Estou tão assustada que só poderei aceitar que me perdi se imaginar que
alguém me está dando a mão. Dar a mão a alguém sempre foi o que esperei da alegria. Muitas vezes antes
de adormecer - nessa pequena luta por não perder a consciência e entrar no
mundo maior - muitas vezes, antes de ter a coragem de ir para a grandeza do sono, finjo que alguém está me dando a mão e então vou, vou para a enorme
ausência de forma que é o sono. E quando mesmo assim não tenho coragem,
então eu sonho. (...) Enquanto escrever e falar vou ter que fingir que alguém está segurando a
minha mão.
Oh pelo menos no começo, só no começo. Logo que puder dispensá-la, irei
sozinha. Por enquanto preciso segurar esta tua mão - mesmo que não consiga
inventar teu rosto e teus olhos e tua boca. Mas embora decepada, esta mão não me assusta. A invenção dela vem de tal idéia de amor como se a mão estivesse
realmente ligada a um corpo que, se não vejo, é por incapacidade de amar mais.
Não estou à altura de imaginar uma pessoa inteira porque não sou uma pessoa
inteira. E como imaginar um rosto se não sei de que expressão de rosto preciso?
Logo que puder dispensar tua mão quente, irei sozinha e com horror. (...) Embora eu saiba que o horror - o horror sou eu diante das coisas.