late night walk
bleedingrcd :
Um suspiro frustrado deixou os lábios de Braelyn. Levantou os olhos de seu uniforme arruinado para o espelho, de onde seu reflexo a encarava com o cenho franzido e expressão de poucos amigos. Precisava ter se chocado contra alguém enquanto carregava um copo extra-grande de milkshake de chocolate; como se não bastasse o que teria de gastar com um novo uniforme, também desperdiçara mais da metade do que, julgando o seu atraso, seria o seu jantar naquela noite.
— Brae, você já terminou aí? O restaurante está lotado — a voz de Autumn, uma de suas colegas de trabalho, ecoou do outro lado da porta, parecendo um pouco apreensiva. Braelyn balançou a cabeça em negação, alcançando o casaco que também fazia parte de seu uniforme de trabalho. Não poderia sair dali com a blusa naquele estado, e, na falta de uma extra, teria de esconder o desastre da melhor forma possível.
Puxou o zíper do casaco até onde era possível sem sufocar a si mesma e, então, finalmente abriu a porta, soando muito mais desanimada do que o comum ao dar sua resposta. — Estou aqui — murmurou, ajeitando os cabelos em um coque apertado antes que alguém pudesse sequer pensar em censurá-la por mantê-los soltos. Autumn pareceu prestes a desmaiar ao vê-la.
— Você está se sentindo bem, Brae? Está bem quente aqui — argumentou, arqueando as sobrancelhas. — Quer tomar um remédio ou algo do tipo? Posso cobrir seu turno se quiser ir para casa — acrescentou, soando genuinamente preocupada. Braelyn sorriu diante da atitude adorável e, na realidade, bem compreensível. Se sentia como um dos hambúrgueres que Joe, o cozinheiro, estava preparando na chapa naquele momento, e não duvidava de que logo começaria a suar, mas não podia permitir que algo tão trivial atrapalhasse o seu trabalho.
— Estou ótima, não preciso de nada — assegurou a amiga, então. De forma alguma poderia se dar ao luxo de deixar alguém cobrir qualquer um de seus turnos, especialmente quando cada centavo que ganhava era necessário para pagar seus estudos na universidade e sua parte nas contas da casa. Embora seu pai insistisse que não era necessário, Braelyn sabia que ele se esforçava muito por pouco dinheiro, e, como apenas os dois viviam naquela casa, procurava ajudar sempre que podia.
— Bem, se você diz… — Autumn resmungou, ainda parecendo desconfiada. — Tem alguém acenando ali, na mesa 8 — acrescentou, apontando para um ponto atrás de Braelyn, além do balcão que separava o bar e a cozinha do espaço ocupado pelos clientes. Ela se limitou a assentir, pegando seu bloco de notas e uma caneta e se encaminhando até ali.
— Boa noite — cumprimentou, com um sorriso. Não pôde deixar de notar que a mesa estava encoberta por papéis e cadernos, o que denunciava que os dois rapazes a ocupá-la provavelmente viviam na mesma situação que a dela: a de universitários. Quantas vezes não fizera a mesma coisa? — Já sabem o que vão querer?
Ele respirou fundo, preparando-se psicológica e fisicamente para o ataque culinário do qual ele seria o alvo principal a partir do momento que Pete começasse a pedir. E Kale sabia que seria para dois, pois seu amigo jamais o deixaria sair daquele restaurante se não ingerisse uma quantidade razoável de comida.
Porém, quando inspirou, notou o inconfundível cheiro de chocolate no ar. Olhou por sobre os ombros, para o balcão, mas não havia nada ali que se assemelhasse ao que seu olfato captava. Franzindo a testa, ele voltou a olhar para frente, para seu caderno. ‘Talvez esteja vindo da cozinha’, deu de ombros, voltando a escrever. Porém o cheiro permaneceu ali, chegando até a ficar mais forte, como se estivesse se aproximando dele. Kale não acreditava que milkshakes saíam caminhando por aí, escolhendo quem seria o sortudo a consumi-lo, portanto erguera os olhos mais uma vez, apenas para notar a atendente que vinha até eles.
Ela vestia um casaco, e aquilo fora o suficiente para Kale ligar os pontos. Ninguém em sã consciência usaria um casaco quando o lugar em que estavam tinha uma temperatura consideravelmente quente, e o inegável aroma adocicado que ela exalava deixou claro para ele o que havia acontecido. Kale tentou não sorrir, baixando os olhos novamente.
— Boa noite! — Peter cumprimentou, dirigindo seu melhor sorriso para a garota. Não podia culpá-lo, ela era realmente bonita. Bonita o suficiente para que Kale aceitasse comer tudo o que havia no menu, se assim ela quisesse, mas ele decidiu manter aquele pensamento para si mesmo. Peter talvez convencesse a garota a fazer aquilo, e ele não estava disposto. — Sim, ahn, dois cheeseburguers, os dois acompanhando batatas fritas, um refrigerante e... O que quer beber, K? — Peter atirou, não deixando espaço para recusas e Kale suspirou discretamente. Olhou para a atendente e leu Braelyn em seu pequeno crachá. Era um nome bonito; combinava com ela. Fingiu pensar um pouco, mas não o suficiente para fazer a atendente bonita perder a paciência, e sorriu ao proferir as próximas palavras, observando atentamente a reação alheia. — Um milkshake. Chocolate, por favor.
Ele notou, mesmo sem olhar para o amigo, o semblante satisfeito que ele tinha. Peter normalmente detestava quando Kale recusava comida, sinceramente não compreendendo sua falta de apetite quase contante. É claro que ele não entenderia; e Kale não pretendia explicar de onde tudo aquilo vinha - ou não vinha.









