Diário de Bordo - De um novo mar
Olá, ninguém,
E se eu te disser que agora você não é meu único amigo?
Tanta coisa aconteceu desde minha última carta. Você ainda lembra de mim?
Bem... eu deveria ter te escrito já umas 10 vezes antes, por conta de tudo que aconteceu, mas, enfim... aqui estou.
No momento me sinto mal, isso já deve ser algo que você deve saber porque é só assim que eu te escrevo, né? Você se sente mal por isso? Espero que não...
Então... qual foi o último assunto do qual falamos? Nem lembro mais, mas acho que lembro onde estava. Em meio a caminhada no inferno? Não era?
Bem... eu sai daquele inferno. Daquele... Mudei de casa, cheguei em outra cidade, abri as velas e me coloquei vulnerável para esse grande mar que se abre no horizonte.
E vulnerável eu recebi coisas, boas e ruins. Rastejei na lama, mas isso é ordinário. Entretanto, fui elevado aos céus. E isso não é comum. Como eu poderia te falar disso tudo em uma carta só?
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Estou continuando a te escrever em outro dia. Hoje, assim como em muitos outros já passados, sinto como se meu cérebro estivesse em carne viva, pois todo pensamento parece que vai feri-lo. Me sinto tão... frágil, tão... insuficiente para viver nesse mundo nesses momentos, meu amigo.
Bem... retomando minha história. Mudei de cidade, consegui seguir um pouco aquele planejamento do ano passado. Estou em um outro barco, navegando por outros mares. Diria com toda certeza que se você me visse hoje não iria me reconhecer, pois mesmo o 'eu' de alguns meses atrás não me reconheceria, não iria compreender como eu consegui fazer tantas coisas nesses últimos dias. E não só fazer, 'me permitir', entende? Conheci e fiz amigos, pela primeira vez em séculos eu discuti com alguém e não só comigo mesmo e... o melhor de tudo, encontrei o amor. Sim, meu amigo, sim! Depois de tudo que passei nos últimos anos, e das minhas tentativas de cuidar de flores cujo perfume não chegava aos meus sentidos, de repente, ela apareceu.
E sim, foi bem, de repente mesmo. No início eu nem a reconheci. Mas, bastaram uns 3 encontros para que eu pudesse ver que naquela alma algo de familiar. Foi tudo muito rápido. Uma semana depois eu já sabia: ela é a mulher da minha vida.
Sei o que você provavelmente está pensando, mas não, não estou inebriado pela paixão ou iludido com promessas vazia de um paraíso perdido. É uma certeza que vem da alma, sabe, amigo?
Lembra que te falava sobre como eu sentia que na paixão o espirito invadia a carne? E que me relacionar com alguém real era só uma forma de entrar em contato comigo mesmo? Pois bem, ela foi a primeira pessoa que eu consegui ver de verdade, sem colocar um véu sobre, sem a querer transformar em um avatar de uma entidade imaterial.
Eu sonhei com uma menina em um jardim de flores. Ela não tinha rosto, mas eu sabia a que a amava profundamente.
E então... hoje é o rosto dessa pessoa que eu vejo nessa garota. Ela era o que faltava na minha visão. Ela é a parte que completa, mas paradoxalmente, ela não representa o fim de uma falta. Sem ela eu ainda vivo, ainda existo, mas quantas vezes eu me perguntei se gostaria de continuar vivendo e existindo nesse mundo, hein? Ela é esse sentido, esse sentido que tanto procurei. Ou melhor, não ela, mas nós. Essa dimensão que surge como interface entre duas almas. Sei que você, mais do que ninguém, vai entender sobre o quê estou falando.
Enfim... não quero me alongar demais. Pois já já tenho que voltar ao trabalho. Sim! Imagina? Logo eu, que tanto me debatia sobre minha capacidade de existir minimamente como alguém funcional de novo, depois de tudo que passei, depois desse inferno, depois de ficar sem 1 braço, 1 perna e me arrastar pelo chão, comendo areia e lama. Depois disso tudo, ainda caminho, meu amigo.
Não digo que estou bem, já te falei no inicio que ainda me sinto errado, faltante, frágil, mas sinto também que isso vem dessa nuvem negra que arrasta meus pensamentos, essa coisa horrível e demoníaca que finalmente eu resolvi nomear: distimia. Você já sabia, não é? Eu também, mas nunca quis aceitar.
Então, o que estou dizendo é que talvez eu nem esteja tão mal assim, embora seus tentáculos diariamente tentem me puxar de novo para as profundezas.
Não obstante, pela primeira vez em, sei lá, 15 anos ou mais, eu me sinto feliz, me sinto animado com o futuro e, depois dela, eu não quis mais a morte, não quis mais me entregar apenas. Quis, sim, viver, toda uma vida ao seu lado. Não só quis, como quero.
No fundo? Nem acho que merece. Me sinto feio, frágil (mais uma vez) e sujo. Mas estou tentando não levar essas palavras do meu demônio interior tão a sério.
Depois volto para te contar mais detalhes desses capítulos novos dessa aventura.
Espero que com você as coisas continuem bem.
Não sei se eu já te disse isso, mas se algum dia, porventura venha a deixar de te enviar cartas, saiba que eu morri, talvez para sempre, talvez para essa vida, e assim possa ter renascido em uma outra vida, bem mais leve e pura que essa. De todo modo, e o mais importante, nunca duvide um segundo de duas coisas: a primeira, de nossa amizade; a segunda, de que eu tentei sempre o máximo que consegui, que continuei caminhado, até o ponto de não poder mais, mas que fui justo e honesto nessa minha caminhada (ou pelo menos gosto de pensar que sim).
Espero te escrever de novo em breve.
Até mais!
Fim do Diário de Bordo










