𝗌𝗁𝖾 𝗱͟𝗼͟𝗲͟𝘀͟𝗻͟'𝘁 𝗄𝗇𝗈𝗐 𝗁𝗈𝗐 𝘵𝘰 𝘣𝘦 𝗅𝗂𝗄𝖾 𝒆𝒗𝒆𝒓𝒚 ᵒᵗʰᵉʳ 𝗀𝗂𝗋𝗅 ,⠀𝗌𝗁𝖾'𝗌 𝐚𝐥𝐨𝐧𝐞 𝗂𝗇 𝗁𝖾𝗋 𝗹𝗶𝘁𝘁𝗹𝗲 𝘄𝗼𝗿𝗹𝗱 . 𝖻𝗎𝗍 𝗌𝗁𝖾 𝗱𝗶𝗱𝗻'𝘁 𝗐𝖺𝗇𝗍 𝗍𝗁𝖾𝗆 𝒂𝒏𝒚𝒘𝒂𝒚𝒔 𓂃 𝗌𝗁𝖾'𝗌 𝗇𝗈 𝐝𝐚𝐦𝐬𝐞𝐥 𝐢𝐧 𝑑͟𝑖͟𝑠͟𝑡͟𝑟͟𝑒͟𝑠͟𝑠 .
𓈀 ㅤ𝐡𝐞𝐚𝐯𝒆͟𝒏͟𝒍͟𝒚 ⠀𓂃 ⠀ já era esperado que martina reyna de la vega y bourbon viesse para a ilha de treatan , afinal , ela é uma princesa vinda de castilla ( espanha ) . não que seja elegante perguntar , mas sei que ela já conta com seus trinta anos , e não esconde a fama de ser impaciente , mas é sabido que seu lado autêntico compensa . se não tivesse sangue azul , eu diria que é uma descendente direto de sofia carson , porque não poderiam ser mais idênticas !
* 𝘁𝗮𝗴𝘀. * 𝗽𝗶𝗻𝘁𝗲𝗿𝗲𝘀𝘁. * 𝘄𝗮𝗻𝘁𝗲𝗱. * 𝗵𝗾𝘀𝗮𝗹𝘁𝗵𝗮𝗿𝗮.
𝗮͟𝗲͟𝘀͟𝘁͟𝗵͟𝗲͟𝘁͟𝗶͟𝗰͟𝘀 ⠀𓂃 ⠀ cartas sem remetente guardadas em caixas trancadas , luvas de couro branco , uma garrafa de vinho meio vazia , colares de pérolas , retratos a óleo com rostos borrados , rosas prensadas entre páginas de seu diário .
ㅤ𓈀 ㅤ𝐬𝐭𝐨͟𝐫͟𝐲͟𝐭͟𝐢͟𝐦𝐞 ⠀𓂃 nasceu sob o véu de um escândalo que nunca foi confirmado — e , por isso mesmo , nunca morreu . havia quem dissesse que o rei , obcecado por um herdeiro homem , teria procurado respostas entre os lençóis errados . que martina era o fruto de uma traição — e pior : uma traição com sangue vermelho . nada foi provado , é claro . porém , quando a pequena martina veio ao mundo sem nenhuma marca divina no corpo , sem nenhum lampejo de poder nos primeiros anos , os cochichos viraram quase certezas : ela não podia ser legítima . mas negar a princesa ? difícil . desde pequena , era o retrato perfeito do esplendor castelhano : cabelos castanhos reluzentes , olhos de um âmbar impossível , e uma presença que fazia até os inquisidores esquecerem as orações . enquanto a irmã era moldada como uma figura sagrada , presenteada com símbolos , alianças , e a atenção do magisterium , martina crescia à sombra — mas bem mais livre do que deixavam transparecer . não era idolatrada , mas também não era vigiada do mesmo jeito .
