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Uma mulher não pode ser reduzida a apenas uma pessoa que gesta. Quem faz isso ignora toda a grandiosidade que existe por trás de ser mulher.
Quando Deus criou o masculino e o feminino, Ele os fez com funções distintas, com corpos e características próprias. Cada um cumpre um papel essencial. O masculino foi dotado da capacidade de gerar a semente, enquanto o feminino recebeu a capacidade de germinar. Um não pode criar uma nova vida sem o outro.
Só Deus pode dar a vida e, depois Dele, o sexo feminino recebeu a capacidade de gerar, carregar e dar à luz uma nova vida.
A gestação, por si só, já é um fenômeno incrível. O corpo da mulher se transforma, se expande de acordo com as necessidades da vida que carrega. Os hormônios mudam e, com eles, também mudam os sentimentos, o humor e a forma como seu corpo funciona.
O parto é outro fenômeno extraordinário. A ciência compara a intensidade dessa dor à sensação de cerca de 20 ossos sendo quebrados ao mesmo tempo. E o sexo feminino suporta essa dor. No momento em que dá à luz, ela é capaz de esquecer a intensidade da dor, como se tivesse adormecido, abraçar e sorrir, porque a chegada daquela vida supera a dor que acabou de enfrentar.
Mas esse fenômeno não termina com o nascimento. Após o parto, acontece algo extraordinário. Aquela que deu vida a uma nova vida também passa a entregar a própria vida em prol daquela existência.
Com o passar dos anos, a mãe acompanha os passos daquela vida. E, quando essa vida corre perigo, ela adquire uma força que antes não conhecia. É capaz de levantar um carro, um portão de ferro, pular em um rio sem saber nadar, enfrentar leões e ursos, atravessar florestas e lutar contra perigos que parecem impossíveis.
Na Venezuela, uma mãe permaneceu por dez dias debaixo de escombros, sem água e sem comida, alimentando seus três filhos com leite materno, sem deixar que nenhum deles morresse de fome ou sede. Ela sustentou aquelas vidas com o próprio sangue. Mas quem alimentou essa mãe durante todos esses dias, quando ela mesma não tinha comida nem água?
Esse fenômeno não ocorre apenas nas mulheres. Ele também existe no feminino de outras espécies. Animais também enfrentam perigos, predadores e situações extremas para proteger suas crias.
São fenômenos que ultrapassam aquilo que a natureza consegue explicar.
Quem ignora que uma mulher é dotada de algo extraordinário, que não pode ser comprado ou adquirido, ignora a grandiosidade da criação e a própria mãe que um dia lhe deu a vida.
Neide Torres
A roda da fortuna
Faz dez anos. A luz entra pela porta de vidro. Ilumina uma parte da estante, dos livros. Ilumina o vaso onde se lê Quintana: "eles passarão, eu passarinho''. Ilumina Freire, e a boniteza está dormindo logo atrás: Jujuba, um caracol de pelos brancos-amarelados. O tapete macio feito ego. Felipão à frente de Gatsby. Felipão e a cerveja, o presente. Em vida, ele me deu sorrindo. Agora é saudade.
O isqueiro egípcio não conseguiu reascender as nossas chamas. Dez anos.
As xícaras floridas, as vasilhas verdes, tirrinas. Matilda quebrou uma, quebrou dez copos de uma vez. Eu gritei, ela não voltou. Agora é saudade.
São Jorge, Iansã. "Outros jeitos de usar a boca''. As mesmas palavras? Outros olhos. O rastro na geladeira. "Never again'' tocou, já era tarde. Dez anos. Agora não é saudade.
Naquela gira meu machucado me deu uma dica: siga o sol, crescer pra cima e crescer pra baixo. Enraizar. Dar fruto. Engendrar.
Mais dez anos.
Eu passarei. Eles, passarinhos.
Even if I could scratch the sky,
I still wouldn't be able to grasp the feeling
of holding so sublime a woman as you.
Trecho do livro (Oração) de Timothy Keller.
A oração é um refúgio.
Às vezes me sinto desconectada das pessoas, dos sentimentos e de tudo ao meu redor. Não é exatamente tristeza. É um vazio, como uma melancolia daquelas que tomam conta da gente em dias de chuva.
É um esgotamento sensorial e emocional, uma exaustão na alma, um vazio que me deixa sem vontade de socializar, conversar, ouvir ou falar. Nesses momentos, escolho a solitude do meu quarto escuro, me afastar e ficar quieta, ouvindo melodias tristes, porque, de alguma forma, elas se conectam comigo.
Porque, nesses momentos, as pessoas me cansam, me irritam e acabam me deixando ainda mais vazia.
Neide Torres