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‘Ainda Estou Aqui’, dirigido por Walter Salles e estrelado por Fernanda Torres, Selton Mello e Fernanda Montenegro.
NO TEMPO DO SANTO (2023) (curta-metragem)
CAPAS ALTERNATIVAS
Processo de criação da capa do curta-metragem NO TEMPO DO SANTO, que esta disponível na @globoplay. E algumas capas alternativas que desenvolvi para o projeto.
Direção e Produção Geral @marcelorich
Sonhos roubados (2009)
Começando as postagens com uma das nossas maiores damas da dramaturgia brasileira, a minha favorita entre todas, a saudosa e inigualável Ruth de Souza (1921-2019), estrela de primeira grandeza do teatro, cinema e televisão, uma das mulheres que abriu os caminhos para toda uma infinidade de outras atrizes negras do nosso país.
Aplausos, Ruth de Souza!
O curso é voltado para atores que desejam aprofundar o seu trabalho. Longe de ser mais um método, "A Dramaturgia do Ator" é, na verdade, um
Matrículas Abertas!
Filme favorito de todos os tempos?
Bacurau!
Aquarius, filme de Kleber Mendonça
Desde o seu lançamento, Aquarius, filme do diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho, deu o que falar. Não só por causa da manifestação política fechativa deles em Cannes, mas por ser um belíssimo filme sobre memória, resistência e lar. Ele chegou aos cinemas em 2016 e conta a história de Clara (interpretada por Sônia Braga), que viveu no prédio “Aquarius” a vida inteira, até que uma construtora decide comprá-lo para construir um novo empreendimento. Clara se recusa a vender o seu apartamento e tenta continuar a viver sua vida normal, o que a construtora não facilita. Acusado de ser muito politizado, Aquarius nada mais é do que o retrato do Brasil.
Cheio de simbologias e de diálogos maravilhosos, Aquarius nos entrega uma obra-prima, que nos leva a refletir sobre várias coisas. Ele nada mais é do que um filme sobre uma brasileira que resiste até o fim de ser retirada da sua casa, do seu lar. E não, ele não é sobre a resistência indígena aos colonizadores. Não, ele não é sobre o processo de gentrificação no Rio de Janeiro de Pereira Passos. Não, ele não é sobre Dilma Rousseff resistindo ao golpe. Todavia, ele também é sobre todas essas coisas. A personagem de Clara é muito complexa e Aquarius é o seu lar e sua história, tudo em um só lugar. Resistir ali é algo muito natural para ela, que não abandona facilmente seus valores, desejos e lutas.
Pesquisando mais sobre o filme, me encantei ainda mais pelo seu diretor, que é muito conhecido pelo seu minimalismo ambíguo. Nada que é posto ali é por acaso, tornando as personagens, a trama e as interpretações muito mais complexas. Uma dessas coisas são os próprios nomes escolhidos: Clara é a última luz viva no Aquarius, um lugar carregado de memórias afetivas e história, um aquário para um peixe, um lugar de resistência e sobrevivência – para o peixe poder sobreviver fora do mar, ele precisa do seu aquário, assim como Clara, que para viver precisa daquele lugar. Outro nome interessante é o da própria construtora, a Bonfim, que tenta vender que está dando o melhor fim possível.
Com uma carga simbólica muito grande, Aquarius consegue fazer o que poucos filmes fazem: dizer muito fazendo pouco. Há muitos momentos em que ninguém diz nada, mas nós entendemos muito bem o que está acontecendo. Nos primeiros 15 minutos de filme, por exemplo, vemos o Aquarius na década de 80, sendo palco para a festa de 70 anos da tia Lúcia de Clara. Enquanto os filhos de Clara leem uma homenagem à tia-avó, Lúcia olha para uma cômoda disposta na sala. Daí, somos transportados para uma memória muito antiga dela, de quando aquela cômoda fazia parte do seu quarto, e de quando seu companheiro ainda era vivo. Aquela cômoda, mesmo parecendo ser só uma cômoda, ela carrega muitas outras coisas que não conseguimos ver a olho nu. Sem dizer nada, Kleber nos instiga pela primeira vez a refletir sobre como as coisas contam histórias, o que será discutido o resto do longa: a casa de Clara não é só uma casa; ela a construiu com seu marido, criou seus filhos, venceu uma doença e publicou seus livros vivendo naquela casa. Logo, assim como a cômoda, ela não é só um bem material.
Outro momento muito interessante, é o de quando Clara está em discussão com seus filhos. Sua filha a confronta por estar defendendo tanto o apartamento sendo que ela nem sempre esteve presente nele, já que teve que viajar por 2 anos a trabalho. Então, o irmão dela se levanta e pega um livro da estante. Inicialmente, não entendemos o que está acontecendo, justamente pela falta de diálogo, mas quando o diretor dá um close no livro, rapidamente entendemos do que se trata. De uma hora para a outra a postura da filha muda completamente e ela entende que estava errada. Além de ser uma cena linda que fala sobre maternidade, patriarcado e família, vemos mais uma vez que aquela casa conta uma história de vida.
