junho chegou
com fogo no peito
e sol no coração
não veio me pedir perfeição
veio me pedir coragem
coragem de acordar cedo
mesmo com preguiça
coragem de cuidar do corpo
mesmo cansada
coragem de me alimentar
mesmo sem fome
coragem de descansar
sem culpa
junho me mostrou
que força interior
não é dureza
é escuta
é saber quando correr
e quando caminhar
quando nadar mais longe
e quando sair da água
quando falar
e quando respirar antes de queimar
eu sou fogo
e em junho aprendi
que meu fogo pode iluminar
aquecer
acolher
sem precisar ferir
eu sou água
e em junho aprendi
que posso fluir
muito além do que imaginei
nadei cinco quilômetros
e mais um pouco
caí na corrida
ralei o joelho
a mão
a perna
levantei
e continuei
porque junho me ensinou
que cair
não é o fim do caminho
às vezes
é só o corpo tocando o chão
antes da alma lembrar
que ainda sabe seguir
junho teve banho de ervas
vela acesa
decreto
carta queimada
horas iguais
céu bonito
chuva por fora
sol por dentro
teve casa limpa
gaveta arrumada
comida da semana
whey depois do treino
café da manhã com presença
e silêncio fazendo morada
teve minha mãe viva
um ano depois do medo
teve aniversário
família reunida
jogo do brasil
pão sem glúten comprado para mim
risada na casa da avó
figurinhas coladas com o liam
giovanna dançando
música alta no carro
e eu percebendo
que talvez eu tenha nascido mesmo
para ser tia
teve trabalho intenso
reuniões difíceis
feedback que emocionou
plano de carreira
reconhecimento
e a sensação bonita
de ser vista
teve ansiedade
raiva
enjoo
alergia
anemia
cansaço
preguiça
vontade de desistir
mas teve também
a minha volta
sempre a minha volta
eu me desregulei
mas voltei
me irritei
mas respirei
me frustrei
mas não entreguei meu dia inteiro
me perdi por alguns instantes
mas me encontrei de novo
junho me ensinou
que inteligência emocional
não mora nos dias fáceis
mora no instante
em que eu percebo
que posso escolher
não me abandonar
e então
a quinta essência viveu no mundo
não perfeita
não pronta
não acabada
viva
pela minha voz
pela minha coragem
pela minha escuta
pela primeira mentoria
pela segunda
pela terceira que não aconteceu
mas ainda assim chegou
no momento certo
para alguém
junho me ensinou
que eu não conduzo pessoas
porque sou perfeita
eu conduzo
porque tenho consciência
porque caminho
porque sinto
porque caio
porque aprendo
porque transformo dor
em presença
e no último dia
eu entreguei ao fogo
uma carta
pedi amor
prosperidade
saúde
caminhos abertos
desapego
perdão
libertação
pedi para soltar
o que não é meu
e talvez
essa tenha sido
a maior força de junho
não segurar tudo
não controlar tudo
não carregar tudo
junho me ensinou
que força interior
não é vencer o mundo
é permanecer comigo
enquanto atravesso
é ver deus
no reflexo da luz
dentro da piscina
é sentir o universo
num nascer do sol
é entender
que o extraordinário
não precisa gritar
às vezes
ele só aparece
numa risada
num banho quente
numa mensagem doce
numa conversa franca
numa casa limpa
num abraço apertado as 21h
numa família reunida
numa criança cantando no carro
num corpo que continua
num coração que ainda acredita
junho termina
e eu não sou a mesma
não porque virei outra pessoa
mas porque voltei
mais uma vez
para mim
mais consciente
mais inteira
mais corajosa
mais minha
junho me ensinou
que minha força
não está em nunca quebrar
está em lembrar
que mesmo quando algo em mim treme
ainda existe um sol
que sabe nascer
por dentro


















