Claire Keane
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@colorida-dolorida
Um arrependimento?
Arrependimento é tão relativo, né? Olho pra o passado, percebo todas as consequências a que minhas escolhas(ou a falta delas) me ocasionaram, e me arrependo! Mas sei que não conseguiria fazer escolhas melhores com o grau de maturidade e as condições que tinha na época em que as escolhas foram feitas!
Enfim, me arrependo por não ter me amado e conhecido mais e melhor, antes de me envolver com algumas pessoas e esperar que elas pudessem me dar todo o amor que eu estava me negando!
Um desejo?
"Eu quero a sorte de um amor tranquilo, com sabor de fruta mordida..."
Dentre tantos! rs
Uma retribuição justa: seu signo?
Capricaaaa! 😈
Mas juro que é só o Sol em Capricórnio... Os signos de ar predominam no meu mapa!
rs
"Sabe, Virgínia, vejo Laura como aquele espelho despedaçado: a gente pode ir lá no fundo e colar os cacos, mas tudo então que ele vier a refletir, o céu, as árvores, as pessoas, tudo, tudo estará como ele próprio, partido em mil pedaços."
Ciranda de Pedra, de Lygia Fagundes Telles.
Olhos d’água
Uma noite, há anos, acordei bruscamente e uma estranha pergunta explodiu de minha boca. De que cor eram os olhos de minha mãe? Atordoada custei reconhecer o quarto da nova casa em que estava morando e não conseguia me lembrar como havia chegado até ali. E a insistente pergunta, martelando, martelando… De que cor eram os olhos de minha mãe? Aquela indagação havia surgido há dias, há meses, posso dizer. Entre um afazer e outro, eu me pegava pensando de que cor seriam os olhos de minha mãe. E o que a princípio tinha sido um mero pensamento interrogativo, naquela noite se transformou em uma dolorosa pergunta carregada de um tom acusatório. Então, eu não sabia de que cor eram os olhos de minha mãe?
Sendo a primeira de sete filhas, desde cedo, busquei dar conta de minhas próprias dificuldades, cresci rápido, passando por uma breve adolescência. Sempre ao lado de minha mãe aprendi conhecê-la. Decifrava o seu silêncio nas horas de dificuldades, como também sabia reconhecer em seus gestos, prenúncios de possíveis alegrias. Naquele momento, entretanto, me descobria cheia de culpa, por não recordar de que cor seriam os seus olhos. Eu achava tudo muito estranho, pois me lembrava nitidamente de vários detalhes do corpo dela. Da unha encravada do dedo mindinho do pé esquerdo… Da verruga que se perdia no meio da cabeleira crespa e bela… Um dia, brincando de pentear boneca, alegria que a mãe nos dava quando, deixando por uns momentos o lava-lava, o passa-passa das roupagens alheias, se tornava uma grande boneca negra para as filhas, descobrimos uma bolinha escondida bem no couro cabeludo ela. Pensamos que fosse carrapato. A mãe cochilava e uma de minhas irmãs aflita, querendo livrar a boneca-mãe daquele padecer, puxou rápido o bichinho. A mãe e nós rimos e rimos e rimos de nosso engano. A mãe riu tanto das lágrimas escorrerem. Mas, de que cor eram os olhos dela?
Eu me lembrava também de algumas histórias da infância de minha mãe. Ela havia nascido em um lugar perdido no interior de Minas. Ali, as crianças andavam nuas até bem grandinhas. As meninas, assim que os seios começavam a brotar, ganhavam roupas antes dos meninos. Às vezes, as histórias da infância de minha mãe confundiam-se com as de minha própria infância. Lembro-me de que muitas vezes, quando a mãe cozinhava, da panela subia cheiro algum. Era como se cozinhasse ali, apenas o nosso desesperado desejo de alimento. As labaredas, sob a água solitária que fervia na panela cheia de fome, pareciam debochar do vazio do nosso estômago, ignorando nossas bocas infantis em que as línguas brincavam a salivar sonho de comida. E era justamente nos dias de parco ou nenhum alimento que ela mais brincava com as filhas. Nessas ocasiões a brincadeira preferida era aquela em que a mãe era a Senhora, a Rainha. Ela se assentava em seu trono, um pequeno banquinho de madeira. Felizes colhíamos flores cultivadas em um pequeno pedaço de terra que circundava o nosso barraco. Aquelas flores eram depois solenemente distribuídas por seus cabelos, braços e colo. E diante dela fazíamos reverências à Senhora. Postávamos deitadas no chão e batíamos cabeça para a Rainha. Nós, princesas, em volta dela, cantávamos, dançávamos, sorríamos. A mãe só ria, de uma maneira triste e com um sorriso molhado… Mas de que cor eram os olhos de minha mãe? Eu sabia, desde aquela época, que a mãe inventava esse e outros jogos para distrair a nossa fome. E a nossa fome se distraía.
