Aloysius jamais negava a forma como fora criado. Apesar de saber, desde seus oito anos, que era um bastardo, e que provavelmente seu sangue não era puro como o do restante da sua família, ele fora criado como um De Fol’e (na verdade, ele era praticamente uma cópia exata de Alex, seu irmão mais velho), e como o status sanguíneo não importava tanto para eles, não era Alo quem iria se preocupar com o que corria em suas veias. O que significava mesmo para sua família era a riqueza que adquiriram ao longo de gerações, e que se esforçavam muito para manter. Aquele era o maior motivo de orgulho para eles, e que os levava a pensar diferente das demais famílias sangue puro do mundo bruxo. Conviviam com as mesmas porque era importante para os negócios, era importante serem vistos, mas não era algo que lhes interessava particularmente. Entretanto, era inegável que relações de negócios com aquelas famílias era sempre proveitoso por algum lado, então Alo se preocupava em manter-se unido das pessoas certas em sua casa em Hogwarts, para sempre ter algo na manga que pudesse usar caso precisasse. Cínico, dissimulado, interesseiro; era o que ele era, sempre fora. Aquilo sim era o que corria em suas veias com a maior força.
Por isso que seu lado interesseiro ficaria particularmente irritado quando descobrira que não fora convidado a participar do Clube do Professor Slughorn. Era um clubinho estúpido, Aloysius sabia, mas estar presente poderia lhe trazer algo de útil mais para frente, e ver alguns de seus colegas e vários membros insignificantes das outras casas sendo convidados pelo professor… Alo detestava ser deixado de lado. E ele faria de tudo para contornar aquela situação da melhor forma possível, sem se importar com as regras. Qualquer coisa que pudesse beneficiá-lo, aquela era a ideia mais agradável para o rapaz.
Na noite da tão aguardada festa do professor Slughorn, que havia sido anunciada com semanas de antecedência, e que parecia ter deixado as garotas da sua casa ainda mais estúpidas do que necessariamente já o eram, fora fácil para Aloysius fingir total desinteresse enquanto alguns de seus colegas passavam agitados pela Sala Comunal e saíam com seus pares, convites em mãos, rumo a sala que havia sido reservada para a festa, que, por sinal, não havia tema nenhum em particular. Alo gostaria de entender o que se passava na cabeça do professor em relação às suas comemorações: talvez mais uma semana em que ainda não havia caído morto em sua sala? Poderia ser. Quando a Sala Comunal se esvaziou, o garoto subiu despreocupadamente até seu dormitório, e vestiu o seu traje de gala para a ocasião. A única coisa que precisava fazer era entrar escondido no local da festa, e evitar o professor de Poções durante a noite, mas não deveria ser tão complicado assim.
E não fora, realmente. Conseguira entrar sem atrair muitos olhares. Todos ali estavam mais preocupados sentindo-se deslocados do que prestando atenção em quem entrava pela porta. Entretanto, Aloysius deveria saber que, sempre que algo parecia estar fácil demais, poderia acabar havendo um problema logo em seguida. E o problema estava vestido de branco e tinha cabelos louros quando esbarrou contra seu corpo perto da mesa de bebidas. O reconhecimento foi instantâneo, assim como o olhar sem a menor simpatia que destinaram um ao outro quando se viram. “A recíproca é verdadeira, McKinnon. Está agindo como se para mim fosse uma maravilha esbarrar em você.” Retrucou, afiado, pois com Marlene o rapaz nunca tivera muita educação. Na verdade, ele não tinha muita educação com ninguém que não pudesse lhe contribuir com algo útil. E como Marlene não parecia querer dividir um tempo com o garoto no seu dormitório, ele também não insistiria em agradá-la. Além do mais, a teimosia e a marra da garota o tiravam do sério, mesmo que na maior parte das vezes ele mantivesse o sorriso e o tom sarcástico em sua voz só para irritá-la. “Não sei do que isso interessa para você, blonde, mas acho que o fato de estar sozinho aqui pode deixar bem claro que eu não tenho uma acompanhante para essa noite… Ou talvez eu tenha, ela está bem atrás de você.” Disse, apontando para a mesa de bebidas atrás da garota e se direcionando até lá. Definitivamente, não poderia passar aquela noite sem um pouco de álcool, por isso, além de se servir do suco de abóbora em um copo, pegou o cantil adornado pelo brasão dos De Fol’e onde ele havia colocado um pouco de firewhiskey naquele dia mais cedo, e virou um pouco do líquido dentro do copo, virando-se para Marlene como se desafiando-a a lhe entregar.
