Se eu lembro quando esse bloqueio emocional começou? Eu tenho uma ideia. Mentira, na verdade eu sei ate o dia. Você já ouviu a teoria dos 3 amores? Cada autor da o seu toque poético pra ela, mas a que eu li era o seguinte. Geralmente um ser humano tem 3 amores ao longo da vida. O primeiro é o 1º amor, aquele amor infantil, que expõe as regras do jogo e que é muito mais um aprendizado do que um amor de fato. Alguns dão sorte, já param aqui e aqui ficam. O segundo é nosso grande amor. Avassalador. Brutal. Passional, Até você se acostumar com ele, ele já consumiu você. É uma das experiencias mais profundas que existem na vida de um ser humano e ou a gente para aqui, ou esse relacionamento nos escarnifica para toda a vida. O terceiro é o amor maduro. O amor consciente, acontece no inesperado, mas você já esta escaldado. Você admira, ama, respeita, mas se protege. Você já descobriu como a banda toca. A maioria das pessoas para nesse, e se não parar nesse, todos os que vierem depois desse, são o terceiro amor. E ela foi qual tipo? O segundo. Sem duvida. A gente era muito novo, tinha 20 poucos anos, ela tinha um bom emprego, era livre, a gente podia dormir junto sempre, era um sonho. E um pesadelo. Um dia a gente estava dormindo juntos e não tinha acontecido nada, nenhuma discussão, nenhum ciumes bobo, o que tinha acontecido na real é que a cidade estava passando pela pior tempestade da sua historia e eu acordei no meio dessa tempestade e ela não tava do meu lado. E ai tudo bem, ela foi no banheiro, tomar água, mas quando ela não voltou nos próximos minutos eu comecei a ficar inquieto. Eu levantei e fui procurar. É engraçado como nos filmes de terror ninguém acende a porra da luz, mas eu também não liguei a luz. Nada na sala, nada no banheiro, nada na cozinha, só conseguia pensar no porque ela tinha saído de casa. Mas ai eu olhei pra janela por uma das frestas que dava pro quintal e ela tava la. Os braços finos estendidos pelo corpo, o cabelo na cara, a água gelada castigando a cabeça dela, literalmente um filme de terror. Eu disparei ate ela, peguei ela no braço e falei, que que você tá fazendo? E ai ela disse uma frase que… essa frase sim, é realmente assustadora, muito mais que qualquer filme de terror. Como você vai me amar, se nem eu me amo?! Nossa, ela achava que quando eu visse ela pelo o que realmente era, uma menina quebradiça, frágil, vulnerável, cheia de problema parental, que eu ia me afastar, e na verdade foi justamente isso que me fez a amar em primeiro lugar. Eu não a amei porque ela era indomável, eu amei porque ela fingia ser. E fingir era algo que eu entendia muito bem. Levei ela pra dentro de casa, dei um banho quente, falei que ia amar ela ate ela aprender a amar si mesma, ignorei todos os avisos, todas as red flags, todos os detalhes, e não deu certo. Obvio. Terminou melancolicamente. Sem abuso, sem intriga, sem rancor. Só acabou. E ai que eu faço uma metáfora, hoje sou eu não chuva. Em vez de ficar parado, eu corro. Cada um tem seu jeito de lidar com a falta de amor próprio, com a rejeição e com a chuva. Cada gota que cai me leva pra mais longe, mas eu sei que ela vem. Com certeza ela vem. Talvez venha. Pode ser que venha. Hora ou outra uma aventureira passa e me oferece uma carona. Uma beira no guarda chuva furado. Eu agradeço e digo que não. Ela já vem me buscar. E ai eu te pergunto meu amigo, os relâmpagos estão la, a tempestade também tá la, o quarto que eu tava sozinho também tá la. Sera que falta muito pra ela acordar?










