Como poderia vir a existir um amor de conto de fadas que teoricamente "não existe"?
Estamos cansados de ler todos os dias em todos os lugares, desde os blogs de amor aos tumblrs de depressão sobre como o "amor perfeito" não existe. Alguns chamam isso de realismo. Outros de desilusão. Mas o fato é que a vida acabou causando descrença nas pessoas. Descrença no amor. Mas em uma contra-afirmação, todas as pessoas que conhecem a mim e a minha namorada como casal, sempre dizem que somos um motivo para acreditar no amor, acreditar que isso é real. E eu concordo. Afinal, se não fosse amor, como isso tudo seria possível? "Ah, mas você está exagerando. Não existe amor de conto de fadas." Bem, vou contar a história inteira. 31 de dezembro de 2013 não foi um dia como outro qualquer. Foi inicialmente um dia de tédio, onde uma garota procurava alguma coisa interessante pra fazer. Sua praticamente única amiga tinha viajado, e ela ficaria totalmente sozinha e entediada, então decidiu encontrar algo pra passar o tempo. Moderar uma página do facebook parecia algo perfeito. E inútil. Ótimo pra passar o tempo. Mas não crucial, e ela poderia se livrar disso sem ter muito trabalho depois. Perfeito. Sua amiga já havia comentado com ela sobre a tal página que procurava moderadores e a tal garota pensou "Tanto faz" como era o habitual. Praticamente tudo na sua vida vinha acompanhado de um "tanto faz", afinal, nada precisava ser realmente certo. E se precisasse, ela não ligava mesmo. Fez a inscrição como moderadora. Conseguiu a vaga. Legal. Mas tanto faz. Passou o dia procurando algo interessante pra fazer na página. Atendendo pedidos e mais pedidos, já voltando pro seu tédio inicial, até que notou a presença de outra pessoa além dos moderadores. Era só um curtidor. Poderia ser um curtidor como qualquer outro, mas aquele chamava sua atenção. Ele parecia ser bem querido na página, amigo de todos os moderadores. Um sentimento: ciúmes. Uma coisa que essa garota nunca teve muito na vida foi atenção de outras pessoas, e de repente, chegou uma outra pessoa que nem moderador era, mas tomou toda a atenção para si. Mas nesse caso, o sentimento correto não seria inveja? Estranho. Por que ciúmes? Ciúmes de quem? Não era amiga dos outros moderadores a ponto de sentir ciúmes deles, não era isso. Mas aquele outro garoto a intrigava. E então tentou chamar a atenção dele. Se conseguiu? Não. Não exatamente. Ela era só outra moderadora, usando um nickname com relação com o do garoto. Uma relação meio de ódio, se levar em conta os personagens envolvidos. A garota falhou em seu objetivo. E por isso gostou ainda mais, afinal, que graça teria se não tivesse nenhuma dificuldade? Finalmente, seu tédio estava acabando. A coisa começou a ficar interessante. Decidiu passar para o plano B, ou melhor, criar um plano B. Um personagem com relação ao do garoto. Mas outro tipo de relação, é claro. Bom, mais ou menos, se você levar em conta a história. Mas só tinha um problema: este personagem era um homem. Não que isso viesse a ser realmente um problema, mas isso escondia totalmente a identidade da garota. Enfim. Não havia como o garoto saber que ambos os personagens eram a mesma pessoa. Principalmente com os "jogos e xingamentos" que a própria garota usava entre os dois, justamente pra não ser descoberta. Ela estava se divertindo com aquilo. Realmente, não estava entediada. E então decidiu se aprofundar um pouco mais. Às 16:33, um primeiro contato direto. Um "oi" apenas. Assim mesmo. Seguido de um apelido que fazia parte dos personagens e uma carinha assim "^^". 16:34, uma resposta rápida, isso é legal. "O-Oi" apenas. A garota arqueou a sobrancelha. Não entendeu o porque do gaguejar. Mas a partir dai, uma conversa boba e um pouco insegura se instalou. A garota não conseguia pensar em um assunto que fosse realmente interessante. "Hm... como está o seu ano novo?" perguntou, tendo vontade de dar um tapa na própria testa depois. "Vai indo bem" respondeu o garoto depois de poucos minutos "e o seu, está indo bem?" ela parou e pensou. Pensou de verdade. Dentro dos últimos acontecimentos, não se podia dizer que algo realmente estava indo bem em sua vida, na realidade, aquele estava sendo o pior ano da sua vida. Mas em relação ao dia, o ano novo, não tinha