A paternidade me trouxe questões que eu não pensava que precisaria resolver.
Coisas que resolvi trancar num quarto úmido e escuro, à sete chaves.
Quem me conhece na intimidade, sabe que eu não falo direito com meu pai biológico há anos, desde que ele quis dar uma carteirada paterna, exigindo atenção e respeito da minha parte, apesar de abandonar à mim e a minha irmã gêmea, porque a relação dele com minha mãe não tinha dado certo ( por culpa dele, e aqui tem outro ponto tbm, que reverbera em mim e fui entender isso somente em terapia).
Fico me perguntando porque resolvi abrir um assunto tão pessoal assim, se não falo isso com muitas pessoas, mas talvez tenha relação com esse processo de cura, que eu preciso externalizar pra sarar.
Nunca senti inveja das pessoas pelo que elas tem materialmente, e sim dos recursos emocionais que uma família estruturada fornece, um pai presente , independente se está dentro de um relacionamento ou não.
Lembro com precisão das poucas vezes que experienciei um jantar com todo mundo na mesa, coisa básica , saca ? uma tímida demonstração de carinho e felicidade da parte dele, por estar ali desfrutando daquele momento família, eu ficava esperando que ele chegasse do trabalho e se sentasse conosco, mas não, comia depois, e estabelecia aquela distância, um rei inacessível , e eu, um mero mortal, desejante de um afeto que nunca vinha.
Cresci em escolinha de futebol, e todos diziam que eu levava jeito pra coisa, fato que acabou me consolidando numa equipe em Macaé que participava com frequência de campeonatos com equipes tradicionais da capital, e doía demais olhar pra arquibancada e não vê-lo, logo ele que se profissionalizou como atleta cedo, e chegou a jogar em clubes como flamengo, cabofriense, goitacaz , acho que eu queria mesmo era impressioná-lo e não seguir carreira como jogador, a música foi uma válvula de escape, um divã, uma fenda numa rocha que sempre me protegeu.
Via meus amigos tendo uma relação próxima com seus pais, e eu me perguntava porque eu não poderia ter, achava que a culpa era minha, que eu tinha feito algo que o chateasse , vivia esse loop expectativa e culpa, um processo que me trouxe uma ferida silenciosa e gigantesca.
Eu comecei a me curar tem poucos anos, quando meus meninos nasceram, e me vi sem referencial algum paterno - apesar do meu padrasto ter sido um cara ok com minha mãe - e tendo que desconstruir uma seria de camadas, para ter condições de ser esse cara para eles.
Ainda tô nesse processo, e o maior desafio até então, foi parar de sentir raiva do meu pai biológico, pra seguir bem, fazer uma vídeo chamada com o "vovô" ( aconteceu nesse fds) pq meus filhos queriam conhecê-lo.
Eu tenho um mar de comportamentos que precisam ser revistos por conta dessa ferida, essa dificuldade de conseguir confiar nas pessoas por temer que aquele afeto demonstrado inicialmente se extinga, não estabelecia uma conexão genuína por medo, e não me achar merecedor.
É impossível explicar o quanto essa relação paterna pode desencadear esquemas psicológicos que nos condicionam a comportamentos prejudiciais, e eu vejo essa minha história como uma oportunidade de quebrar esse ciclo, e agradeço de coração a Deus por esse despertar, ao meu terapeuta, e na vdd o mais importante, aos meus filhos e a essa oportunidade.