Indicado ao Oscar de Melhor Filme de 2014 e a outras categorias e grandes premiações, O Lobo de Wall Street foi um grande sucesso na crítica e no público, se tornando um marco no cinema internacional. Ele é inspirado na autobiografia de Jordan Belfort (interpretado por Leonardo DiCaprio), um corretor de ações que conseguiu enriquecer de maneira ilegal, e que gastou sua fortuna com drogas, prostitutas, festas e itens de luxo. O longa é visto por muitos como uma sátira crítica ao capitalismo, vangloriando e ao mesmo tempo ironizando o estilo de vida de Jordan. Todavia, ao assistir O Lobo de Wall Street, é impossível não notar o seu detalhe mais marcante: a misoginia. A violência contra mulheres é constante durante as 3 horas de filme, nas quais as mulheres sempre estão postas em posições de extrema submissão, silenciamento e violência.
Por certo, Wall Street não é um lugar amigável para mulheres. Até 2021, nenhum grande banco em Wall Street havia sido comandado por uma mulher. A primeira foi Jane Fraser, que atualmente é a CEO do CitiBank. E se a coisa não está fácil em 2021, quem dirá na década de 90, época em que se passa grande parte da história de Belfort. Assim, a misoginia presente em um filme que se passa em Wall Street da década de 90 nada surpreende. Muito menos quando o filme é dirigido por Martin Scorsese e é inspirado na autobiografia do próprio Jordan Belfort: Scorsese é conhecido por só privilegiar o universo masculino no seu trabalho; e Jordan Belfort, pela sua trajetória de vida, pode-se dizer que é um homem que nutre um desrespeito sem tamanho contra as mulheres.
Mesmo que a obra seja uma declaração de amor à misoginia, ela foi aclamada pelo público e pela crítica, o que diz muito sobre ambos. O cinema, como umas das setes artes, é um retrato do seu tempo; já como meio comunicacional, é um produtor de efeitos na prática social. Nessa perspectiva, entender O Lobo de Wall Street e o seu sucesso se torna essencial para entender todas as questões que os cercam: o que choca o público, o que o atrai, o que não o choca e o que é considerado belo.
O filme começa com uma propaganda que ressalta a integridade e grandiosidade da empresa corrupta de Belfort, o que claramente é uma crítica (ponto positivo para eles). Assim que a propaganda acaba, a cena corta para o escritório dele: Jordan e seus colegas de trabalho estão brincando de arremessar anões. A partir daí, Belfort assume a narração da história e se apresenta. Logo em seguida, apresenta a sua esposa Naomi (Margot Robbie).
Na primeira cena em que Margot Robbie aparece, apenas conseguimos reconhecer o seu cabelo loiro, mas não sabemos de quem se trata. A cena corta para a casa de Jordan e logo em seguida Naomi finalmente aparece por inteiro – ela está deitada na cama do casal e está apenas de calcinha, sutiã e salto-alto; ela não tem nenhuma fala e sua imagem é exibida como se estivesse numa vitrine. Daí, Jordan dispara: “Minha esposa, Naomi. A Duquesa de Bay Ridge, Brooklyn, uma ex-modelo e garota Miller Light. Sim, era ela com meu pênis na boca na Ferrari, então ponha o seu de volta nas calças.”
Depois dessa “sensível” apresentação, Jordan revela o que já havia deixado claro no seu jeito de falar: para ele, Naomi era mais um dos seus objetos de luxo. Assim que apresenta a amada, ele continua a listar suas outras grandes posses: “uma mansão, um jatinho, 6 carros, 3 cavalos, 2 casas de férias e um iate de 170 pés.”
Logo após a introdução dos seus bens e dos seus hobbies (jogos de azar, sexo com protitutas e abuso de álcool e drogas), Jordan conta como chegou até ali: ele começou trabalhando em uma corretora em Wall Street. Ele trabalhou intensamente nessa época, seguindo os passos do seu chefe, que o incentiva a viver uma vida com muitas drogas e sexo.
Infelizmente, com pouco tempo lá dentro, o Black Monday aconteceu, a bolsa de valores de vários países caíram e Jordan perdeu o emprego. Nessa hora do filme, descobrimos também que ele teve outra esposa antes de Naomi, chamada Teresa (Cristin Milioti).
Após um tempo desempregado, Jordan consegue um novo emprego numa pequena empresa em Long Island. Lá, ele se destaca por ter uma boa lábia na hora de vender e por conseguir altas comissões. Após um tempo trabalhando em Long Island, Jordan decide abrir seu próprio negócio: a Stratton Oakmont, que lucrava praticando fraudes de seguro.
Com o seu novo negócio, Jordan passou a ganhar cada vez mais dinheiro e a sua empresa foi ficando cada vez maior. Em determinado momento, eles conseguem faturar 28,7 milhões de dólares de comissão no fim do mês e decidem comemorar: oferecem 10 mil dólares para a assistente de Jordan raspar o cabelo.
A comemoração é um tanto incomum, mas diz muito sobre aquele ambiente. Primeiramente, o fato dela ser uma mulher é importantíssimo: há pouquíssimas mulheres na empresa, então ela foi escolhida de propósito. Além de tudo, ela era apenas uma assistente, então ela não tinha muito espaço para recusar a proposta. E por último, o cabelo é essencial para a complexidade da cena: ele é um dos grandes símbolos da feminilidade. A assistente ter o seu cabelo raspado involuntariamente enquanto seus colegas de trabalho vibram só revela o prazer que aqueles homens tinham em violentar e objetificar as mulheres ao seu redor.
