Grenouille - Preenchido -Parte 1
Daniel era um atendente de telemarketing comum. Trabalhava em uma empresa que prestava serviços para diversos clientes, mas sua equipe era responsável pelo atendimento do FIES. Todos os dias, ajudava pessoas a resolver problemas burocráticos relacionados ao financiamento estudantil. Às vezes, porém, sentia que era apenas um para-choque de uma realidade injusta, onde muitos não tinham acesso à educação sem se submeter a programas criados para corrigir desigualdades, ainda que, no processo, enriquecessem os donos de faculdades privadas.
Aos 22 anos, Daniel sonhava em cursar o ensino superior, mas não fazia ideia do que estudar. Tomar decisões sempre fora um problema para ele. Tinha cabelos curtos, 1,70 m de altura, pele clara e era torcedor apaixonado do Vitória. Gostava de passar os finais de semana em churrascos com os amigos, onde o assunto quase sempre acabava girando em torno de carros. Talvez devesse fazer algum curso relacionado a isso.
Quando criança, seu sonho era ser piloto. A velocidade o fascinava. Havia algo nela que o colocava em contato com uma parte profunda de si mesmo. Aos quinze anos, quando começou a dirigir escondido, percebeu isso pela primeira vez. Naqueles momentos, não era Daniel. Era Kyoshi, o lendário piloto de Fórmula 1 que idolatrava na infância. Todos os domingos, ele e seu pai assistiam às corridas juntos.
Por muito tempo, Daniel acreditou que sua vida seguia um rumo satisfatório. Tinha um emprego razoavelmente bem remunerado e ainda morava com o pai. Filho único, perdera a mãe três anos antes. Seu pai, Reginaldo, era funcionário público dos Correios, e os dois levavam uma vida relativamente tranquila e estável.
Mesmo assim, Daniel se sentia entediado.
Tudo parecia repetitivo, previsível e superficial.
As pessoas lhe pareciam obcecadas por rotinas automáticas e comportamentos mecânicos. Frequentemente tinha a sensação de que não conversava com indivíduos, mas com uma única entidade chamada "Pessoas", uma consciência coletiva que apenas se manifestava através de corpos diferentes. O único momento em que se sentia verdadeiramente vivo era quando estava em movimento.
Seu passatempo favorito era dirigir o Celta preto que ganhara do pai sete meses antes. À noite, quando as ruas estavam mais vazias, ele saía sem destino definido, apenas para sentir o motor responder aos seus comandos.
Em uma dessas noites, enquanto aguardava o sinal vermelho abrir, algo chamou sua atenção.
Um Civic vermelho cruzou o cruzamento em alta velocidade, ignorando o semáforo. O carro virou noventa graus à esquerda, cantando pneus de forma agressiva. Daniel imediatamente ficou alerta.
Poucos segundos depois, outro veículo repetiu exatamente a mesma manobra e então do semáforo, ele acompanhou os dois carros com os olhos e logo compreendeu o que estava acontecendo: era uma corrida.
Quando voltou o olhar para a frente, o sinal acabava de ficar verde aquilo pareceu uma confirmação sem pensar duas vezes, Daniel virou o volante para a esquerda e acelerou ele perseguiu os dois carros por avenidas largas e ruas desertas, acompanhando as manobras arriscadas e o rugido dos motores. A adrenalina queimava em suas veias. Seu coração disparava a cada curva então, em um impulso quase instintivo, encontrou uma abertura. Pisou fundo o Celta avançou e ultrapassou um dos competidores.
Uma onda de êxtase o atingiu.
Daniel gargalhou.
Por um breve instante, enquanto passava pelo outro carro, conseguiu ver o rosto do motorista. A expressão de espanto estampada em sua face provocou nele um prazer intenso e inesperado naquele momento, Daniel não era mais um atendente de telemarketing, não era mais uma peça da engrenagem.
Era apenas a velocidade.
E pela primeira vez em muito tempo sentia-se vivo.