nada muito especial. E mesmo se tivesse, por que dizer isso a um estranho que conhecia há alguns minutos? "É... está indo." respondeu com sinceridade, e teve medo do assunto morrer quando o garoto apenas mandou um "^^". Nossa, que bosta de assunto. O que uma pessoa normal faria em um momento como esse? Desistir, é claro. A própria garota poderia ter feito isso. Aquela poderia ter sido só mais uma pessoa que a garota nunca ia conhecer, e nada mudaria em relação à sua história, certo? Mas curiosamente, desistir foi um pensamento que sequer passou na mente dela naquele momento. Ela decidiu continuar a conversa, que havia começado de maneira tão tediosa e que, sem que ela percebesse, já tinha virado a conversa mais interessante da sua vida. Não sabia exatamente como isso aconteceu, mas simplesmente não conseguia mais tirar os olhos da tela do notebook, e quando teve que fazer isso (porque o notebook da tia tinha ficado sem carga) grudou-se ao próprio celular e não conseguia parar de olhar pra ele. Tomou um banho rápido pra não perder muito tempo daquela conversa, vestiu-se de forma um pouco incomum pra um ano novo. Uma camisa preta, estampada com seu desenho favorito (com certeza a camisa favorita da sua vida), um short jeans e um allstar preto. Sentou-se na bancada do segundo andar, que dava vista pro céu, pra cidade e pros fogos de artifício e colocou sua música favorita nos fones de ouvido. Tsuki no Ame. Aquela música que lhe trazia um certo tipo de paz. E continuou vidrada no celular, sem conseguir se desgrudar da pessoa do outro lado, mas mal fazia ideia de que haviam 1351 km separando ela e essa pessoa fisicamente. Os dias se passaram, o tédio acabou, a amiga voltou de viagem, mas aquele garoto ainda estava lá. Não havia um dia sequer que eles não conversassem. Geralmente trocavam mensagens o dia inteiro, e não deixavam de se falar onde quer que estivessem. Mas só havia um problema. Este garoto achava que ela era um garoto também! E o que não vinha a ser realmente um problema antes, agora era um problema! E que problema! O tempo havia aproximando bastante essas duas pessoas, e agora já até trocavam apelidos. A garota o chamava de "meu pequeno" e ele, que não sabia sobre o gênero dela, a chamava de "meu grandão", mas ela não se importava muito com isso. Na verdade sua maior preocupação era perder "seu pequeno", afinal, um garoto que teoricamente tem uma relação com outro garoto, provavelmente gosta de garotos. E provavelmente não teria interesse em uma relação com ela. E por essa razão, ela nunca disse seu nome ou perguntou o dele. E se sentia aliviada por ele nunca ter perguntado o dela, apesar de achar isso um pouco estranho. Então a relação deles era exatamente essa: Ele não sabia o gênero dela. Não sabiam os nomes um do outro, jamais tinham visto uma foto um do outro. O que sabiam um sobre o outro mesmo? Além de que gostavam muito de conversar um com o outro o tempo todo, nada. A garota também começou a se sentir confortável em relação à palavra "amor", coisa que jamais tinha sentido em relação à nenhum outro garoto antes. Sempre tinha se achado uma idiota por ter dado "sorte" em relação à encontrar garotos carinhosos e gentis que tinham interesse nela, e por sempre terminar com eles por não se sentir realmente segura. Não sentia que realmente amava eles, como um amor de conto de fadas no qual acreditava. Mas com esse garoto era diferente. Alguma coisa era diferente. Não se sentia insegura em relação à palavra amor. E acabou dizendo a ele que o amava. E ele retribuiu com um "eu te amo". Era tudo o que ela precisava. Foi mais ou menos nessa época que a primeira foto dele chegou:
