but you’re not alone anymore ㅡ ( w: @dg-jaejin )
Algumas vezes, certas mortes de pacientes eram mais trágicas do que outras. Crianças envolvidas em acidentes, suas vidas se esvaindo entre os dedos dos médicos desesperados na tentativa de evitar a qualquer custo que perdessem algo que mal tinham aproveitado ainda. Mulheres que tinham complicações no parto e caíam para a escuridão sem volta à trilha sonora de um choro de bebê. Por outro lado, porém, quando os pacientes internados já tinham certa idade e uma lista de complicações de saúde vindas com ela, parecia ser um pensamento cruel - mas a morte era esperada. No fim, a de todas as pessoas é, certo? Afinal, a morte é a única certeza da vida. O que, é claro, nem mesmos nesses casos, tornava-a menos dolorosa. Se tratando de uma senhora com quem todos conviviam há anos, cujo bom humor cativara toda a equipe do hospital e que, na manhã anterior, tinha dito à Yunho o quanto se sentia bem, parecia surreal pensar que tão pouco tempo depois seus olhos tivessem se fechado para o descanso eterno.
Acabou responsável por dar a notícia aos familiares por ser o único médico presente naquele momento, junto das enfermeiras. Ordenou que todos os preparativos necessários fossem feitos, fez as ligações, recebeu pessoas com lágrimas conformadas nos olhos, ajudou a secá-las e disse todas as palavras de conforto que já estava até habituado a dizer. Ofereceu-se para pedir ao padre que rezasse uma missa em memória da falecida. E então deixou que seus entes queridos lidassem sozinhos com o luto. Era sempre assim: não se permitia senti-lo. Além de não poder - médicos tinham que aprender a lidar com isso, afinal - não achava-se digno de sentir a falta de uma vida levando em conta todas aquelas que já tinha tirado. Não se arrependia; seus “clientes” tinham bons motivos para procurá-lo. Mas estes não extinguiam que mesmo a pior pessoa do mundo tinha uma família que sentiria falta e choraria sua morte. Yunho não era digno de se permitir sentir dor por uns quando sequer se importava com a de outros. (Embora, mesmo sem permitir, carregasse consigo o peso em seu coração.)
Tirando os óculos e mexendo nos próprios cabelos, seguiu para o quarto que costumava ser o da idosa em questão. Não se importava em arrumar os aposentos após estes ocorridos, mesmo que isso fosse trabalho da equipe de enfermeiros ou zeladores do hospital. Talvez aquela fosse sua própria maneira silenciosa de prestar respeitos, afinal. Ou de ficar um pouco sozinho com sua própria mente. Ao chegar lá, porém, a figura de costas para si levemente encolhida e de cabelos rosados lhe fez lembrar que não só familiares sentiam dor; e foi com um suspiro que se aproximou de Jaejin, perguntando-se quem tinha lhe dado a notícia e por quê não se lembrara de fazer aquilo por si mesmo. Tocando delicadamente um de seus ombros, se inclinou para perto, os olhos claros carregando uma preocupação genuína. ㅡ Jaejin-ah, ei… ㅡ Chamou, baixinho, sentindo-se deveras… Inútil. Seria idiota perguntar se ele já sabia ou se estava bem, quando a resposta para ambas as perguntas já estavam nítidas na expressão do mais novo. Não havia nada que pudesse realmente fazer para ajudá-lo; nada além de suas palavras e - talvez - um abraço reconfortante a oferecer. ㅡ Posso te fazer companhia, hm? ㅡ Disse, enfim, o cantinho dos lábios se curvando suavemente num sorriso compreensivo, dando-lhe a abertura para que chegasse mais perto se assim desejasse - não era como se nunca tivessem passado por alguma situação com aquela antes parecida, afinal.
