Não só a grande quantidade de fenômenos e a mistura entre o alto e o baixo, o sublime e o quotidiano, o trágico e o cômico, apresentada sempre em novas tonalidades e extremamente humana, devem ser assinaladas aqui, mas também aquela concepção dificilmente exprimível com palavras claras, mas que opera em toda parte, segundo a qual há uma base universal que se tece constantemente a si própria, se renova e está internamente ligada em todas as suas partes, de onde tudo isto flui e que torna impossível isolar um acontecimento ou um nível estilístico. A figuralidade comum, claramente delimitada, de Dante, dentro da qual tudo chegará a prestar contas no além, no reino definitivo de Deus, e no qual as pessoas só no além atingem a sua plena realidade, não mais existe; já no terreno as personagens trágicas atingem a sua plenitude final, quando, pesadas dos seus destinos, amadurecem, como Hamlet, Macbeth e Lear; e contudo, não estão presas somente ao destino que coube a cada um, mas estão todos unidos como atores naquela peça que foi escrita pelo desconhecido e inescrutável poeta do universo, que está ainda sendo escrita por ele; uma peça, cuja verdadeira significação e realidade nem eles nem nós conhecemos.
AUERBACH, Erich. Mimesis. p. 291-292.










