“Sinfonia Vulgar - Concerto Cruel.”
Pouco me lembro das semanas que se perderam no tempo, porém, tua áurea obscura proíbe a exclusão das complexidades passadas; a perturbação comumente encontrada na insanidade da memória entre o real e o irreal, o fatídico e o mítico.
Minha obsessão começa pelas entrelinhas em suas frases, pelo jogo que, de forma inútil, tenta acabar com os muros nos arredores seguros que criei e pela tão maldita beleza em todos os gestos de seu corpo pálido e frio. Esfomeado, voraz, controlador, enigmático e contraditoriamente esperançoso, o vejo esgueirar-se como minha sombra afundado em falsa calmaria como quem aguarda o instante em que a chuva se torna tempestade acima do oceano tranquilo.
Teus dedos gelados denunciam a temperatura de sua pele tão insensível quanto a mentira que contou sobre a própria afeição. Cadavérico, o escuro da noite longe das estrelas foi concentrado nas íris e a inconstância das ventanias outonais no cabelo crescido que por pouco não descia-lhe os ombros. O Diabo caminhava ao meu lado nos corredores da mansão que abrigou os soldados da antiguidade entre as paredes de luxúria e, no lugar onde cresci, desejei encarnando, como aquela que sonhava com a morte, com elucubrações nada castas do que era criminoso.
Ausência da vigília conhecida não mais me assombrava, o resfriar completo do meu cerne estava nas mãos do maestro que rompia minha humanidade e duvidava da castidade prometida; hálito frio e respiração quente drenando quaisquer vestígios de adrenalina restantes em meu sangue enquanto o céu longe das estrelas servia como guia para meus pensares suicidas. Meu sangue enferrujado lamentavelmente deixava de circular pelos dedos e o empalidecer da minha tez confundiu-se com o luar, meus instintos naturais pela sobrevivência inibiam-me pelo desejo quase volúpio em atirar-se no poço-maldito.
Perfurando minha garganta como facas afiadas, roubavas meus gritos por puro egoísmo e parte de meu respirar por seu cheiro cobrindo meu âmago completo, tão pesado que o salgado das lágrimas e o ferrugem afogavam-me. Meus lençóis ganhavam a cor do melhor vinho tinto sob os olhares soldados-fantasma. E nada mais era passado ou futuro, real ou irreal, fatídico ou mítico.
O cheiro do sol me despertou naquela manhã, a névoa piorava a visão adoecida dada por meus olhos, a brisa espantava as cortinas e os gatos assanhavam as telhas dos casarões da vizinhança afastada. Sumiste sem pistas largando-me à deriva, abandonando minha liberdade e forçando minha razão a permanecer cativa das complexidades da insanidade das minhas memórias.
Aquele que aterrorizou-me com a chegada.