Crônica do dia 28/04/2020
Os dias tem sido difíceis. Não que não fossem antes do meio de março. Os dias como ontem, hoje, amanhã e outros adiante, são difíceis pois a lógica do "último dia da sua vida" foi intensificada de forma brutal.
A morte sempre será a nossa linha de chegada nessa maratona. Dizem que quando vai se ficando mais velho, mais ficamos conscientes disso. Entretanto, a esperança é que essa não seja uma questão rotineira tão cedo na vida. Morrem todos, jovens ou mais velhos. É a consciência disso que foi alterada. A razão? Um ser vivo, invisível e silencioso, rápido, que invade nossos corpos e inicia em cada um que alcança uma guerra interna com nosso organismo.
Enquanto nossos corpos correm. Nossas mentes se paralisam. Há quem esteja preparado? Há, mas isso não é característica majoritária da humanidade. Principalmente quando lidamos com as variáveis psicológicas inesperadas.
Tudo é intenso quando nos vemos com problemas psicológicos. Mesmo sem diagnóstico, a questão está posta. Eu mesma estive anos depressiva e por n motivos só tive o diagnóstico tarde. Tarde não ao extremo, mas tarde o suficiente para que se transformasse em algo crônico.
Me atrapalha diariamente? Não. É visível de formas mais amplas? Não. É mais como um pelo que sempre nasce em um lugar sem sentido, ou como uma pinta na sola do pé: quase sempre não se dá atenção, mas a coisa existe. As vezes damos de cara com ela e a contemplamos. Sorte dos dias que ela é vista e se segue adiante. Azar, mais frequente que o esperado, é quando olhamos para esse abismo e ele olha de volta. Mais uma vez o corpo e a mente se encontram em momentos distintos. A mente se agita negativamente.
O equilíbrio do corpo e da mente é para poucos. É o desequilíbrio que é a potência humana. Nossas ânsias, nossas questões, nossos corpos, nossa saúde. Algo falha. O restante segura o quanto pode... O foco é manter o rosto para fora da água o maior tempo possível.
Algumas vezes corpos externos aos nossos se tornam suportes extras para esse castelo de cartas – que aqui é o que eu uso para metaforear o que somos. São as melhores companhias, mas sua ausência não aguardada pode ser uma faca de dois gumes.
Se internamente as cartas foram empilhadas de forma a estarem de pé sem necessariamente ter que usar os suportes externos se segue o caminho. Mas não raro as cartas no interior estão vacilantes e se aquele suporte que evitava uma ventania de as afetar se ausenta, qualquer intempérie pode se transformar em combustível para o reavivamento de problemas, para fragilidades se intensificarem, para cartas tombarem.
Além de por em xeque os nossos corpos, essa pandemia afeta nosso entorno, nossos suportes. Amigos, amores, família, conhecidos apenas de se cumprimentar e ver a confortável presença rotineira, transeuntes... todos afastados (Assim deveriam para evitar um contágio rápido que o sistema de saúde não suporta).
Não há como não ficar alerta para o "último dia de nossas vidas".
O humano é um ser coletivo, necessitado de outrem, querendo ou não. Com o afastamento, a ventania está menos impedida de abalar nosso castelo de cartas.
É preciso se tornar então atento. Mais atento. Você pode estar bem, ter suportes internos que seguram sua estrutura de pé mesmo sem aquela barreira para o vento ao norte, mas um castelo de cartas que você fazia fronteira próxima, evitando a ventania à noroeste, pode reagir distintamente quando você se ausenta.
A coisa que se pode fazer é criar formas de estar presente, adequá-las a possibilidade e a necessidade. É estar atento a seus laços e a si mesmo. "Atento e forte".