A torneira da pia pingava num quarto de motel barato.
Era um som pequeno e ridículo, mas naquela noite parecia ter sido inventado pra enlouquecer alguém.
Do lado de fora, a cidade continuava acordada. Havia música vindo de algum lugar, um carro passando devagar demais, uma sirene distante... e na parede ao lado, duas pessoas discutindo em voz baixa.
Ela estava sentada no chão do banheiro, com as costas apoiadas na porta.
Ainda usava o vestido da noite.
Ainda cheirava à fumaça da boate.
Ainda tinha sangue seco em uma das unhas.
Sobre a pia, havia um brinco.
Dourado e pequeno, com uma pedrinha vermelha.
Ela reconheceu imediatamente.
Mas pela mulher que o usava.
Tinha visto aquela mulher horas antes, no banheiro de uma boate, retocando o batom diante do espelho enquanto dizia ao telefone que estava trabalhando até tarde.
Todo mundo naquela cidade parecia ter uma mentira pronta pra depois das onze.
Talvez fosse por isso que ela gostava tanto de andar.
Pelas ruas do centro da cidade.
Por lugares onde ninguém perguntava seu nome.
Naquela noite antes de chegar ao motel, havia parado diante de uma vitrine e observado dois insetos acasalando no vidro, indiferentes ao trânsito, às buzinas e às pessoas que passavam.
Pensou que havia alguma honestidade naquilo.
Os insetos não inventavam compromissos.
Não usavam alianças pra convencer ninguém.
Não diziam eu te amo antes de voltar pra casa.
Seguiam apenas o próprio corpo.
Ela invejou aquilo por alguns segundos.
Depois continuou andando.
No quarto 17, encontrou o homem dormindo.
Sentou na beirada da cama e ficou olhando pra ele.
Havia imaginado aquele momento tantas vezes, que quando finalmente aconteceu, não sentiu nada.
Só uma espécie de cansaço.
Na mesinha de cabeceira, havia duas taças.
Uma vazia e a outra ainda com vinho.
No chão, um sapato feminino.
E no espelho, escrito com batom: “Você demorou!”
Ela passou o dedo sobre as letras.
Não era a primeira mulher.
Talvez nem fosse a segunda.
Havia outras... Sempre havia outras.
A cidade inteira parecia construída sobre pequenos esconderijos: quartos de motéis, becos, assentos sanitários de um banheiro de boate, bancos traseiros de carros estacionados em ruas escuras.
Lugares onde as pessoas deixavam coisas pra trás.
Encontrou uma fotografia.
Todas de mulheres diferentes.
Todas em lugares diferentes.
Todas olhando pra mesma câmera.
Foi quando percebeu que não tinha entrado naquele quarto pra descobrir uma traição.
Tinha entrado pra descobrir quantas.
Na manhã seguinte, a polícia encontrou o homem morto.
Encontrou também vinte e três fotografias.
Durante o interrogatório, perguntaram quem havia tirado as fotografias.
Perguntaram quantos homens conhecia.
Perguntaram por que havia estado no quarto 17.
— Porque alguém precisava testemunhar.
Foi presa naquela mesma tarde.
Na cela, começou a escrever.
Passa a escrever a partir de uma cela, indo além das molduras quadradas que limitam o seu mundo.
Depois escrevia sobre os insetos que acasalavam.
Sobre as putarias devassas.
Sobre as traições envergonhadas.
Sobre as vinganças cunilínguas que nunca chegaram aos jornais.
Escrevia sobre homens que se diziam religiosos e mulheres que diziam não acreditar em Deus, mas rezavam antes de cometer alguma coisa.
Um dia, uma carcereira perguntou:
— Você era o que antes de vir pra cá?
Ela levantou os olhos do papel.
A mulher franziu a testa.
A carcereira não acreditou.
Trabalhava em uma igreja durante 8 anos.
Conhecia os pecados de quase toda a cidade.
Quem se arrependia apenas porque tinha sido descoberto.
Sabia também que as pessoas não confessavam seus pecados pra serem perdoadas.
Confessavam porque queriam que alguém soubesse.
Por isso começou a fotografar.
Por isso começou a guardar.
Por isso o quarto 17 não foi o primeiro.
Meses depois, quando já tinha aprendido o horário em que o sol entrava pela pequena janela da cela, recebeu uma carta sem remetente.
Dentro havia apenas uma fotografia.
Ela reconheceu o quarto imediatamente.
Virou a fotografia, e no verso havia uma única frase:
“Você esqueceu de fotografar quem estava atrás da câmera.”
Ela ficou olhando para aquilo durante muito tempo.
E escreveu no fim da página:
Despirocas, ao seu dispor.
Foi a primeira vez, desde que entrou naquela cela, que começou a escrever sobre si.
E, dessa vez, não pretendia contar toda a verdade.
Ana Luiza - 10.08.26 | @escritosdaluiza