios — A história de Lyane
Capítulo III — A menina que dormia de olhos abertos
Algumas pessoas dormem para descansar. Lyane dormia para fugir. E mesmo assim, o sono a traía. Havia noites em que ela se levantava como uma sombra de si mesma, atravessando a casa com o olhar vazio, os pés descalços tocando o frio do chão como se isso fosse o único lembrete de que ainda estava viva.
Certa vez, ao voltar de um desses passeios noturnos, ela se viu diante do espelho do banheiro. A luz fraca desenhava seu rosto de forma estranha, como se o reflexo fosse de outra pessoa. Uma menina pálida, com os olhos abertos demais, como se tivesse medo de piscar e o mundo desabasse entre uma batida e outra do coração.
Ela não se reconhecia.
E talvez fosse esse o maior terror: não ser capaz de se ver. Porque quando você não sabe quem é, qualquer dor pode se tornar morada. E ela morava nelas. Nas ausências, nos ruídos que ninguém mais ouvia, nos espaços entre as palavras ditas e as não-ditas. Principalmente nas não-ditas.
Na escola, diziam que ela era "difícil". Mas como explicar que o mundo era o que era difícil para ela? Como colocar em palavras que o barulho de um lápis riscando o papel podia ser o estopim de um colapso, que o toque no ombro podia se confundir com uma queda, que o silêncio de um amigo era como um abandono em câmera lenta?
Ela cresceu sem saber onde pisava. O chão sob seus pés era como areia movediça: quanto mais tentava se firmar, mais afundava. E mesmo assim, seguiu.
Foi uma sobrevivência silenciosa. Uma luta que ninguém via, porque acontecia do lado de dentro. E é por isso que ninguém entendia o tamanho da sua exaustão. Lyane não queria chamar atenção. Queria só encontrar um canto do mundo onde pudesse existir sem ser ferida por isso.
Mas o mundo, às vezes, é um espelho estilhaçado. E tudo o que se vê são fragmentos distorcidos de si mesma.
Ainda assim, havia algo nela — uma centelha quase imperceptível — que insistia em não morrer. Talvez fosse teimosia. Talvez fosse poesia. Ou talvez fosse o que restou do que um dia foi esperança.
Porque Lyane, mesmo entre gritos e silêncios, continuava viva. E escrever era seu modo de provar isso.

















