Era um sonho, mas com barulho. As luzes da cidade piscavam lento, feito coração distraído. Eu andava firme, simples com a cerveja suando na mão, e o mundo inteiro parecendo possível. Nada de grito, nem fuga. Só meus passos, meu nome, ecoando no concreto como se o chão me reconhecesse. Não tinha céu cor-de-rosa, nem sinal de fantasia. Mas tudo ali era sonho: a rua molhada, o som distante de uma música velha, a garota no ponto rindo sozinha. Meu corpo era leve, mas minha presença pesava não por ser demais, mas por ser exata. Eu não precisava dizer quem era. Tava no gesto. No jeito que eu segurava a garrafa, no silêncio que respeitava o barulho. Não sou lenda, nem mistério. Sou homem que sonha acordado com os olhos bem abertos e os pés colados no asfalto. E quando a cidade dorme, eu fico. Brindando com o tempo, sem pressa de acordar. - IM














