O Atordoado
Em meio ao caos e movimentação do Copan um homem solitário convive com os fantasmas das lembranças de Clara, sua companheira. A solidão agora é sua única amiga e a noite é seu mundo. Entre as bebidas e os cigarros pequenos pensamentos matemáticos são a única coisa que o ajudam a suportar os dias.
Perdido em seus devaneios a linha entre a realidade e as alucinações torna-se cada vez mais tênue, sonhar é reconfortante mas, em uma cidade como São Paulo, pode acabar se tornando um habito perigoso.
compactação por Catarina Bastos
texto de Catarina Bastos
Duzentos e cinquenta e sete dias, dezessete horas e trinta e quatro minutos sem ela.
Garrafas vazias espalhadas pelo chão servindo de cinzeiros, tudo parecia insuportável e ele não havia comido nada além de um café com pão duro pelas últimas 12 horas.
“Melhor sair pra comprar um treco pra comer, meus cigarros também estão quase acabando” pensou. Jogou uma água no rosto e procurou pelo chão uma calça que não estivesse completamente furada. Quando se abaixou para pega-la, sua cabeça girou e, de repente, todas as imagens voltaram a assombra-lo. As sirenes, as pessoas chorando, o sangue na calçada e o terror ao descobrir a quem ele pertencia.
Chacoalhou a cabeça, ele precisava comer. Saindo de sua quitinete no Copan, apertou o botão do elevador, torcendo para não encontrar ninguém dentro dele; estava cansado das prostitutas e dos drogados dos blocos B,E, e F, seu próprio bloco, e de seus sons e cheiros miseráveis.
Felizmente, o elevador se encontrava vazio, dando-lhe a chance de divagar em seus pensamentos matemáticos favoritos. "Este prédio conta com cento e quinze metros de altura, contendo trinta e dois andares e mil cento e sessenta apartamentos. Nele moram cerca de cinco mil e quinhentos seres que dividem comigo os vinte elevadores, sendo dezenove funcionais. Sendo assim, as chances de eu chegar ao térreo sem dividir este cubículo com alguém é de...” Antes que pudesse terminar seus cálculos, uma jovem entrou no elevador e, nesse instante, seu coração parou. Por um momento, ele podia jurar ser Clara a jovem prostituta que acabara de entrar, chegou mesmo a sentir seu perfume e ouvir sua risada antes de voltar à realidade e perceber que a jovem falava com ele, perguntando se queria algo.
Para seu alívio, o elevador atingiu o térreo, revelando os transeuntes que circulavam em grande quantidade pelo prédio, e liberando-o desse ambiente opressor e soltando-o na noite, sua velha amiga.
Ainda embalado pelo fantasma que vira, dirigiu-se ao boteco mais próximo onde pediu uma boa dose de pinga e um misto quente. Terminando de comer lembrou-se de passar na banca e compra o cigarro mais barato que podia.
Era sempre nesse momento, quando a noite ia acabar, que ele se sentia mais vazio e que talvez o mundo fosse grande demais, cheio demais e ele pequeno demais para aguentar tudo isso sozinho nessa multidão que era São Paulo.
O sol nascia, alaranjado e rosado era o céu poluído da cidade. Sentado na calçada, curtindo sua ressaca, ele contava os carros que passavam. Logo as pessoas voltariam a entupir as ruas e o barulho se tornaria insuportável novamente. Na noite, as coisas eram mais claras e instintivas, tudo era música e sentimento para ele. O dia pertencia aos jumentos puxadores de carroça, a luz do dia cegava as pessoas.
Quando o sol começou a surgir entre os prédios, ele se levantou e cambaleou até o elevador.
Pela primeira vez , conseguiu subir até seu apartamento sem ser perturbado e o silêncio no prédio era acolhedor e incomum.
Chegou em frente ao apartamento se sentindo quase feliz, quando escutou uma voz que cantava do outro lado da porta. Uma voz tão doce e suave que ele reconheceria em qualquer lugar, era Clara que cantava a música que ele lhe compusera quando era jovem.
Numa atmosfera de sonho, entrou no apartamento, e o silêncio voltou a reinar.
Confuso e triste, ele adormeceu no sofá e teve sonhos turbulentos, onde via os bombeiros levarem o corpo de Clara pelos vizinhos ignorantes com expressões embasbacadas...
Acordou de noite suando e vomitou no tapete quando percebeu um cheiro de perfume no ar, mas, diferente do que se passara no elevador, dessa vez o cheiro era forte e enjoativo. Seguindo a origem do cheiro, ele escutou a voz de Clara chorando, vinda da sacada, tremendo pela febre que o atingia e pelo medo, ele se dirigiu à sacada, puxando lentamente a cortina que cobria as portas de vidro...
final alternativo da autora:
Por um momento a luz do dia o cegou, inundando o cômodo sujo de claridade. Tudo ficou em silencio e o mundo pareceu parar no tempo, um leve farfalhar e o relance de um vestido branco, caindo da varanda. Uma lufada de ar fez com que o tempo voltasse ao normal e o apartamento se encheu com o grito aterrador que saiu de sua boca.
Em um gesto desesperado ele correu para a sacada, esticando-se nas pontas dos pés perigosamente sobre a sacada para enxergar a rua movimentada em busca de qualquer movimentação estranha que justificasse a cena que acabara de presenciar. Tudo parecia normal e seu coração voltava a um ritmo mais lento quando o cheiro invadiu seu cérebro e tudo ficou embaçado. Ele podia sentir seu corpo se movimentando, mas nada podia fazer para controla-lo , sentiu suas pernas saltando as grades da sacada que o separavam do abismo e sentiu seu corpo pendurado para fora da sacada, seguro apenas pelos braços, ouviu a voz de Clara, desta vez risonha e , ao tentar tocar seu rosto, sentiu o chão.







