Eu morri aos 15 anos de idade. É estranho como esse dia fica guardado em minha memória, tão presente quanto o dia de meu nascimento. Se me pedissem para escrever uma carta pós morte, ela provavelmente estaria em branco, vazia, como todas as outras partes da minha vida. Não entendo por que as pessoas ainda temem isso, não é algo palpável, e nem um pouco doloroso, é algo libertador. Foi assim que me senti enquanto me encarava no espelho naquele dia de verão, lembro do som do aspirador de pó, que minha mãe usava para limpar o tapete da sala de estar, ou o cortador de grama, que meu pai arrastava por todo o jardim. Não era um momento silencioso, pois eu também conseguia ouvir minha mente gritar, e gritar, e gritar, era apenas um ruído sem fim. Mas eu não conseguia entender o que ela me dizia, ou apenas escolhi não entender. Enquanto encarava meu reflexo no espelho sujo do banheiro, eu pude ver algo descendo pelos meus olhos negros, eu pensei por que eu estava fazendo aquilo? Sendo tão fraco. Por que essas lágrimas ainda insistiam em tentar lavar algo que já estava sujo a muito tempo? Ninguém podia ajudar, ninguém podia sentir o que eu sentia, pois ninguém realmente estava ali. Foi então que senti a lamina perfurar minha pele, segundos depois de meu sangue começar a escorrer do meu corpo. Eu respirei fundo, e comecei a sentir meus olhos escurecerem cada vez mais. Quando meus joelhos caíram no chão gelado daquele banheiro, que se estendia em uma mistura de vermelho e negro, aquela voz voltou a gritar em minha mente novamente, e dessa vez eu consegui entender o que ela agoniava. Era uma única e dolorosa palavra : “NÃO”.