Cidade Baixa, 2005 | Dir. Sérgio Machado
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Cidade Baixa, 2005 | Dir. Sérgio Machado
e no meio de alguma tarde
vou me lembrar de você
me perguntar por onde você anda
se seu chocolate preferido ainda é o mesmo
e se você ainda usa aquele mesmo perfume
vou me perguntar se você já se formou
ou se no meio disso, mudou de ideia
no meio de alguma tarde
algo bobo vai acontecer
e vou sentir sua falta por não poder te contar
no meio de alguma tarde
eu fico com vontade de te ligar
só pra recordar a sua voz
mas não somos os mesmos
você se foi
e eu fiquei
você se foi
o vazio ficou
a rede não tem mais balanço
os seus travesseiros favoritos ainda tem seu cheiro
e o seu short pendurado, eu te entreguei de volta
seu boné estirado no meu armário
sua blusa na maçaneta da porta
seus resquícios ocupam meu quarto e o resto da casa
nossas memórias ficam escondidas nos cantos das paredes
e sua voz já não tem mais tom
quando a gente foi e esqueceu de se levar?
me lembra dos dias doces guardados no seu quarto
o arrepio quente
o açúcar em nossos lábios
me lembra dos dias ensolarados
queimando no sol
queimando o peito
queimando por dentro
ainda queima
e agora corrói
será que todos nasceram para serem humanos?
para cair e levantar
para correr até cansar
sentir o frio de estar sozinho
e o calor de estar sendo amado
a vida humana não é meu destino
estou sempre disposta a me jogar da primeira passarela
ando sempre de olhos fechados pelas ruas
buscando algo doce que em meus lábios possam se desfazer
quero sempre o prazer do imediato
e o depois será sempre para depois
me dê o entorpecer mais forte
me deixe derreter sob seu colo
cuide do meu corpo
como se fosse seu
sou apenas uma criatura indefesa
disposta a enfrentar tudo
por algumas gotas de silêncio em minha mente
amar é deixar livre
mas me sinto mais do que livre
me sinto solta de você
não existe nada que nos ligue
além de a minha vontade de ficar
e o seu conforto em não ir
que amor é o nosso
onde ficamos vendo o mar ir e voltar
desejando ir mas sempre ficando
que falta faz a coragem
a ausência nos faz medrosos
somos covardes
ou corajosos demais por ficar?
eu quero as respostas certas
mas você nunca as tem
eu quero as perguntas importantes
e você nunca as faz
eu quero as escolhas eternas
e você as decisões precipitadas
diga que estou enlouquecendo
e que você fica por me amar demais
e não por não conseguir ir.
indecisão conjunta
então eu já vou
já fiz minhas malas
comprei minhas passagens
desenhei meu novo caminho
te escrevi um bilhete
avisando “estou indo”
e você me deixou ir
você me deixa ir todos os dias um pouco mais
e eu vou indo mesmo sem querer
as vezes eu só calço uma sandália
outros dias, escolho um casaco
nos dias mais difíceis, levo até minhas roupas favoritas
e você nunca percebe
será que seu amor é tão sozinho que não sente minha falta?
ou você só permanece porque eu permaneço também?
de repente estamos sentados, de malas prontas
esperando quem vai ir primeiro.
tristeza
ela reflete na água parada
o vibrar tão gentil
que parece um carinho
um toque suave de mãe
um toque tão tênue
que permito me afundar
como em uma cama imensa
eu me deito
e não quero mais levantar
fechem as cortinas
cubram as frestas
e tranquem as portas
não quero jamais ver a luz do sol
quero viver na acolhedora escuridão
no silêncio noturno
no âmago da depressão
é assim que me sinto
quando você me diz não.
e se eu disser que esse é o único amor que eu conheço
será que adiantaria?
se eu te contasse que não sei outro jeito
que o amor, pra mim, é sempre um grande drama
não existe um amor calmo
uma paixão leve
uma brisa aconchegante
tem que existir uma grande briga
e uma grande reconciliação
com um grande ato romântico
tudo no meu amor tem que ser um espetáculo
se não, é uma grande mentira
se não, não é real
não é intenso o suficiente
por eu ver tudo distorcido, eu faço tudo distorcido
será que você entenderia se eu te contasse toda a verdade?
burburinhos
tristes burburinhos
sou tão cruel quanto pareço ser?
as vezes juro que sou uma víbora
te cercando
sempre ameaçando atacar
com passos calculados
com o veneno nos lábios
e as vezes juro que sou uma vítima
minhas ações não são exatamente minhas
foi tudo ensinado
é o único jeito que eu sei amar
esse é o único tipo de amor que me ensinaram
outras vezes juro por Deus que sou uma louca desequilibrada
quebro os vasos no chão
choro compulsivamente como uma atriz em seu grande papel
subo na varanda e ameaço me matar
digo que ouço vozes
mas no final, eu sou apenas eu com vinte e poucos anos
perdida
entre as duas de mim
eu fico no meio
quem vou ouvir?
