Inventário de mim mesmo - Luciano Portela Para Albert Camus 1 Hoje é mais um dia comum. Com pessoas andando pela rua, cada uma delas com algum objetivo específico talvez; uns indo, outros voltando. Sempre com algo em mente. Parece que a inércia humana é um segredo milenar que deve funcionar, eu acho. Hoje é segunda feira, começo de semana para muitas das pessoas que passam pela rua. Eu vejo essas mesmas pessoas da janela do meu prédio; algumas passam por mim distraídas, outras até olham, acenam, dizem bom dia com um sorriso leve de quem gosta de andar com o nascer do sol atingindo aos poucos. Eu os respondo, embora nem sempre com o mesmo sorriso. Sorrir é uma coisa, ser alegre é outra. E dependendo do mau humor com que nós paulistas (e eu me incluo nisso) somos atingidos, ele sempre prevalece. O paulistano é um povo exótico, se sente a vanguarda do país e vive de requintes imaginários, mas na hora mesmo é um bicho do mato, acha que lança moda, disputa atenção com os cariocas, odeia os nordestinos, nutre um prazer exacerbado em menosprezar sulistas. Essa gente que anda lá embaixo tem dessas coisas, e eu às vejo todos os dias. Moro num bairro dito classe média, até hoje não entendi bem o que é isso. Sempre escutei dos meus pais que vivíamos em ascensão, que com o crescimento melhoraríamos. Só não me explicaram o que era considerado pior que nós e muito menos qual era o objetivo. Meu pai era um ministro renomado, bem relacionado, muito inteligente. Minha mãe era uma dama com seus afazeres e sempre acompanhando meu pai. Tiveram além de mim mais um filho, esse desapareceu e até hoje não se sabe nada sobre. Não o vejo há mais de vinte anos, Carlos era seu nome, era mais novo que eu e também mais forte e corpulento. Gostava de debater ideias de Lênin e Trotsky. Papai e mamãe nunca olhavam isso com bons olhos, mas ele não tava nem aí. Eu apenas o escutava sem dar muita bola, ele era muito ardiloso nos argumentos e nas palavras. 2 Caminho para o dentista, não saia pra andar na rua há duas semanas. Até havia esquecido o gosto que a brisa tem, o dia fica mais leve quando saio de casa, parece que tiro o gosto de mofo que vive entalado na garganta. Não fazer nada também tem suas desvantagens, ter várias opções e manter a opção de não querer fazer nenhuma delas é difícil. É como perpetuar o marasmo, e, todo o resultado disso é improdutivo. Por isso pensei em preparar algo para o dia 14. O dentista é um senhor calvo, como era o meu pai. Pessoas calvas me inspiram segurança, deve ser por causa desse feixe de memória sentimental. Ele sempre me aborda com educação, a típica polidez de porta pra dentro, coisa de paulistano. - Limpeza hoje seu Paulo? - Sim, precisa né. -Xô dar uma olhada... Com as mãos parecendo pênis encapuzados. Aqueles dedos invadem minha boca com certa mecanicidade. Coisa típica de paulistano também, essa mecanicidade nas relações. Vasculha minha arcada dentária com certa força, sinto dor, respiro e resisto. O tártaro é uma espécie de placa bacteriana que com a não escovação se acumula nos dentes. – dizia ele com naturalidade – eu apenas assentia como um som solto pela boca aberta ainda sendo invadida por aqueles dedos penianos. - Vejo que na parte da frente tem bastante. - ... - Vou limpar já. Espere um minuto. As sessões de limpeza são duras, ele passa um instrumento pontudo em forma de anzol com toda força dente por dente, nessas horas eu gemo discretamente de dor. De qualquer forma o trabalho dele é bem feito. Dentistas, médicos, advogados e burocratas em geral vivem o mesmo caráter de mesmice, pragmatismo e frieza tipicamente paulistanos. Vivem e se relacionam com requintes de crueldade, seu cotidiano parece ser friamente calculado desde quando acorda até a hora em que vai dormir. E tudo é permeado pela mesmice, se fala igual, se cumprimenta igual, pensa e age igual... -Tua gengiva tá sangrando muito, melhor pararmos por hoje ok? Podemos continuar na quarta que vem? 3 Passo em frente à lanchonete, a moça do balcão é a mesma há anos, tem um rosto feio. Mas eu aprecio seu corpo, ela aparenta não ser daqui, tem um sotaque carregado que contrasta com uma voz suave, deve ser Baiana ou Cearense. Fala pouco, procura ser educada nessas poucas falas. Cara feia e sofrida, mesmo assim me parece interessante. Já sai muitas vezes da lanchonete com tesão por ela. Não sei seu nome. Mulheres tem esse dom, chamo