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@cartasperdidas-blog
You are the universe [submission]
Trinta e dois dias.
Já fazem trinta e dois dias que eu não vejo teu rosto. Trinta e dois dias que não recebo uma mensagem de boa noite vinda de você, que não acordo sabendo que vou ter uma companhia pro almoço, que não fecho os olhos e durmo com a certeza de que, se eu morrer, alguém vai cuidar do meu cachorro. Eu gostaria muito que relacionamentos pudessem ser considerados vícios, porque em certo ponto, eles são. Eu gostaria que isso fosse considerado um vício para ter uma desculpa socialmente aceitável pra não sair de casa hoje. Eu gostaria de poder dizer que estou sofrendo de abstinência, e não de saudade, porque as pessoas compreendem que a abstinência é horrível e não opcional, mas, por algum motivo, não veem a saudade da mesma forma. Minha mãe diz que ando mais esquecido do que nunca, porque, na concepção dela, eu esqueço de cortar o cabelo e fazer a barba, de passar a camisa, de dar um nó bonito na gravata, entre outras coisas. É verdade que eu esqueço, mas caramba, minha memória me parece ótima, porque nem por um segundo sai da minha cabeça o jeito que você se despediu de mim. O meu cérebro simplesmente não me obedece quando eu imploro pra esquecer tudo relacionado a você, e isso me frustra, porque eu fico imaginando que poderia usar esse percentual de memória pra outras coisas. Há alguns dias, eu sabia quem seria a mãe dos meus filhos, sabia quais seriam seus nomes e times – um flamenguista e o outro botafoguense- e até mesmo a cor da parede da nossa futura sala de jantar. Mas agora, eu não sei aonde você está, eu sequer sei quem é esse cara pálido e barbudo que me olha quando encaro o espelho. Longe de mim ser um cara adepto da mendicância, mas acontece que você é uma parte substancial do meu corpo e essencial pra minha existência, então tá sendo muito complicado levantar da cama todos os dias e andar por aí carregando essa ausência tão pesada que é a tua. É como se, além da minha mochila cheia de livros, eu carregasse um saco de pedras apelidadas carinhosamente de memórias. Já fazem trinta e dois dias que uma ferida se abriu em mim, e até agora ela continua aberta e não apresenta sinais de melhora. Toda vez que eu tento fazer algo divertido para me distrair, alguém esbarra nela e me lembra que ela existe. Toda vez que me perguntam como estou, eu invento uma mentira para exibir que estou bem, e é como se eu colocasse um curativo na minha ferida. E quando estou sozinho em casa e tiro o curativo, dói ainda mais porque percebo que a ferida ainda está ali, tudo aquilo não passou de uma ilusão. Eu só espero que a quantidade de dias que vou levar para superar seu abandono não seja diretamente proporcional à quantidade de dias que me senti o cara mais feliz do mundo ao seu lado.
Como fazê-la entender que a carícia do vento não é uma despedida e o cair da noite não é o fim da vida?
Precatas. (via vireipassaro)
Não sei direito o que é aurora boreal, mas acho que deve ser algo lindo que se formava enquanto você era feito. Não sei direito o que é isso que eu sinto por você. Mas como é maravilhoso fumar você, cheirar você, tomar você, injetar você. Calar a boca. Me pergunta uma daquelas coisas para eu dar uma daquelas respostas que você morre de rir. Me deixa pirar no seu céu da boca escancarado. Você se joga pra trás. E só porque você e o mundo inteiro têm certeza do quanto você é lindo, você faz questão de sempre se largar no mundo. É a liberdade que só tem quem é infinitamente lindo ou infinitamente feio. Eu sou mais ou menos, mas nesse segundo, já que comprei sua beleza, sou a mulher mais linda do mundo. Me deixa ser linda vestindo você.
Tati Bernardi. (via docearei)
Sobre seus olhos.
E então a tempestade chegou, veio dentro dos teus olhos. Esses olhos verdes, acusadores, exigentes. Já me viram de tantas formas, como reagiriam se me vissem ir embora? Senti aos poucos que seu olhar me tragava e em questão de segundos, me engoliriam por inteira. Ainda existia mágoa em mim, ainda existia o pesar dos furacões causados por sua voz firme, os maremotos das minhas lágrimas ao sentirem que você já não era tão meu, e os terremotos causados no meu coração pelos incessantes silêncios que nos cercavam. E diante de tantos fenômenos naturais, que mais eu poderia fazer, além de perdoar pela milésima vez as suas centenas de erros? É um absurdo, é totalmente patético, mas a verdade é que diante do seu rosto, eu esqueço nossas intrigas e só consigo pensar em uma coisa: Tomara que nossos filhos tenham seus olhos.
