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A roda da fortuna
Faz dez anos. A luz entra pela porta de vidro. Ilumina uma parte da estante, dos livros. Ilumina o vaso onde se lê Quintana: "eles passarão, eu passarinho''. Ilumina Freire, e a boniteza está dormindo logo atrás: Jujuba, um caracol de pelos brancos-amarelados. O tapete macio feito ego. Felipão à frente de Gatsby. Felipão e a cerveja, o presente. Em vida, ele me deu sorrindo. Agora é saudade.
O isqueiro egípcio não conseguiu reascender as nossas chamas. Dez anos.
As xícaras floridas, as vasilhas verdes, tirrinas. Matilda quebrou uma, quebrou dez copos de uma vez. Eu gritei, ela não voltou. Agora é saudade.
São Jorge, Iansã. "Outros jeitos de usar a boca''. As mesmas palavras? Outros olhos. O rastro na geladeira. "Never again'' tocou, já era tarde. Dez anos. Agora não é saudade.
Naquela gira meu machucado me deu uma dica: siga o sol, crescer pra cima e crescer pra baixo. Enraizar. Dar fruto. Engendrar.
Mais dez anos.
Eu passarei. Eles, passarinhos.
Even if I could scratch the sky,
I still wouldn't be able to grasp the feeling
of holding so sublime a woman as you.
Trecho do livro (Oração) de Timothy Keller.
A oração é um refúgio.
Às vezes me sinto desconectada das pessoas, dos sentimentos e de tudo ao meu redor. Não é exatamente tristeza. É um vazio, como uma melancolia daquelas que tomam conta da gente em dias de chuva.
É um esgotamento sensorial e emocional, uma exaustão na alma, um vazio que me deixa sem vontade de socializar, conversar, ouvir ou falar. Nesses momentos, escolho a solitude do meu quarto escuro, me afastar e ficar quieta, ouvindo melodias tristes, porque, de alguma forma, elas se conectam comigo.
Porque, nesses momentos, as pessoas me cansam, me irritam e acabam me deixando ainda mais vazia.
Neide Torres
O Reencontro
Reencontrar teu olhar é encontro de almas, certeza bonita que o tempo não desfaz. Não há vento que apague, não é passageiro; no avesso do peito, sempre foi você.
Ao te ver chegar, o corpo inteiro acelera, cada fibra de mim vira pressa e calor. Teu beijo queima mais do que o fogo, incendiando a pressa desse nosso amor.
Quero ler cada detalhe do teu rosto, saber de cor os teus traços, mais e mais. Sabor de mistério, provar do teu gosto, nos teus braços, encontrar minhas pazes.
E no espaço que a tua pele delimita, onde o toque se expande e o silêncio grita, com você, minha paixão personifica.
— Moura
Nos últimos anos, tenho tentado compreender o amor, a profundidade desse sentimento. Tenho assistido a filmes, documentários e lido livros sobre esse assunto, tentando entender a essência do amor para não perdê-la.
E descobri uma coisa com tudo isso: quando você sente um amor verdadeiro, talvez nunca consiga simplesmente se livrar dele.
Você pode amar outra pessoa, construir uma nova história e ser feliz, mas aquele amor fica guardado em algum lugar do coração. E, em momentos inesperados, você pensa naquela pessoa e sente, no fundo da alma, um vazio que, por mais que você ame outra pessoa, parece não ser preenchido.
Você pode buscar essa pessoa em várias situações da vida, mesmo sem perceber. Pode querer saber como ela está, mesmo que ela nunca saiba disso. Porque, em algum lugar dentro de você, existe a sensação de ter perdido algo importante, talvez um arrependimento que nem sempre é admitido conscientemente.
Isso trouxe algumas respostas para perguntas que eu fazia a mim mesma, principalmente sobre sentimentos de culpa por sentir algo que eu gostaria de não sentir, mas que continua existindo.
Às vezes, parece que esse amor adormeceu, morreu, acabou. Até que, de repente, ele ressurge do nada: em uma música que eu escuto, em um pôr do sol que eu vejo, na onda do mar, em alguma coisa aleatória. E, naquele exato momento, vem o vazio.
Eu já amei depois desse amor e sei que sou capaz de amar outra pessoa. E não é que eu queira essa pessoa de volta, pois não a incluo nos meus planos futuros. Tenho consciência de que a nossa história acabou.
Mas esse sentimento ainda existe, escondido em algum lugar dentro de mim. Ele não depende do meu querer para ser sentido. Não é algo que eu escolho sentir ou que consigo simplesmente apagar.
Ele não tem mais o mesmo tamanho, nem a mesma força que tinha antes, mas ainda se manifesta em momentos específicos, em forma de melancolia e vazio. E, por tudo que aprendi sobre o amor, acredito que esse sentimento seja permanente.
Neide Torres