O contexto do assunto era exatamente sobre se amarem. A garota estava realmente feliz e dizia constantemente que o amava, e ele retribuía a esse sentimento. Disse que estava com um sorriso bobo no rosto, e que simplesmente não conseguia parar de sorrir. Falou sobre suas covinhas e enviou a ela uma foto de seu sorriso. Ela nunca tinha conseguido imaginar uma sensação tão intensa e boa em toda a sua vida, como quando ela falava com ele. Quando estava sem ele, havia apenas saudade e aquela expectativa de quando ele iria entrar. Como é que as coisas poderiam mudar tão rápido? Como você pode estar perdidamente apaixonado por alguém que você nem sabe o nome? Não sabe o nome... esse pensamento voltava a vir à tona. "E quando ele me conhecer? E quando souber quem eu sou? Ele vai me abandonar? Ele vai me detestar por não contar a verdade? Por que é que eu esperei as coisas chegarem a este ponto? Se ele me abandonar agora, eu não vou suportar..." Bem, as coisas continuaram da mesma forma por um bom tempo, e o dilema continuava: "Vou contar pra ele. Mas como fazer isso? Quando fazer isso? Tenho que contar." Já haviam se passado 28 dias desde que se conheceram. Era dia 27 de janeiro de 2014. O dia em que ela "ia contar pra ele" assim como os outros. Nesse dia, ele foi mais rápido e corajoso que ela. Ele (ou ela) fez isso antes da garota. "Ele" disse que não sabia como contar isso, que já devia ter feito isso há um bom tempo, mas não sabia como o outro iria reagir, e então disse que era uma garota. E a própria garota (a nossa heroína) ficou totalmente surpresa e chocada. Seu namorado era uma garota! E ela também era uma garota! Ambas estavam com medo de se assumir uma pra outra! É claro que ela não poderia deixar essa oportunidade passar e se assumiu também. No dia 27 de janeiro de 2014. "Nós somos tipo... namoradas?" perguntou a nossa primeira garota "Hm... não sei > < eu acho que sim" respondeu a outra "Bem, se não formos... você quer namorar comigo?" "Sim!". Fim da história, certo? Certo mesmo? Claro que não! Ela acabou de começar! As duas se tornaram ainda mais grudadas depois do acontecido, ao invés de se afastarem como tinham imaginado "quando eram garotos". Ficavam juntas a todo segundo e não deixavam de se falar um minuto se quer. Aliny era o nome de sua paixão, a garota descobriu. Ou melhor, de seu amor. Paixão é algo passageiro, que você sente de vez em quando, seja por uma pessoa, um filme, uma música ou até uma comida. Amor é diferente. É o desejo de querer cuidar e estar junto, e de nunca, jamais se separar. É a melhor coisa da vida. E Aliny e Nayara sentiam amor. E também a paixão, é claro. Mas o amor em primeiro lugar. Elas mostravam uma a outra aquilo o que gostavam, as músicas que ouviam e jamais (jamais!) brigavam ou discutiam. Os meses passavam correndo. Já eram 5 meses de namoro e nunca tinham brigado uma vez sequer na vida. Mas é claro, tudo o que é bom dura pouco. Em torno dos 6 meses, os problemas começaram, e caíram de uma vez. Depois de 5 meses de flores e primavera, uma tempestade repentina que derrubou os arranjos de flores. Mas por mais que tenha sido horrível enfrentar toda essa tempestade, de certa forma isso ajudou as garotas a crescerem, e isso testou a força do amor delas. Se elas conseguiram ficar juntas mesmo depois de tudo, se conseguiram permanecer fortes, então o amor delas duraria para sempre, afinal, "É necessário suportar duas ou três lagartas antes de conhecer as borboletas." Foi como enfrentar o Bowser antes de chegar até a Princesa Peach. É algo que você realmente não está afim de fazer, mas é necessário e passar pela fase vai te dar cogumelos vermelhos e você vai crescer. Bem... uma metáfora meio confusa. Enfim, vieram muitos altos e baixos na relação delas. E as brigas começaram, como sempre, mas a intimidade aumentou muito também, e o maior problema da relação delas no momento é a distância. Essas garotas estão há 3 anos em um relacionamento à distância. "Mas como? Sem se beijar e sem se tocar?" Essa é outra parte do conto de fadas. No dia 11 de novembro de 2016, nossa heroína saiu pela primeira vez de seu estado, de sua casa e longe de sua família para finalmente poder encontrar seu amor. Claro que houveram muitas barreiras, problemas, dificuldades. Mas tudo valeu a pena quando se abraçaram com força e sussurraram "eu te amo" para a outra. A parte mais difícil foi quando suas mãos se separaram devagar, se soltando na hora do adeus. Mas dessa vez, com a certeza de que se veriam novamente. E claro, com muita saudade. Elas vivem um amor realmente intenso, que começou sem o rótulo do gênero. Um amor que fez o "tanto faz" se transformar em "quando a gente...". Um amor verdadeiro, que ultrapassa qualquer barreira. Um verdadeiro conto de fadas. Mas é claro, não poderia ser diferente, afinal, um amor entre duas princesas só poderia ser um conto de fadas.