assim porque nós homens por mais que quiséssemos jamais teríamos esse charme natural, sempre vivemos de antenas ligadas, pode ser que isso também seja coisa de paulistano. Ainda não tenho tanta certeza. Se bobear numa conversa comum elas conseguem tirar todas as informações que quiser. Por exemplo, que meu nome é Paulo, que tenho 43 anos, que nasci dia catorze de novembro... mulheres conseguem nos sensibilizar e amaciar com poucos gestos, sem intenção alguma. Nós homens vivemos condicionados, como aqueles leões de savana esperando o próximo pedaço de carne. Eu me sinto assim muitas vezes, lembro até hoje que com 17 anos anotava os telefones de prostitutas dos classificados de jornal para ligar pra elas, gostava de ouvir a voz de cada uma delas, conversávamos rápido, acertávamos preços, perguntava as características físicas de cada uma. Mas, nunca me preocupava em saber da vida de cada uma. Por pura frieza talvez. Nunca havia pensado nelas, pensei em mim sempre. Pondo não só as relações como meus desejos à frente delas, minha mãe descobriu sobre esses telefones e me bateu com vara de marmelo. Hoje ainda sinto muita falta de marcar meus programas imaginários. - Vai querer o que? - Seis pães e duzentos gramas de mortadela. Hoje ela usa um short de algodão azul quadriculado, tem uma bunda volumosa. Ancas largas, parecendo uma pata conforme anda. Mesmo assim me sinto atraído por ela. Não sei como abordá-la, talvez seja esse o meu problema. Sou escravo das minhas palavras e me responsabilizo por elas. Palavras que nunca saíram da minha boca, são apenas pensamentos disformes por enquanto, acho que nunca sairão. Semana que vem será meu aniversário. Mais um dia catorze da minha vida. - Preciso encomendar um bolo de aniversário, quero um bolo simples. 4 Hoje amanheci lembrando do meu irmão desaparecido. Não tenho nenhum rastro seu. Só sei que desapareceu, se quiser ter algum tipo de contato com ele este só é feito por fotos tiradas da Polaroid da família. Nossos pequenos fragmentos de memória, meus sentimentos congelados no tempo, os mesmos que tenho congelado em cada centímetro desse apartamento, desse prédio velho. Sinto falta de ouvir alguma voz aqui, outra voz além da minha já que me pego falando sozinho com frequência. Ele é dez anos mais novo que eu, sua voz era como a personalidade. Forte e imperativa. Não gostava de injustiças, não aceitava ver a miséria. Nem humana, nem intelectual. Sempre dizia para nós três que éramos alienados, que a nossa realidade burguesa nos impedia de ver o que acontecia no país. Eu não entendia muito bem tudo aquilo, mas o que eu notava nele era que além de perceber tudo ele não aceitava. Quando caímos na não aceitação de uma ideia, chegamos à necessidade de transformação, no meu irmão essa transformação chegou antes, daí ele quis transformar o país. Ele sumiu no dia do meu aniversário. Dia 14, demos conta quando ele saiu e não voltou mais. Preparou para mim uma festa surpresa, festa da qual ele cuidou com imenso zelo. Anos depois meus pais me contaram tudo isso. Meu irmão sumiu quando foi buscar cigarros na padaria, fumava muito Hollywood. Esperamos por uma hora, ele não veio. Procuramos por todas as delegacias e nada, e assim começou o martírio. Meus pais ficaram sabendo depois, que um Chevrolet Veraneio preto sem placa havia parado perto da padaria, meu irmão foi pego por quatro homens que estavam dentro desse carro. Não se sabia quem eram esses homens. Por muitos anos tive dificuldades em lidar com a ausência dele, evitava as propagandas de esportes radicais da Hollywood, não fazia questão de ver campeonatos de Motocross em Curitiba ou grandes festivais do Hollywood Rock. Meu irmão era agora um vulto pra mim, um vulto que virou um fardo para toda a família e assim como meus pais se tornou um defunto na memória. Um defunto hipotético que coleciono na memória afetiva. 