You and me against the world @Demetrius Hayes | Plot Twist I
Uma risadinha escapou dos lábios de Liesel a forma falsamente ultrajada que Demetrius se comportou a sua acusação, não negou lhe também uma bela revirada de olhos, os fingimentos dele funcionavam bem com quase todo mundo, quase, a convivência intensa lhe deixou bem preparada para cada artimanha dele, assim como ele as dela, ainda que Liesel adotasse uma posição mais transparente em relação a suas ações e sentimentos, não era um grande mistério desvendá-la. Não gostava de fingimentos, de mentiras, de armações, sua vida já tinha mistérios o suficiente para querer trazer mais dramas infundados, gostava do que era certo, do que era claro, do que era real. Talvez por isso fora fascinada tão facilmente por Demetrius, ele era cru, a dor era visível em seu corpo, em suas feições e ele não a fingia, ele a abraçava e usava-a a seu favor. Ele combatia, nãol, ele devolvia a dor que lhe fora causava, enquanto Liesel escondia, afastava-se. De alguma forma estranha eles se completavam, não de uma forma teatral e romântica, mas talvez dolorosa e em ruínas, como se as pequenas rachaduras em cada um fosse completa pelo outro. Se todo o mito de almas gêmeas fosse real, talvez fosse isso que significassem um para o outro, não romântico ou idealizado, mas que juntos se tornava mais difícil que se quebrassem. Liesel amava Dimi de formas que ele nem imaginava, mas vivia o conflito direto entre o arriscar e o ignorar, o medo de arriscar e perder toda a cumplicidade que tinha com ele simplesmente não valia. Por isso preferia agarrar-se aos momentos que eram apenas os dois, os dois against the world.
- Não são acusações. – Rebateu prontamente, um leve sorriso contornando os lábios. – Apenas constatações. – Completou rapidamente, fazendo o sorriso se alargar em uma suave gargalhada. Sabia que o pedido para ele a surpreender o pegara de surpresa, a jovem tinha gostos simples, nunca fora apegada a nada extremamente espalhafatoso, contudo vez ou outro gostava de provocar o amigo, talvez fosse um desejo infantil de ver como ele a conhecia bem, ou talvez fosse por saber que ele não a decepcionaria. De alguma forma, Dimi sempre acertava, claro que poderia ser o fato de Liesel ser tão completamente louca por ele que a fizesse ver as coisas dessa forma, mas a dedicação mútua era algo que não poderia ser negado. Olhava em expectativa, os grandes olhos fixos em Demetrius, enquanto um sorriso bobo insistia em grudar em seus lábios, as vezes se sentia até patética porque por mais que tentasse disfarçar, em momentos como esse ficava estampado em sua cara a admiração que tinha pelo amigo. Alias, todos ao redor conseguiam ver isso, menos ele. Ou talvez ele até soubesse e gostasse de viver uma espécie de negação. Ou talvez – e esse era o maior medo de Liesel – ele simplesmente não retruísse os sentimentos da mesma forma e preferisse apenas ignorar. Uma pequena imagem de dor passou pela face de Liesel, mas foi logo reprimida, enviada para o lugar onde muitos dos seus medos e angustiam eram escondidos.
Acompanhou a interação entre Dimi e Rosmerta e novamente aquela desconfortável pontada de ciúmes apareceu, mas tratou de espantar para longe. – Bakestones? Interessante. – Não tinha certeza do que seria o pedido de Demetrius, mas ficou na expectativa, pela reação de Rosmerta soava como algo promissor e mal podia esperar a chance para experimentar. Mas agora que a dona do lugar havia se retirado, os dois poderiam novamente ficar sozinhos e retomar a conversa sem grandes interrupções. – Não, nunca comi. Não tenho ideia do que seja. – Assegurou, mostrando-se genuinamente surpresa com a sugestão. O rosto de Liesel se iluminou quando o amigo garantiu que faria o que quiser caso ela não gostasse do prato pedido e se Liesel fosse um pouco mais ousada ela até poderia mentir e já planejar algum passeio especial para os dois no festival, mas essa não era ela, não era muito adepta aos jogos, iria apenas aguardar e ser verdadeira em sua resposta, como era naturalmente. – Não duvide de mim, Hayes. – Replicou divertida, sabendo que ele havia embarcado em seu espírito, Dimi poderia não ser tão animado e positivo como Liesel, mas ela sabia mexer uns pauzinhos para que pouco a pouco ele embarcasse em suas ideias, pois sabia que no final os dois iriam se divertir e ter momentos inesquecíveis. – Sabe, eles tem algumas rodas gigantes voadoras e outros brinquedos, pode ser divertido. – Jogou a ideia, ainda que tivesse a impressão que Dimi não fosse tão impressionado por esses festivais como ela era, bem, em sete anos de Hogwarts ele nunca fizera questão alguma de comparecer, diferente dela que estava presente desde o primeiro ano em Hogwarts. – Só uma ideia. – Deu de ombros como se não fosse nada demais, como se não fosse algo que realmente quisesse fazer. Não era uma forma de manipular o amigo, até porque se Dimi simplesmente negasse e sugerisse outra coisa, Liesel iria acatar com prazer, apenas queria estar com ele, independente do que fossem fazer, a companhia dele bastava.