Ao longo da trama isso vai ficando cada vez mais evidente, uma vez que a maioria das mulheres que frequentam a Stratton Oakmont são prostitutas contratadas para as extravagantes comemorações. A retratação dessas é também feita de maneira muito violenta e objetificante, colocando estas trabalhadoras como grandes brinquedos.
Outro momento nojento de desrespeito às mulheres acontece, não surpreendentemente, em outra festa realizada pelo Lobo de Wall Street. Na primeira vez em que o sócio de Belfort vê Naomi, ele começa a se masturbar na frente de todos, demonstrando mais uma vez que a personagem é apenas um elemento visual para eles, não alguém com quem se deve ter respeito.
Depois deste infeliz acontecimento, Jordan começa a ter um caso com Naomi, se separa da sua primeira esposa e decide se casar com a amante. A troca é simbólica: antes Jordan era casado com uma mulher que o apoiava, mas que também o questionava e não se destacava como a mais bela; ao enriquecer, trocou-a por uma nova esposa mais bonita e mais jovem, e portanto Naomi é o seu grande troféu.
Antes do casamento, Belfort decide fazer uma despedida de solteiro, com tudo que ele tem direito: avião fretado, Las Vegas, jogos de azar, álcool, drogas e muitas prostitutas. A cena no avião a caminho de Vegas é mais uma vez completamente desrespeitosa com as profissionais, as objetificando de maneira desnecessária.
Quanto aos corpos nesta cena, vale ressaltar um detalhe: a grande maioria das mulheres está completamente nua, enquanto os homens, não. O acontecimento não é uma coincidência: corpos femininos são mais propensos a serem expostos em filmes do que os masculinos. Isso ocorre porque os corpos femininos também são os mais propensos a serem objetificados, como claramente acontece na obra de Scorsese.
No restante do filme, Jordan continua a trair sua esposa (mesmo que com ela tenha duas filhas), continua a ostentar uma vida de excessos e passa a enfrentar uma investigação do FBI. Quase sendo preso e usando cada vez mais drogas, o casamento entre os dois entra em crise. Naomi quer pedir o divórcio, mas antes se vê forçada a fazer sexo com seu marido.
A agressão sexual aqui passa despercebida, e por isso a cena é tão problemática. Não é nenhum pouco relevante para a trama Naomi ser estuprada pelo marido, mas por algum motivo decidiram colocar esta cena. Depois disso, como se não bastasse, ele a agride fisicamente e a tortura psicologicamente sequestrando uma das filhas do casal.
Assim, ele acaba com o seu casamento de uma vez e pouco tempo depois acaba sendo preso. Quando solto, Jordan passa a dar palestras ao redor do mundo sobre vendas, tendo um final feliz.
E este final talvez seja o elemento mais importante do filme inteiro: ele conseguiu ter um final feliz. Apesar de destruir a sua família, dois casamentos, abusar das drogas, ser corrupto e violento com as mulheres ao seu redor, ele conseguiu se sair bem. Tão bem que ele tem admiradores: há pessoas que querem aprender com ele e que querem ser iguais a ele, e por isso vão às suas palestras.
Muitos encaram O Lobo de Wall Street como uma crítica ao “sonho americano”, ao capitalismo, ao patriarcado e a todas as outras coisas que Jordan vangloria durante o filme. Mas o final é o elemento chave para perceber que não é nenhuma dessas coisas. Mesmo tendo vivido de maneira insana, Jordan se deu bem. Tão bem que ganhou um filme estrelado por Leonardo DiCaprio e dirigido por Martin Scorsese, dois grandes nomes.
O homem que introduz a personagem de DiCaprio nesta última cena é simplesmente o próprio Jordan Belfort, o que só comprova o quanto este filme não se trata de uma sátira, mas sim de um filme que põe homens como Jordan Belfort num pedestal. Afinal, ele tem tudo que a masculinidade pede de um homem: dinheiro, virilidade, bens de consumo, etc.
O filme enaltece tanto o universo masculino e o estilo de vida playboy do protagonista que a grande personagem feminina é a esposa-troféu de Jordan. Ela era a grande oportunidade do filme de não ser tão misógino, mas claro que deixaram essa passar: eles não estão dispostos a serem menos misóginos.
Se assim fosse, não retratariam as prostitutas da forma como retrataram.
“Ah, mas era tudo na visão de Jordan, por isso é uma crítica”
Mas não era. Era na visão do diretor. Martin Scorsese não costuma produzir obras que enalteçam o universo feminino ou que até mesmo tenham personagens femininas complexas.
Suas outras obras (Motorista de Táxi (1976), Touro Indomável (1980), Os Bons Companheiros (1990) e Ilha do Medo (2010)) sempre possuem dois traços em comum: violência e os personagens principais são homens.
Quando questionado sobre a falta de personagens femininas em seus filmes, ele disse: “Esse sequer é um ponto válido. É uma pergunta que ficam me fazendo há anos. E é uma perda de tempo para todos.”. Comprovando a sua falta de interesse em contar essas histórias e de até mesmo ser menos sexista em suas obras, como em O Lobo de Wall Street.
Quando se trata de grandes diretores conhecidos, como Quentin Tarantino, Stanley Kubrick, Alfred Hitchcock, Christopher Nolan, Martin Scorsese, todos têm duas coisas em comum: são homens e fazem filmes cercados de violência. Por serem homens, a maioria de suas narrativas são sobre um protagonista masculino e quando decidem tratar de mulheres essas normalmente são personagens secundárias que são ou sexualizadas ou abusadas na tela.
Não dá para negar como o ambiente machista da indústria do cinema tem uma influência nas produções. Afinal, quando a maioria das pessoas que fazem filmes são homens, essas obras terão a cara dos seus criadores.