É claro que Aquarius é perfeito nessa arte do não-diálogo graças a atuação. Nela, destaca-se a de Sônia Braga, que comoveu a todos pela sua interpretação sensível e intensa da sua personagem. Outra cena muito interessante para se pensar esse não-dizer do filme, é a que a namorada carioca do sobrinho de Clara lhe oferece uma música. “Pai e Mãe” de Gilberto Gil começa a tocar e a expressão de Sônia muda completamente. Sua atuação é realmente muito impressionante, transmitindo, com apenas o rosto, tudo o que aquela música é para ela: memória e história. Aquarius canta, conta e é a própria Clara, de 2015, 92 ou 83, ele não é só mais um prédio na frente da praia de Boa Viagem… pelo menos não para Clara.
Outra coisa interessante para se pensar nessa cena, é a importância da música. Não só nela mas como em outras cenas, a trilha sonora é muito significativa para a trama. Clara é jornalista e escritora e dedicou sua carreira à música, o que justifica a música ser tão central na sua história. Cada música escolhida para o filme tem um significado por trás, dando o tom da história e mais informações sobre a personagem, que muitas vezes está cantarolando as letras. Até a sua própria casa tem uma parede inteira dedicada a música, esbanjando uma coleção imensa de LPs e DVDs, o que revela o tamanho da música na sua vida.
Com relação a isso, podemos ligar outro ponto interessante desse filme: o cenário. Sendo um filme que fala sobre lar, memória e tempo, o cenário é fundamental para a construção da história. A casa da protagonista em muitos momentos nos revela coisas sobre a sua história – como a estante de livros ou a cômoda da sua tia Lúcia– e parece estar viva. Cheia de vida, objetos e história, a direção de arte foi muito boa na hora de construir o Aquarius, nos presenteando com um apartamento aconchegante no meio da decadência, ou melhor, da velhice.
Por falar em decadência, Aquarius é um bom filme para se pensar o processo de gentrificação que se passa nas grandes cidades. A especulação imobiliária transforma qualquer bem afetivo em mero pedaço de concreto pronto para ser demolido e se tornar uma mina de ouro. Essa especulação também é trazida de maneira metafórica. Caminhando pela praia com seu sobrinho e a namorada, Clara explica a carioca como funciona a divisão dos bairros em Boa Viagem. De um lado do cano de esgoto, a parte pobre, do outro, a rica.
Esse simples cano de esgoto divide as pessoas pelo simples filtro do que elas podem bancar ou não. Certamente, ao demolir o prédio, Bonfim irá colocar um empreendimento muito mais caro no seu lugar, provavelmente algo que Clara não poderá bancar, e dessa forma, a gentrificação e limpeza da cidade se estabelece, sendo vendida por pessoas como Diego (personagem responsável pelo novo prédio, interpretado por Humberto Carrão) como algo lindo. Por mais que a gentrificação seja um drama que possa ser vivido por qualquer cidadão, Aquarius conta um drama de classe média, levantando também outras questões relevantes sobre a classe.
Em entrevista ao Canal Brasil, Kleber revelou que ao construir a personagem de Sônia Braga, ele decidiu que o seu único defeito seria ser brasileira. Assim, ela possui muitas contradições, julgando seu amigo jornalista por privilegiar sua família no trabalho, mas logo depois pedindo favores para acabar com a Bonfim, tendo relações conflituosas com suas empregadas, cidade e capitalismo. Além de ser brasileira, Clara é classe média e, mesmo sendo intelectualizada, ela carrega todas as qualidades e defeitos que a sua personagem pede.
E claro, não podemos esquecer que ela também vive as questões de ser uma mulher, viúva e idosa. Seus dramas são muito sensivelmente apresentados e de forma sútil temos uma ideia da complexidade do que ela vive, como mulher, como classe média, como velha, como viúva, como moradora de um prédio na praia de Boa Viagem. Ela sabe muito bem das suas dores, prazeres e amores, sendo uma pessoa muito inteira. Até mesmo a mama que ela retirou por conta do seu câncer ela não decidiu reconstruir: tudo para ela são marcas do seu passado, e não há porque tentar escondê-lo ou vendê-lo para construtoras.
Confesso que eu duvidava do potencial dos filmes de Kleber Mendonça, achava que tinha muito hype e pouca coisa de fato, mas depois de assistir Bacurau (filme do diretor lançado em 2019) e Aquarius, me arrependo profundamente por algum dia ter tido qualquer pensamento negativo no que se diz respeito a esse diretor. O cinema brasileiro precisa de mais Klebers que produzam obras tão sensíveis e reais quanto Aquarius. Vale muito a pena assistir esse filme e ficar estonteada pelo roteiro, cenário, atuação e trilha, com certeza verei outras vezes e para sempre o recomendarei.