Namore um cara que se orgulha da biblioteca que tem, ao invés do carro, das roupas ou do penteado. Ele também tem essas coisas, mas sabe que não é isso que vai torná-lo interessante aos seus olhos. Namore um cara que tenha uma pilha de três ou quatro livros na cabeceira e que se lembre do nome da professora que o ensinou as primeiras letras. Encontre um cara que lê. Não é difícil descobrir: ele é aquele que tem a fala mansa e os olhos inquietos. Ele é aquele que pede, toda vez que vocês saem para passear, para entrar rapidinho na livraria, só para olhar um pouco. Sabe aquele que às vezes fica calado porque sabe que as palavras são importantes demais para serem desperdiçadas? Esse é o que lê. Ele é o cara que não tem medo de se sentar sozinho num café, num bar, num restaurante. Mas, se você olhar bem, ele não está sozinho: tem sempre um livro por perto, nem que seja só no pensamento. O rosto pode ser sério, mas ele não morde, não. Sente-se na mesa ao lado, estique o olho para enxergar a capa, sorria de leve. É bem fácil saber sobre o quê conversar. Diga algo sobre o Nobel do Vargas Llosa. Fale sobre sobre as novas traduções que andam saindo por aí. Cuidado: certos best-sellers são assunto proibido. Peça uma dica. Pergunte o que ele está lendo – e tenha paciência para escutar, a resposta nunca é assim tão fácil. Namore um cara que lê, ele vai entender um pouco melhor seu universo, porque já leu Simone, Clarice e – talvez não admita – sabe de memória uns trechos de Jane Austen. Seja você mesma, você mesmíssima, porque ele sabe que são as complicações, os poréns que fazem uma grande heroína. Um cara que lê enxerga em você todas as personagens de todos os romances. Um cara que lê não tem pressa, sabe que as pessoas aprendem com os anos, que qualquer um dos grandes tem parágrafos ruins, que o Saramago começou já velho, que o Calvino melhorou a cada romance, que o Borges pode soar sem sentido e que os russos precisam de paciência. Um namorado que lê gosta de muita coisa, mas, na dúvida, é fácil presenteá-lo: livro no aniversário, livro no Natal, livro na Páscoa. E livro no Dia das Crianças, por que não? Um cara que lê nunca abandonará uma pontinha de vontade de ser Mogli, o menino lobo. E você também ganhará um ou outro livro de presente. No seu aniversário ou no Dia dos Namorados ou numa terça-feira qualquer. E já fique sabendo que o mais importante não é bem o livro, mas o que ele quis dizer quando escolheu justo esse. Um cara que lê não dá um livro por acaso. E escreve dedicatórias, sempre. Entenda que ele precisa de um tempo sozinho, mas não é porque quer fugir de você. Invariavelmente, ele vai voltar – com o coração aquecido – para o seu lado. Demonstre seu amor em palavras, palavras escritas, falas pausadas, discursos inflamados. Ou em silêncios cheios de significados; nem todo silêncio é vazio. Ele vai se dedicar a transformar sua vida numa história. Deixará post-its com trechos de Tagore no espelho, mandará parágrafos de Saint-Exupéry por SMS. Você poderá, se chegar de mansinho, ouví-lo lendo Neruda baixinho no quarto ao lado. Quem sabe ele recite alguma coisa, meio envergonhado, nos dias especiais. Um cara que lê vai contar aos seus filhos a História Sem Fim e esconder a mão na manga do pijama para imitar o Capitão Gancho. Namore um cara que lê porque você merece. Merece um cara que coloque na sua vida aquela beleza singela dos grandes poemas. Se quiser uma companhia superficial, uma coisinha só para quebrar o galho por enquanto, então talvez ele não seja o melhor. Mas se quiser aquela parte do “e eles viveram felizes para sempre”, namore um cara que lê. Ou, melhor ainda, namore um cara que escreve.
Namore Um Cara Que Lê (via beletrismos)
Eu sou a garotinha assustada, de cinco ou seis anos, ajoelhada no chão do banheiro pedindo que os pais parassem de brigar, assustada com o amor, assustada com a vida, assustada com a porta trancada e a solidão. Essa mesma garotinha mal resolvida que vaga dentro de mim, como um espírito que não aceita evoluir, é a garotinha que quis se curar do medo do amor com um amor tão grande, tão grande, tão grande, que não existe. E ficou sem nenhum.
Tati Bernardi. (via manuscrite)