Soprou o ar pelo nariz em um riso breve. "Você sabe que é só Mirana para você." Ela apreciava as cortesias mais do que ninguém — exigia-as, até — mas com ele, não se faziam necessárias. Talvez acreditasse, lá no fundo, que Chapeleiro fosse o único que a conhecia sob a máscara da Rainha Branca. "Porque todos os dias serão dias para festejarmos enquanto ainda estivermos juntos." Ainda. Não era o tipo de palavra que ela gostaria de usar com o Chapeleiro. Tinha um gosto amargo na língua. Entretanto, as suas preocupações não eram rasas. Teriam de reviver a guerra em um futuro talvez próximo demais, Chapeleiro desapareceria por algum tempo nela, e se o passado de Mirana fosse algum medidor do que costumava acontecer entre ela e pessoas que confiava, ainda poderia perdê-lo como seu amigo. Como seu único amigo. Assim que ele rumou para o assento na extremidade oposta do seu, como era de praxe, a Rainha Branca alterou a ordem conhecida por eles. Caminhou até a cadeira ao lado de Chapeleiro, onde a Lebre de Março sempre ficava, e a puxou para si. "Vamos sentar juntos hoje." Acomodou-se com um sorriso luminoso e os ombros aprumados, e observou as asas dos bules de chá, encantados com magia, alçarem voo por conta própria e servirem a bebida quente em suas xícaras. "Talvez mais tarde! O chá irá esfriar se não bebermos logo." A quietude do salão teria sido desconfortável para Mirana em outra ocasião; ela que gostava de sons e de movimento para não ficar sozinha com as vozes dentro de sua cabeça. Não precisava temer o silêncio e a solidão agora, porém. "Mas você está certo sobre o tempo, Chapeleiro. Está me desagradando também... As coisas estão mudando tão rapidamente, nossas horas estão acabando... Nunca foi assim na nossa casa. Nunca sentimos isso depois da guerra... Sentimos?" Suspirou. "E eu sinto medo pelo País das Maravilhas, pelos meus súditos... Por você."
fez um gesto de concordância com a cabeça, movendo devagar até olhá-la prologadamente, um sorriso suave alcançando os lábios. “certamente, mirana.” apesar da cortesia adorada e cultivada entre eles, existia o conforto da casualidade. o chapeleiro não esqueceria, no entanto, que ela era sua rainha, mas talvez o conceito disso para ele fosse diferente do que os súditos de outros reinos pensavam de suas respectivas rainhas. até mesmo os daquele reino, quem sabe. absorveu o enquanto no sentido de conformidade; enquanto juntos, festejariam. o tempo não era mais um fator determinante, o chapeleiro não estava de acordo com ele e não seguiria suas normas. a mesa era grande, composta pelo melhor que o país das maravilhas podia oferecer, não havia dúvidas. e sentado na sua cadeira, ele acompanhava com o olhar o caminhar da rainha, não demonstrou surpresa quando ela sentou ao seu lado, sua expressão entregava euforia. “peculiar da sua parte”, disse em um tom afetuoso. depois de passar a mãos em algumas xícaras, ele pegou a que tinha a temperatura e a quantidade ideal para ele. “o chá não ousaria esfriar perto de você, majestade.” disse propositalmente abafando a última palavra ao bebericar o chá, o contentamento colorindo suas feições como se o trouxesse vida. o líquido tinha um efeito calmante, realmente, o tempo pinicava seu corpo e ele se controlava para não coçá-lo até arrancar para fora. o fim de alguns era o começo de outros e o chapeleiro estava no meio... o meio. a preocupação no rosto de mirana quase alcançava algo perdido dentro de si, desconfortável, revoltante e outras coisas que sua postura mutável e condescendente raramente deixava-o sentir. “temos todo o tempo do mundo até não termos nenhum. ainda tem muito a ser feito. o que existe entre o começo e o fim é infinito.” explicou. temer não fazia sentido e não gostava que ela se sentisse assim. “teremos que nos preparar para outro tipo de guerra. não nos sentíamos assim em nossa casa, não.” colocou sua xícara sobre a mesa, olhando para a rainha atentamente. “medo não fica bom em você, mirana. vamos tentar... esperança?”.