eu ou a outra eu
sou duas, sou três, as vezes sou quatro
minha cabeça me faz ser várias
e as vezes me faz ser ninguém
eu morro pelas minhas próprias mãos
eu destruo tudo que amo com apenas duas palavras
então eu perco tudo
e só resta a mim
que horror, que terror, que grande drama!
esse coração destruído
essa velha esperança que nem respira
esse amor dilacerado pelas minhas próprias garras
escondidas dentro de uma pele tão frágil
quem diria
que essa mente que nunca descansa
um dia se destruiria
“eu diria.
eu sempre disse.”
a outra eu me diria.
escrevendo, escrevendo, escrevendo.
me pego pensando se é assim que as grandes poetas viviam, ideias alucinantes na cabeça, sobre o ser, o não-ser, o ontem, o hoje e o amanhã. a vida não me comporta e eu quero o que vem depois, os eletrônicos se tornam lentos, as verdades se tornam mentiras e tudo se torna o que nunca foi mas agora pode ser um pra sempre. respiro fundo. é mais uma hora sendo eu ou é mais uma hora longe de mim? respiro fundo. sou só eu fugindo de mim.
o silêncio da minha cabeça
é o que há de mais reconfortante na vida
quase como um acolher de braços de uma mãe
o silêncio em minha cabeça
é uma paz de se deliciar
quero me desfazer em seus braços
e me deitar em seu colo aconchegante
que delícia é o silêncio da vida lá fora
os pássaros já cantaram de manhã
e agora vivem a voar entre o entardecer
vejo eles indo e vindo
criando uma monotonia dentro do amanhã
do hoje e do ontem
quantas surpresas existem na vida
que eu ainda não conheço?
me acostumando
com o gosto da água de coco
e o fervor do sol
com a sombra do seu quarto
e com a areia nos cabelos
me acostumando a deitar na cama
sem ser pra descansar
me adaptando ao tédio da vida monótona
a calmaria dos pensamentos
e as não preocupações de só viver
que delícia é o tédio da vida
aprendendo todo dia sobre fazer nada
e pronta a me dedicar aos porquês de tudo
que delícia é o viver
quando tudo se torna calmaria.
ela está ao seu redor
onde sempre esteve
ela está nas suas memórias
e entre a sua família
ela compartilha seus gostos
seus desamores
e seu sotaque
eu não sei nada
eu não ocupo nenhum lugar próximo
sou uma forasteira andando em terras que nunca ouvi falar
andando sobre uma fina camada de gelo
e só você decide quando ela vai se partir.
lost in translation
então nada aqui me pertence
seu sotaque carregado
sua comida temperada
suas amizades desconfortáveis
sua vida passada
a qual eu nunca compartilhei nada
e nunca vou
nada aqui me pertence
nada aqui deve um dia me pertencer
nada aqui eu gostaria que me pertencesse
a não ser o desejo de ir.
que confusão é o nosso amor
quando nós tornamos essa grande bagunça
se lembra quando sentia falta da minha voz
ou de quando eu te filmava pelas minhas lentes de vidro
que falta faz a poesia dentro do amor
como a essência de tudo
me faz respirar sem desespero
que falta faz sentir a paixão da primeira vez
que falta faz o cuidado da voz serena
que falta faz a esperança do que seríamos e não fomos
poderíamos desistir e continuamos aqui
será que o amor é mesmo tudo o que precisa?
me diga se só o amor bastará
que tudo ficará bem só com um carinho em minha pele macia
que tudo será melhor do que antes
que nosso amor é capaz de ser maior do que toda a agonia que mora em mim
se não, toda a luta é em vão
comprei uma passagem de ida
cega de uma paixão alucinante
e me esqueci como voltar
apenas fui ficando
e o caminho de volta se apagou
se encheu de poeira
se cobriu pelos mares
foi engolido pelo esquecimento das sombras
o passado se perdeu
o presente é um triste caos
perdido entre a nostalgia de uma paixão falida
e um agora melindroso, que vive em constante ataque
quando você irá partir?
quando eu irei partir?
sinto na superfície da minha pele
que algo está prestes a desabar sob nossas cabeças
resta saber quem irá ficar e quem irá só assistir
não faço mais parte dos seus planos
você ainda me vê entre os fogos do réveillon
ou entre as fitas coloridas do próximo carnaval?
pois eu só enxergo o fim sempre que olho para ti
seja sincero,
estamos a beira do fim
mas somos medrosos demais para dizer adeus.