Às vezes, no final da tarde, antes que a noite tomasse conta do tempo, ela se assentava na soleira da porta e juntas ficávamos contemplando as artes das nuvens no céu. Umas viravam carneirinhos; outras, cachorrinhos; algumas, gigantes adormecidos, e havia aquelas que eram só nuvens, algodão doce. A mãe, então, espichava o braço que ia até o céu, colhia aquela nuvem, repartia em pedacinhos e enfiava rápido na boca de cada uma de nós. Tudo tinha de ser muito rápido, antes que a nuvem derretesse e com ela os nossos sonhos se esvaecessem também. Mas, de que cor eram os olhos de minha mãe?
Lembro-me ainda do temor de minha mãe nos dias de fortes chuvas. Em cima da cama, agarrada a nós, ela nos protegia com seu abraço. E com os olhos alagados de pranto balbuciava rezas a Santa Bárbara, temendo que o nosso frágil barraco desabasse sobre nós. E eu não sei se o lamento-pranto de minha mãe, se o barulho da chuva… Sei que tudo me causava a sensação de que a nossa casa balançava ao vento. Nesses momentos os olhos de minha mãe se confundiam com os olhos da natureza. Chovia, chorava! Chorava, chovia! Então, porque eu não conseguia lembrar a cor dos olhos dela?
E naquela noite a pergunta continuava me atormentando. Havia anos que eu estava fora de minha cidade natal. Saíra de minha casa em busca de melhor condição de vida para mim e para minha família: ela e minhas irmãs que tinham ficado para trás. Mas eu nunca esquecera a minha mãe. Reconhecia a importância dela na minha vida, não só dela, mas de minhas tias e todas a mulheres de minha família. E também, já naquela época, eu entoava cantos de louvor a todas nossas ancestrais, que desde a África vinham arando a terra da vida com as suas próprias mãos, palavras e sangue. Não, eu não esqueço essas Senhoras, nossas Yabás, donas de tantas sabedorias. Mas de que cor eram os olhos de minha mãe?
E foi então que, tomada pelo desespero por não me lembrar de que cor seriam os olhos de minha mãe, naquele momento, resolvi deixar tudo e, no outro dia, voltar à cidade em que nasci. Eu precisava buscar o rosto de minha mãe, fixar o meu olhar no dela, para nunca mais esquecer a cor de seus olhos.
E assim fiz. Voltei, aflita, mas satisfeita. Vivia a sensação de estar cumprindo um ritual, em que a oferenda aos Orixás deveria ser descoberta da cor dos olhos de minha mãe.
E quando, após longos dias de viagem para chegar à minha terra, pude contemplar extasiada os olhos de minha mãe, sabem o que vi? Sabem o que vi?
Vi só lágrimas e lágrimas. Entretanto, ela sorria feliz. Mas, eram tantas lágrimas, que eu me perguntei se minha mãe tinha olhos ou rios caudalosos sobre a face? E só então compreendi. Minha mãe trazia, serenamente em si, águas correntezas. Por isso, prantos e prantos a enfeitar o seu rosto. A cor dos olhos de minha mãe era cor de olhos d’água. Águas de Mamãe Oxum! Rios calmos, mas profundos e enganosos para quem contempla a vida apenas pela superfície. Sim, águas de Mamãe Oxum.
Abracei a mãe, encostei meu rosto no dela e pedi proteção. Senti as lágrimas delas se misturarem às minhas.
Hoje, quando já alcancei a cor dos olhos de minha mãe, tento descobrir a cor dos olhos de minha filha. Faço a brincadeira em que os olhos de uma são o espelho dos olhos da outra. E um dia desses me surpreendi com um gesto de minha menina. Quando nós duas estávamos nesse doce jogo, ela tocou suavemente o meu rosto, me contemplando intensamente. E, enquanto jogava o olhar dela no meu, perguntou baixinho, mas tão baixinho como se fosse uma pergunta para ela mesma, ou como estivesse buscando e encontrando a revelação de um mistério ou de um grande segredo. Eu escutei, quando, sussurrando minha filha falou:
Mãe, qual é a cor tão úmida de seus olhos?
(Olhos d’água, p. 15-19)
“Mas, se não pode ser para sempre, que seja por um dia somente, uma hora, um minuto! Um dia, dois dias, menos de uma semana, para mim, esse dia, esses dois dias, essa curta semana, tem o tamanho da vida multiplicado pelos segundos, pelas horas, pelos dias de amor, mesmo que depois eu me dane de saudade, de desejo, de solidão e sonhe contigo todas as noites na danação do impossível.”
— Jorge Amado - “Tereza Batista Cansada De Guerra”
"Para amar uma mulher, o parceiro deve também amar sua natureza primitiva. Se a mulher aceitar um companheiro que não possa amar ou que não ame esse seu outro lado, ela sem dúvida acabará arrasada sob algum aspecto e deixada a vaguear cambaleante, em desmazelo.
Portanto, os homens, tanto quanto as mulheres, devem identificar suas naturezas duais. O amante mais querido, o pai mais valorizado, o amigo ou "homem selvagem" mais valioso é aquele que deseja aprender. Quem não se delicia com o aprendizado, quem não é atraído por novas idéias ou experiências não conseguirá passar do marco de estrada junto ao qual está descansando agora. Se existe uma força que alimenta a raiz da dor, ela é a recusa a aprender além do momento presente."