Estava tentando se lembrar das palavras que havia prometido para suas amigas antes de sair para aquela festa, ela havia dito que ficaria o mais longe possível de arrumar alguma confusão, e mal tinha chegado lá e pelo jeito acabaria se metendo em algum tipo de problema se acabasse brigando com Aloysius De fol'e bem ali. Talvez se estivesse em outro lugar ela não teria de medir as palavras que ela usava, mas mesmo assim, ser educada e simpática com ele era uma tarefa tão complicada. Sua antipatia por Alo podia ser justificada pelo fato do garoto pertencer à casa de Salazr Slytherin — cuja maioria dos alunos poderiam ser considerados como grandes babacas —, ele vinha de uma família purista e compactuava com aquele tipo de pensamento bastante arcaico. Para ela aqueles eram motivos mais do que suficientes para não gostar do garoto, e agir de forma educada com quem não merecia era uma verdadeira perda de tempo, pelo menos em sua opinião. Sem contar que ele conseguia ser bastante machista quando o assunto era Quadribol, não existia nada que restringia aquele esporte para as garotas e Marlene McKinnon conseguia ser melhor do que muitos garotos naquele esporte
— A minha noite até que estava ótima, aí eu acabei me deparando com você. Obrigada por colocar o meu plano de uma noite agradável por água abaixo, meus parabéns — disse, deixando mais do que obvia que não estava feliz ao encontrá-lo por lá, mesmo sabendo que não era algo realmente necessário sendo que estava tão evidente na sua expressão facial, visto que o sorriso presente em seu rosto havia se transformado em uma expressão, além das várias palavras ácidas que estava fazendo questão de utilizar. Por um breve momento desejou que fosse um dos seus colegas que participavam do Slug Club, no lugar de Alo. Se tivesse se encontrado com Lily Evans ou com Carter Fortescue poderia estar se divertindo com suas colegas de casa, tudo bem que antes provavelmente acabaria passando por um interrogatório para explicar o motivo de estar naquela festa bastante restrita, mas mesmo assim estando junto de suas colegas de casa e outros alunos com quem mantinha uma amizade a diversão daquela noite, até mesmo um pouco de paz e tranqüilidade. Porém, estando ali junto de Alo apenas conseguia coisas ao contrário do que tinha imaginado para aquela noite. Era um fato de que ela e o sonserino não se davam bem, então logicamente era de se esperar que nada de bom acabasse resultando em um encontro dos dois juntos. Fora no terceiro ano que começou o seu desentendimento com o garoto, de forma que ela não conseguia imaginar um dia que eles conseguissem superar aquela rixa existente entre eles, ainda mais naquela festa.
Desviou o seu olhar de Aloysius e um pouco mais afastado de onde eles estavam Marlene observou o professor Horácio conversando com alguns ex-alunos, ao julgar pela expressão do Sr.Slughorn, ele estava bastante entretido com aquilo, e fazia questão de rir alto o bastante fazendo que outras pessoas acabassem o escutando sem precisarem estar perto o bastante. Quando escutou o sonserino falando sobre a sua companhia daquela noite sentiu um grande alivio, pois isso significava que ela não iria precisar o aturar até o final daquela noite. Thank you Merlin, thank you so much, agradeceu mentalmente. Tinha a sensação de ter se livrado de um possível peso em suas costas durante a festa, agora McKinnon só restava lamentar pela pobre alma da pessoa que teria de aguentar o jovem por algumas horas bem torturantes. Quando se virou para trás viu a mesa de bebidas e, nesse instante, percebeu que o álcool era a companhia de Alo naquela festa, o que era terrível já que significava que ela teria que o aturar por um tempo maior do que tinha imaginado. Fuzilou o garoto com os seus olhos, que claramente indicavam que ela estava com bastante raiva, ainda mais após o desafio proposto pelo moreno. Quem ele achava que era? Talvez, estivesse se achando bastante importante ao ponto de achar que ela iria entregar a bebida para ele, o que era um grande erro. Nunca que Marlene McKinnon iria fazer algum tipo de favor para Aloysius De fol'e, ele não merecia aquilo. Pegou o copo fingindo que iria lhe entregar, mas quando chegou perto o bastante de Alo virou o conteúdo do copo no terno do garoto. — Ops! Veja só que grande confusão que eu fiz aqui, isso que dá ser tão desastrada — disse com tamanha ingenuidade capaz de impressionar qualquer um. Por fora ela fingia estar preocupada com aquele terno e com a bagunça que havia feito, mas por dentro estava sentindo uma enorme satisfação do que tinha feito. — Sinceramente, achei que você fosse um pouco inteligente, Alo. Me desafiar a entregar o copo de bebida foi um dos maiores erros que você poderia cometer nessa festa, foi bem ingênuo em pensar que eu simplesmente te entregaria sem fazer nada — fingiu que estava tentando limpar o terno apenas para sussurrar aquelas palavras no ouvido do jovem. Aquela noite apenas estava começando.