5 Hoje é dia de rever o dentista careca mais uma vez. Minhas gengivas sangraram quase a semana inteira, disse ele que apenas mais uma sessão seria o suficiente para que eu pudesse ficar cem por cento. Eu achei aquilo sofrido, a dor mesmo que corriqueira ainda me incomoda seja ela qual for. Quem sabe um dia não enfrente um terapeuta, mesmo não tendo dinheiro. Na minha situação seria mais fácil buscar uma religião, mas quando penso nisso lembro que não tenho mais amigos nem ninguém para conversar. Logo desisto. O dentista se mostra novamente receptivo, perguntou se eu utilizei corretamente o fio dental, repito tudo o que ele me explicou – com uma cara de grande monotonia – ele aceita assertivamente. Dentistas são seres estranhos, falam quase todos os procedimentos, se precisar tem toda a paciência do mundo. Dentistas e taxistas são parecidos para mim, loucos por dinheiro e perversos nos métodos. Existem dentistas na história da humanidade que poderiam muito bem ser açougueiros. Espero que ele não retire minha gengiva ao passar aquele anzol nos meus dentes, espero também não sair daqui descarregando bolas de sangue coagulado. Não quero passar o meu aniversário com mais dores desconfortáveis como passei na semana anterior. Pensei em lhe dizer “Por favor, amanhã é o meu aniversário. Tenha piedade!”, mas entendi logo em seguida que isso de nada adiantaria. Hoje, chego à conclusão que mesmo ele sendo careca como meu pai era ele jamais seria digno de confiança. No máximo ele seria o meu medo materializado. Pensei mil coisas, nem sempre elas têm sentido pra mim. Quando se vive sozinho o que tem pra si além das memórias empoeiradas são os pensamentos, estes sempre presos feito pássaros que nunca voam, então jamais saberei se são colibris ou urubus. Quem sabe após o fim da minha existência. A morte um dia chega pra qualquer um, chegou para a minha mãe, que viveu anos deprimida com o sumiço do meu irmão, pensou criar uma fundação parecida com a das Mães da Praça de Maio, muitos daqui preferiram não intervir, outras famílias foram embora do país, ela se viu isolada do mundo. A morte também chegou para o meu pai, o velho aparentava ser calmo só não sabíamos de sua extrema sensibilidade e descontrole emocional, certo dia chegou ao apartamento e nos cumprimentou, disse que nos amava; percebi que nesse momento escorreu uma lágrima dele, perguntei no auge da minha inocência se ele estava doente. Sua risada foi leve por incrível que pareça. Não me respondeu. Minutos depois o vi caído no quarto, com uma bala que entrou no céu da boca e atravessou a cabeça. Espero que a morte do meu irmão um dia chegue também; independente do motivo chegue para mim, em forma de papel jogado por debaixo da porta. 6 Volto com as gengivas latejando. Uma dor insuportável, há tempos não me sentia tão vivo, amanhã será meu aniversário. Dia 14. Um nascimento que não era previsto pelos meus pais (não estava nos planos), eles eram jovens. Vim e cheguei à família por erro de minha mãe, acreditaram piamente na tabelinha e dela tiveram a resposta em forma de um pequeno amontoado de pele e carne que chorava compulsivamente. Cresci visto como esse acidente, esse erro irreparável. Não a toa que fiquei mais reservado, evitava qualquer coisa para não causar problemas a eles, meus pais diziam que a vida era dura. Hoje acredito piamente nisso. A mulher do balcão está ali religiosamente fazendo suas coisas, hoje a lanchonete está mais movimentada. Tem um senhor bigodudo tomando uma cachaça qualquer, outro mecânico comendo seu prato comercial com toda fúria do mundo, uma criança pedindo balas no caixa, um mendigo com cheiro forte de merda. Todos eles formando esse mosaico buñuelesco na minha frente. Ela era o centro das atenções, certamente sabia quem eu era. Sempre era assim, nós não conversávamos nada além das falas básicas. Pedido seguido de atendimento - O bolo que eu encomendei, por favor. - Já pego. 7 Hoje o dia amanheceu cinza, chove torrencialmente. O bolo está na geladeira, tem um creme azul por cima e o escrito “Feliz Aniversário” na superfície. Olho para ele e sinto as lembranças me invadirem mais uma vez, corrompendo cada região do meu cérebro. As pessoas lá fora também continuam sua rotina, umas indo, outras voltando. O dentista careca provavelmente recebendo pessoas e invadindo a boca delas com seus dedos de pênis, a mulher do balcão também com certeza andava como uma pata desde cedo de um lado para o outro, seduzindo com sua bunda de mulher fértil. Inércia de paulistano. Meu irmão, esse eu gostaria de saber como está nesse exato momento. Acendo as velas do bolo e penso, hoje é meu aniversário. Hoje é mais um dia comum. --------- Luciano Portela nasceu em São Paulo, historiador de profissão mas se interessa mais pela ficção. Publicou em 2014 o livro de contos Carolina foi Para o Bar Exibir Seus Lindos Pés (Ed. Giostri) e atualmente escreve seu primeiro romance.