*☾ — ❝Jaejin sempre fora um cuidador antes de ser um indivíduo propriamente solitário. Nascido em uma grande família, fora apenas natural que tomasse para si a responsabilidade de ajudar seus pais na criação de seus irmãos. Entretanto, sua trajetória de vida continuava a empurrá-lo para uma figura de proteção e cuidado: não só fora responsável por tomar conta de seu avô enfermo desde tenra idade, por vezes se forçando a roubar alimentos para mantê-lo nutrido, mas também não via problemas em ter de fugir da escola para pedir esmolas. Até mesmo quando fora submetido a trabalho escravo, uma criança sozinha em uma ilha afastada, tomara para si a posição de cuidador: grande parte das outras pessoas na mesma condição sofriam de diferentes deficiências e, em todos os momentos em que permaneceu por lá, o garoto não hesitara em gastar seu tempo e energia em ajudar quem precisava de si. E, uma coisa que ele conseguiu notar após analisar sua vida calmamente, foi que sempre havia alguém que necessitava de sua presença, de seu acalento. Após descobrir tal coisa, nada poderia convencê-lo do contrário: viera o mundo apenas para isso. Cuidar, proteger, amar. Era um trabalho ingrato, isto também foi uma de suas descobertas, mas conseguia lhe dar um senso de propósito para continuar vivendo, mesmo que, para isso, tivesse de lutar contra diversas adversidades.
*☾ — ❝Portanto, tornar-se cuidador de idosos apenas parecia encaixar perfeitamente. Era um ofício que aquecia seu coração, e permitia que um garoto sem infância e forçosamente empurrado para a independência tivesse uma família. O apego que tinha com cada um de seus clientes era notável: seus maneirismos delicados, o tratamento cordial e amoroso, o cuidado constante e que não requeria nada em troca. Amava-os, e aquilo era claro. E era por isso que partir se tornava uma experiência tão dolorosa: o abandono, a separação natural imposta eram sentimentos que Jaejin havia aprendido cedo demais. E, embora permanecesse firme no hospital por dias a fio, olhar adocicado e palavras ternurentas oferecidas aos familiares abalados, suas mãos ainda tremiam e suas pernas, falhavam. Com um sorriso estável, oferecia seu ombro aos que precisavam chorar, e não deixava seu trabalho de lado: ajudava no funeral, sempre que lhe era permitido.
*☾ — ❝Ainda assim, o pesar o atingia em cheio. Como um último favor e despedida, seguiu para o antigo quarto da sra. Kang. Arrumou sua cama, juntou os pertences dela que ali haviam sido esquecidos, e ali permaneceu. O dia ensolarado lhe dava certo conforto (afinal, ela havia de estar em um lugar melhor), não conseguia evitar que as lágrimas guardadas começassem a cair, uma por uma, molhando a roupa de cama recém posta. Com as mãos segurando na borda da cama com certa firmeza, procurando por forças para que o corpo magro de Jaejin conseguisse manter-se em pé, ele permitiu-se chorar a dor de mais uma perda. Nunca fora o tipo de pessoa que tentava limpar as lágrimas e esconder seu choro: apenas deixava tudo para fora quando encontrava o momento certo, e não parava até não haver mais nada de doloroso consumindo o espaço dentro de si. Após alguns minutos, sua respiração parecia mais estável, embora novos rastros úmidos ainda se formassem em suas bochechas. Com uma reação lenta, virou-se para ver o recém-chegado que havia tão gentilmente tocado seu ombro, ainda que já soubesse que fosse apenas pelo aroma e pela presença. Sorriu levemente ao ver Yunho ao seu lado, em um agradecimento mudo por sua presença. Levou suas mãos até seus olhos, os secando, logo voltando a respirar profundamente. —— Olá, hyung. —— Cumprimentou, voz ainda mais sutil do que o habitual. —— Obrigado. —— Disse com simplicidade, deixando que sua cabeça se apoiasse em um dos ombros do mais velho. Permitiu que parte de seu peso repousasse sobre o corpo do outro, olhos se fechando enquanto buscava alguma coisa positiva daquilo tudo. —— Eu sou muito grato... Por ter conhecido a sra. Kang e sua família. Sou muito grato por ter sido abençoado por sua presença. E, mais do que tudo, encontrarei em mim a força para ser feliz... Porque ela está em um lugar melhor agora, não? Sem dores, sem enfermidade.