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Pensemos nisto, de uma forma tão subjetiva: através de matizes reduzidos ao azul notÃvago, e ao dourado da meia-luz duma madrugada inteirinha esmaltada em sombras, a vida que decidi experimentar nos altos do EdifÃcio Verdes Mares atravessa conceitos estéticos relativos aos anos oitenta, noventa…
Uma espécie de smooth jazz pra alinhar as conversas todas, liando as histórias da gente que a gente vai compartilhando um com o outro enquanto também desenrolamos nossos corpos à beira deste sofá, sentados no chão desta sala mal alumbrada.
A cena em questão parece ter sido editada tendo como referência as cenas de novelas brasileiras dos anos oitenta, com seus filtros imagéticos e matizes tão relacionados às nossas memórias afetivas dessa época […] e de repente penso que são nossas intenções criativas que definem quais são as memórias que mais preservamos, não?
[…] um homem elevado aos rútilos de qualquer coisa sagrada? Não, impossÃvel. Talvez estejamos nos referindo a um homem e sua arte, apenas.
Seus cabelos meticulosamente penteados para trás, molhados em gel; suas roupas combinadas ao seu corpo que afavelmente faz referência aos gregos arcaicos e suas esculturas chocantes... Postos aos ventos da manhã recém rompida, sua cara e seus gestos desfilam diante dos poucos movimentos das gentes que aos poucos preenchem estas avenidas feias, estas vielas malogradas, praças incautas, galerias opacas. Modos de quem se envaidece com cuidados ante o desalinhamento estético de um mundo descabido em si, feito quem narcisicamente se altiva em relação às pessoas em volta da sua imagem. Com efeito, não deixo de notar esta questão:
— Afirmar com rigor sua beleza em relação às belezas do restante do povo trata-se da exposição involuntária de suas próprias inseguranças, ou de tal maneira você só quer salientar pros olhos desse povo as coisas que julga bonitas em você mesmo, na sua aparência?
— Seria pecado reforçar ao mundo ou a nós mesmos o que julgamos esteticamente valoroso na gente? Afinal, para que me pergunte isso de algum jeito igualmente te atraio os olhos? A ser franco, ojerizo suas questões, sabia? Suas questões me são bem inúteis.
Dos Verdes Mares enxergo num matiz só um pedaço enorme do Setor Oeste, pouco feito em tantas cores ou horizontes rútilos, ou apenas azuis mareados fundidos ao reflexo dum nascer de sol tão vermelho quanto a pele da mulher gozada. Resido nestas alturas, bem no cerne do Setor Oeste, mas é também verdade que tenho uma garçonnière na avenida 136, e lá de noite damos palco àquilo que o dia parece ocultar na gente, às vistas do povo em geral: a revelação de novos fetiches, horas em que somente a criatividade é posta em prática por meio da escrita de diários, leituras desses diários que se estendem madrugadas a fio, apontamentos de mistérios que afluem por todo este cenário, a minha tão bem quista amadinha subjugada consensualmente às nossas relações sadomasoquistas, canções pirateadas recém descobertas…
O anjo-que-extraordinariamente-acompanha nos atrai os olhos, e o que vemos é isto: ele tanto guarda seu favorecido, ocultando-lhe o corpo e a alma contra os males destas provações a que nos dispomos todos, quanto age de maneira ordinária, humana. […] sou testemunha disto: a lua se encosta nas beiras dum horizonte constelado, e esta lua parece assistir, de longe, ao personagem angelical em questão fumar um cigarro de olhos rumados às estrelas, como se se ascendesse por dentro enquanto só fuma e fuma e fuma, com as próprias asas flutuando-lhe o corpo sobre o terraço de um shopping.
Este anjo serena à noite.
Bebo um gole de café frente ao meu anjo de guarda. Com meus dedos da mão esquerda meço sobre o meu braço direito a extensão entre duas pintas. Enquanto mentalmente refaço cálculos, pergunto de súbdito ao meu anjo:
— O que te faz de fato divino, entre os homens todos e suas violações, convivendo e agindo com os homens, com estes homens tão aterrados na própria carne, em matéria e densidade de mundos iguaizinhos a este mundo em que igualmente aterro a fundo minha vida, nossas vidas, entre os tantos efeitos das provações humanas?…
Meu protetor angélico não responde à s minhas questões sobre sua natureza Ãntima, mas vejo as sugestões de suas respostas ocasionalmente expressadas na maneira como ele me olha.
— Iguais aos anjos divinos, há anjos corrompidos pela profanidade da carne, isto é, deturpados pela materialidade dos sentidos, subjugados pelo que exigem as vontades vis desta nossa pele?
— A vida se faz com a carne. A vida se faz com o sangue, com o suor da gente, com o corpo inteiro da gente, e para mim há nisto um ascetismo evidentemente tão forte…
— Acho que isto não me responde a pergunta…