os últimos meses são um emaranhado de decepções que não consigo descrever completamente. decepções não apenas com os outros, mas também comigo mesma — por não ter cumprido as promessas que fiz a mim mesma. muita coisa aconteceu, acumulando raiva em mim. raiva dos outros, raiva até mesmo de você, pelo modo como as coisas são ou se tornaram. ultimamente, estou simplesmente com raiva de todos.
no show, enfrentei o mesmo caos — quase pisoteada entre milhares de pessoas. houve um momento em que, sufocada na multidão, achei que fosse perder o juízo. e então, quando finalmente respirei aliviada na calçada, você apareceu. fiquei paralisada, como sempre. eu te reconheci imediatamente, apesar da miopia, apesar de estar diferente da última vez. você sempre foi um camaleão.
havia algo estranho no seu olhar, algo que não consegui decifrar. por um instante, desviei o olhar e, quando voltei, você desaparecia na multidão. desespero. fugi tanto de você para te encontrar logo ali? olhei ao redor, tentando reencontrar o seu rosto, mas não havia nada.
mais tarde, quando finalmente encontrei alguns amigos e consegui um lugar fixo depois de horas vagando, você reapareceu. eu te senti ali. mas não fiz nada além de fingir que você não estava presente. queria me concentrar no meu propósito naquela noite. no final, tudo pareceu uma facada nas costas. mas, surpreendentemente, não fiquei surpresa. não posso cobrar nada se nem eu faço o mínimo.
agora, ”bad romance” nunca mais soará da mesma forma para mim. senti nojo. não esperei a música acabar. como uma boa carioca, meti o pé.
hoje, estou assim: não sinto nada, e nem quero sentir. já pensei inúmeras vezes em cometer a loucura de te mandar uma mensagem, de pedir para te encontrar. mas sei que isso só me destruiria e te destruiria também. a verdade é que concluí que você não é bom para mim — e eu também não sou para você. tenho desejos, sonhos e objetivos diferentes. você é livre. eu, em contraste, vivo presa nas amarras que eu mesma criei, amarras que não sei e nem faço ideia de como desatar.
ainda sinto o mesmo. passo horas sem conseguir dormir, sufocada pelos pensamentos que me esmagam há três anos — pensamentos sobre como gostaria que a vida fosse. vivo em constante conflito comigo mesma e nem sei se sou capaz de superar isso algum dia. nos últimos tempos, a morte me parece uma ideia constante, mas não há nada de melancólico nisso. apenas não aguento mais ser eu.