Um sorriso de satisfação cruzou o rosto do rapaz diante da reação da amiga: os grandes olhos arregalados em um deslumbre quase infantil. Apesar de seu comportamento imprevisível, não era sempre que conseguia surpreendê-la. Era apenas mais um dos males da convivência e da intimidade quase fraternal que os dois dividiam – ela já sabia o que esperar dele. Na maior parte do tempo.
Já salivava por antecipação, lembrando da textura e do sabor do doce, lembrando de fazê-los desaparecer da mesa e aparecer em suas mãos sem que sequer soubesse como havia feito aquilo. Foram tempos estranhos, uma infância confusa e agridoce e por mais que colecionasse más recordações e ressentimentos não podia deixar de ser tomado pela nostalgia. Dados tempo e distância o suficiente até mesmo o mais trágico dos passados era enxergado detrás de lentes cor de rosa, revestido da ilusão de uma simplicidade que nunca existiu realmente. Não havia enigmas pra resolver, perseguições por status sanguíneo ou maldições pra se preocupar, mas havia outros discursos de ódio, outras discriminações, outros modos de ferir e ser ferido. E ainda não tinha Liesel ao seu lado.
Sorriu pra ela, sem conseguir evitar. Não só pela constatação de que mal conseguia se lembrar de sua vida antes dela, mas também pelo jeito que ela o manipulava tão habilmente. Talvez fosse inconsciente, talvez tantos anos tenham feito com que Liesel percebesse o que funcionava com ele e usasse todos aqueles artifícios instintivamente. Só isso poderia explicar o como ela conseguia fazer com que Demetrius fizesse quase todas as suas vontades – mesmo que reclamasse na maior parte do tempo. Mas era ingênua demais pra se dar conta do poder que determinado tom de voz, expressão facial ou um simples olhar poderia ter sobre o amigo.
– Eu disse pra você me surpreender, não pra me entregar os planos – admoestou, contorcendo o rosto em uma careta cômica. – Vamos lá, Lis, você consegue fazer melhor do que isso. – acrescentou, mas bastava que ela o olhasse daquela forma mais uma vez que ele a seguiria até o fim do mundo.
Mas o fim do mundo poderia esperar mais alguns minutos. As bebidas chegaram antes da comida, o que deixou Demetrius um pouco irritado. Preferia esperar mais um pouco até os bakestones estivessem prontos, pois sabia que acabariam consumindo mais desse jeito. Mas não era hora de ser mesquinho, tinha prometido a Liesel que arcaria com as despesas e cumpriria sua promessa. Um pouco contrariado, bebericou o hidromel, na esperança de que se desse goles moderados sobraria o bebida o bastante para acompanhar o doce.
– O que você costuma fazer quando vem ver o festival? – indagou repentinamente, fitando-a com genuíno interesse. Era engraçado que a amiga visitasse o vilarejo no feriado ano após ano e ainda assim nunca tivesse comentado nada com ele sobre as suas atrações. Ou talvez tivesse comentado e ele não tivesse prestado atenção. A culpa o invadiu momentaneamente, mas ele a afastou. Estava lá por ela, afinal, se aquilo não compensasse sua insensibilidade, o que poderia? – Tem alguma tradição ou algo assim?
Demetrius viu a cabeleira loira de Rosmerta despontar da multidão e antes mesmo que tivesse um bom vislumbre da bandeja que ela carregava sabia que trazia seu pedido. O aroma inconfundível de bolos galeses recém-saídos do forno perfumou o ambiente e seu estômago roncou, como se reclamasse da demora.
– Opa! – seus olhos brilharam quando a moça pôs a travessa sobre a mesa. – Obrigado.
Os doces eram redondos e achatados, como cookies, mas sua massa era mais macia e salpicada de açúcar por toda a parte. As frutas cristalizadas dividiam espaço com gotas de chocolate – uma variação da receita que Demetrius nunca tivera a chance de experimentar, mas que parecia ainda mais irresistível que a original. Levantou o olhar pra fitar Liesel e deslizou a travessa pela mesa. – Primeiro as damas.






