Os provocamentos de DJ nunca faziam sentido para ele. Não sabia o que passava na cabeça da sua irmã, mas não era como se ele quisesse ficar perto do seu pai. Qualquer um que o conhecesse teria essa perspectiva, mas haviam inúmeras razões para que Bradford não tivesse a mesma liberdade de DJ. Começando pelo fato dele ser homem, e seu pai imediatamente fazer dele seu herdeiro. Havia o fato de que havia em seu coração, ainda um espaço para sua mãe, mesmo a mulher sendo um péssimo exemplo e nunca cuidando dos filhos. Havia a maneira como ele havia sido criado dentro da igreja que mesmo parecendo sem sentido o fazia pensar de que não deveria se abandonar sua família. Por mais confusos que fossem os sentimentos ou sua relação as outras pessoas, ele ainda seguia os preceitos que havia sido ensinado quando pequeno mesmo que ninguém esperasse isso dele. O que deixavam muitas coisas mais difícil. Ele não conseguia negar que tudo fora a piscina era ruim, mas ele ainda estava ali, para passar a noite com ela, então isso deveria significar alguma coisa. Por menor que fosse, ele poderia estar na piscina treinando e ter esquecido aquele jantar. Não era como se ele também fosse falar isso para a menina. Apenas revirou os olhos e fechou os braços mostrando-se fechado para esse tipo de comentário.
Ele nem queria lembrar do acampamento. Muitas coisas haviam acontecido, mas seus amigos não estavam envolvidos em muitas dessas memórias. “Ninguém estava conseguindo lidar com aquele acampamento. Ou essa coisa de lobos ou ter que ficar algemado a outra pessoa. Sabe aquele cara que fica com a câmera para cima e para baixo? Ele foi minha dupla. Preferia que os lobos fossem real e não uma simples metáfora para ensinar uma lição sem sentido. Como tudo que acontece naquele castelo. Não sei o que o Dawson teve que passar, mas não foi um dos acampamentos mais agradáveis, e olha que eu tive que acampar com o pai várias vezes, mas não foi tão ruim.” O resto não era como se ele se sentisse confortável para falar com sua irmã ou com qualquer outra pessoa, talvez com Ky, mas o mesmo parecia que não estava muito bem depois do acampamento. Aparentemente os estagiários e funcionários tiveram um lazer muito melhor do que eles, e então a irmã começou a fumar e aquilo fez com que ele se afastasse um pouco mais. Não era como se não estivesse acostumado com pessoas fumando. Um de seus melhores amigos era Amycus Carrow, mas ele odiava cigarros. Odiava o que faziam com o corpo das pessoas, a maneira como prejudicava o desempenho e o quanto aquilo o lembrava de seu pai. Seu pai também odiava cigarros, e isso era um ponto em comum deles, e Bradford toda vez que se afastava de um acreditava que estava mais próximo do pai e isso fazia com que ele ficasse com mais medo.
“Não é como se eu tivesse ido para casa.” Não sabia o quanto DJ sabia, mas já fazia um bom tempo em que Bradford não ia para casa. Por mais que ele sempre acabasse indo para pelo menos checar se sua mãe estava bem, e para ir caso seu pai o obrigasse a ter alguma reunião importante não era como se sentisse bem naquele local. Sua mãe geralmente ficava elogiando o quanto ele estava alto e parecia com seu pai, que era um homem maravilhoso e a forma como ela parecia querer prendê-lo, muitas vezes sufocavam o menino. Assim como todas as conversas que tinha que ter com o pai, e a forma como ele parecia ter a certeza de que o caminho do seu filho já estava traçado. Toda vez que ele voltava para casa era como se aceitasse aquele futuro, e muitas vezes Brad não tinha expectativas ou esperanças, então abraçava aquele lado. Ele nunca ia poder ser um atleta. Não quando, seu pai era um mafioso com envolvimento em tantas coisas que se algum dia fossem tentar fazer uma checagem com afinco em sua família, ele jamais teria qualquer oportunidade, e aquela era sua vida. Não importava o que ele quisesse fazer ainda era refém das escolhas de seus pais. “Pelo menos a cozinha de Hogwarts não é tão ruim, mas eles poderiam fazer mais atum ou cavalinha.” Deu de ombros tentando trazer um pouco mais de leveza aquilo.
Não sabia o que a irritava mais, quando Brad tentava defender seus pais, ou quando simplesmente não caía nas provocações. DJ tentava a todo custo tirar qualquer reação de seu irmão mais novo, mas ele parecia seguir o caminho de seu pai, mais austero e mais impenetrável a cada dia que passava. E então, na sacada de um apartamento pequeno demais para três pessoas que o dividiam à trancos e barrancos, dois irmãos que mais pareciam dois desconhecidos se encaravam -- Lobos falsos? Hogwarts realmente perde a noção do brega às vezes -- Murmurou, rolando os olhos e levando o cigarro que lentamente queimava à sua boca. Tragou e soprou a fumaça no ar, dessa vez tentando mandá-la o mais longe o possível de Brad. Não havia mais porque tentar irritá-lo, já haviam atingido impasses demais numa noite só. Diante da irritação de seu irmão, como fizera a vida toda, DJ apenas riu baixo -- É só o colégio, Brad. Só o colégio. Você não precisa levar tudo tão à sério assim -- Disse, olhando para seu irmão com um pouco mais de ternura e um pouco menos do rancor usual. Em momentos como aquele, Donna Jo se lembrava que Brad era só um garoto. Um garoto que se parecia demais com o pai que ela odiava, mas um garoto. E ele não tinha culpa de nada.
O comentário de Bradford fez DJ ficar alerta, virando-se na direção dele com as sobrancelhas arqueadas. Diante do teor da conversa, apagou o cigarro no cinzeiro escondido atrás do vaso juntamente com o maço, e voltou a olhá-lo -- Do que está falando? -- Perguntou, cruzando os braços e encarando Brad da mesma forma que fazia quando tentava arrancar alguma coisa dele quando eram mais novos. Alguma das histórias que seu pai havia contado apenas para ele, ou o que havia sido discutido nas reuniões secretas entre Cliff e os outros homens da família -- Anda, Bradford! Você agora é mudo e eu não estou sabendo? -- Perguntou apressada, batendo palmas na frente do rosto irmão quando tudo que obteve foi silêncio -- E você seriamente precisa comer alguma coisa que não venha da água, essa sua obsessão marítima não é saudável. Agora, explique. Por que não está voltando pra casa? Por que o seu pai não veio de buscar pelos cabelos em Hogwarts? Por que sua mãe não veio histérica chorar na porta do salão comunal? Porque é essa a reação de se esperar quando o menino dos olhos não volta pra casa.