De cima da ponte, tu me observa ser arrastada pela correnteza.
O dia está abafado por causa da chuva da noite anterior.
— Pula! — grito, observando-a do outro lado da ponte velha.
— Não! — ela grita de volta, cobrindo os olhos com a sombra da própria mão. — Eu não posso.
— Por quê? Vem. Eu pulei. Agora é tua vez.
Ela me olha com uma esperança quase infantil, como se esperasse que, enfim, eu entendesse. Mas eu não entendo. Ou talvez não queira entender.
Insisto.
Não sou capaz de alcançar o medo que a cerca. Ignoro o silêncio que se instala entre nós e o pedido de socorro que, mesmo sem palavras, escapa pelos poros dela.
— Pula! A gente combinou — grito outra vez.
— A gente combinou que tu pularia.
— Não. A gente combinou que nós duas pularíamos.
Ela permanece parada. E talvez essa seja a diferença entre nós duas.
Eu mergulho em águas profundas enquanto tu só arrisca molhar os pés. Tu não pularia nem mesmo sabendo que o pior que poderia acontecer seria um corte no joelho, aberto pelas cascas de ostras presas à base da ponte. Eu salto mesmo sabendo que posso sair da queda com um membro a menos.
Eu pularia de um abismo se fosse preciso. Mesmo que, no meio da queda, tu soltasse a minha mão. Mesmo que eu tivesse de aprender a cair sozinha.
Mas tu não consegue pular da velha ponte da Barra do Ceará, mesmo quando eu juro que vou te segurar. Mesmo quando prometo que, se tu afundar, eu afundo contigo. Que, se o rio te levar, eu vou atrás. Que não existe profundidade em que eu não mergulharia para te buscar.
E talvez eu nunca tenha entendido que, para ti, o medo não desaparece porque alguém promete segurá-la.
Eu achava que amar era isso: estender a mão e dizer vem. E talvez tenha sido esse o meu erro.
- Maboo, 1998.