💭
há muito da gente para ser
se existe um monumento fixo é porque ele não existe caminhamos demais através das andorinhas e o que aprendemos, então foi tudo o que sabíamos mas tudo o que não praticávamos
as degradações ferirão nossos tímpanos e taparão nossas gargalhadas andantes dirão que as coisas são do jeito que são e subiremos um no outro para inventarmos místicas cores, mitos, voares novos comporemos novas valsas e vestiremos o manto dos pombos procuraremos os vestígios da liberdade do mundo, do vento, da brisa que se distanciou da maré dentre os passos dos prisioneiros dentre essas esquinas mesmas
há muita palavra para gritar e muito da gente para ser o que sobrou em nossa carne há tanto tempo ainda para se pensar no tempo e beijar o tempo e sorrir com o tempo ser ele mesmo…
alberto de lima
Socorro!
Tenho um grito! Um berro preso na garganta, e essa necessidade de aprender um jeito de falar o que me ocorre sem chorar! Aprender uma linguagem que me tire essa sensação de incompreensão, que me acalme e me aproxime das pessoas, tanto quanto sinto todas elas em mim, no corpo e na mente!
Minha solidão não é a de estar sozinha, e sim a de não me sentir compreendida... É a solidão de não pertencer a nada, e ao mesmo tempo sentir que todos estão em mim, com seus prazeres, suas angústias, suas descobertas, suas confusões e suas dores!
Não caibo mais dentro de mim! Quero sair voando por aí!
Socorro!
Quero gritar, mas ninguém me alcança...
Quando menina, eu era a única com coragem de enfrentar a minha mãe. Nunca consegui me calar diante de algo que considerasse injusto, nem deixar de questionar tudo o que acontecia e que não considerava correto. Defendia minha irmã contra as agressões psicológicas, mesmo sem entender nada sobre isso naquela época. Sabia que tudo aquilo que vivíamos não estava certo. Sofria com a dor dela mais do que com as agressões físicas por ser tão "impertinente e metida" aos olhos daquela que me deu a luz.
Muitas vezes, fiquei com o rosto e o corpo roxos, sem poder ir à escola e tendo de ficar escondida em casa porque ela tinha vergonha que me vissem machucada. Depois que me batia, me proibia de chorar. Se chorasse, ela me agredia outra vez, e com mais força. Precisei, muito nova, achar meios de entender e me colocar no lugar das pessoas, para conseguir perdoá-las e continuar vivendo toda vez que elas me feriam.
Mamãe me ensinou através da dor o verdadeiro significado de perdão e empatia. Me ensinou a odiar a mentira, o egoísmo, as agressões, a injustiça, a manipulação e o abandono. Tirou de mim a alegria da infância, a coragem de ser, e pôs no lugar disso o medo de ser igual a ela; a crença de que não sou boa o bastante, de que o amor machuca e me torna vulnerável, e, sobretudo, essa dificuldade de chorar e mostrar minhas fragilidades. Afinal, depois de cada golpe doloroso e sem poder chorar, ouvia a justificativa de que só estava me machucando para que eu mudasse, para que fosse diferente.
O bonito da vida, aquilo com que era capaz de me encantar, só encontrava nas borboletas, nos pets, na natureza, nos "anjinhos" e amigos imaginários com quem conversava e desabafava mentalmente, nos seres de luz que gostava de acreditar que me protegiam.
Sim, querida mamãe, hoje sou diferente! Cheia de conflitos existenciais, receios, incapacidade de me entregar sem dor ao que amo, mas com capacidade enorme de perdoar, de me colocar no lugar do outro, e espiritualidade na mesma proporção. Afinal, foi isso que me salvou de você, da tua dor, da tua amargura, da tua doença.
Meus seres de luz ainda me guiam e protegem. Não perdi a capacidade de me encantar com as borboletas. Minha intuição é gritante. Sinto o que sentem as pessoas com quem me conecto. Ainda sou "impertinente". Não me calo diante das injustiças. Não brinco com a dor dos outros. Não peço para que a reprimam, nem os chamo de vitimistas quando tudo o que precisam é chorar. E encontro uma força enorme, que não sei de onde vem, quando preciso estender as minhas mãos para defender, consolar ou devolver a doçura para alguém que esteja sofrendo.
Não fui amada do jeito que precisava e merecia. Ainda assim, perdoo quem me machucou e espero que um dia encontre a paz que precisa. Da mesma maneira que espero um dia conseguir encontrar dentro de mim o amor que não ganhei.
"Não tenho tempo para coisas que não tem alma."
“Eu bailo em poemas, multicolorido! Palhaço! Mago! Louco! Juiz! Criancinha! Sou dançarino brasileiro!”
— Mário de Andrade
Milhares de gerações de você, tipinhos que julgam os outros pelos buracos do corpo. E acreditam nas mesmas verdades inquestionáveis de sempre. Quem disse que toda fruta faz bem à saúde? Quem disse que todo assassino é malvado? Quem disse que todas as mães são boas? São vocês, os detentores do saber medíocre, da lógica controladora do caos, que querem leis e mais leis, o tempo todo.
Fernanda Young (Tudo que Você Não Soube)