martina descobriu seu poder cedo , embora ninguém tenha percebido . nem ela , de início . começou a reparar no jeito com que as pessoas começavam a ceder . a concordar . a repetir suas palavras como se fossem ideias próprias . ninguém dizia não a martina — mas ninguém lembrava de ter dito sim . primeiro , achou divertido . com um sorriso cortês e um toque cuidadosamente escolhido , fazia os irmãos brigarem , damas se desdobrarem em gentilezas , o instrutor de etiqueta encerrar as aulas meia hora mais cedo “ porque ela parecia exausta ” . não era maldade . martina não queria prejudicar ninguém — só não queria ser mandada . mais do que isso : não queria ser usada . ela entendeu rápido que , se contasse sobre o poder , seu pai daria um jeito de transformá-la num fantoche . um instrumento de diplomacia . uma arma de persuasão a serviço da coroa . mas é óbvio que segredos desse tipo têm prazo de validade . foi o rei quem descobriu primeiro — não porque fosse perspicaz , mas porque começou a notar coincidências demais . autoridades locais que cederam a decisões polêmicas “ depois de um chá com a princesa ” , uma dama de companhia inconveniente que se despedia por " motivos pessoais " , um guarda que cedia as chaves do jardim para ela caminhar à noite . e o mais imperdoável : o rei começou a somar os próprios deslizes , os “ sim ” ditos sem pensar , os “ como quiser , filha ” , os “ concordo plenamente ” , e sentiu o sangue ferver . quantos favores ele havia concedido àquela garota sem perceber ? ele ficou furioso . não pela quebra de confiança , mas porque odiava ser feito de idiota . e martina , com seus olhos de cervo e voz doce , tinha feito exatamente isso .
foi a primeira vez que ela viu o pai como um verdadeiro inimigo . não porque ele a confrontou , mas porque tentou controlar seu dom . quis que ela o usasse sob comando . “ para o bem do reino ” , disse . se martina tivesse se curvado , talvez teria ganhado um trono — ou , ao menos , um lugar ao lado dele . mas recusou . a primeira ordem foi simbólica : luvas . de cetim , de couro , de renda , de seda . havia uma para cada ocasião e cada estação . “ uma dama deve preservar o toque ” , dizia ele , como se isso tivesse algo a ver com etiqueta . depois , veio o cronograma . a ideia era mantê-la ocupada — mas parecia um isolamento . pintura às sete . escultura às nove . criação de arranjos florais ao meio-dia . bordado , canto lírico , análise de poesia épica castelhana . aula de história da igreja . aula de história da realeza . aula de história da história . era mantida longe de visitas diplomáticas , longe de cerimônias religiosas , longe até mesmo dos irmãos , quando possível . para alguém que amava a liberdade , a pior parte era a monotonia . nada mata uma alma esperta mais rápido do que o tédio .
foi durante uma das suas raras aparições públicas que martina conheceu george . ele era um nobre pertencente a uma casa menor , mas de reputação impecável . jovem demais para estar onde estava , bonito demais para ser levado a sério pelos outros velhos engravatados . para martina , isso bastava . talvez fosse o tédio acumulado de anos de reclusão ou a excitação de conversar com alguém que não queria ensiná-la a bordar . mas o fato é que ela se apaixonou . e — milagre dos sete santos — o sentimento era recíproco . inicialmente , esconderam o romance , mas era difícil disfarçar por tanto tempo . era ingênuo , romântico , deliciosamente idiota . e talvez por isso mesmo , verdadeiro . em menos de um ano estavam noivos — para desgosto do rei , que fingia apoiar enquanto procurava maneiras discretas de desfazer o compromisso . mas george era popular demais para ser descartado sem escândalo . até que veio o desastre . na véspera do casamento , o casal teve uma discussão — tão boba que nem lembrava o motivo . no calor do momento , martina o tocou e disse : " então desaparece , george . " a bourbon foi embora no instante seguinte , trancando-se em seus aposentos e acreditando que ele ligaria mais tarde , pedindo desculpas , como sempre fazia . mas ele não ligou .
no dia seguinte , o altar estava lá . a multidão também . a pompa , os sinos — tudo perfeitamente preparado . exceto por george . que não apareceu . nem respondeu . nem foi encontrado . foi ali , em pé diante da elite castelhana a olhando com pena , que martina entendeu o que tinha feito . ela tinha ordenado . e ele obedeceu . mas como dizer isso em voz alta ? ela não podia contar . porque se o fizesse , se revelasse a verdade , o rei não só retomaria o controle sobre ela como usaria o ocorrido como desculpa perfeita para transformá-la numa arma oficial da coroa . diria que era instável . que precisava ser vigiada . treinada . isolada de vez . então , preferiu o silêncio . deixou que a nação a visse como uma mártir romântica , a pobre princesa deixada no altar . a coitada com o coração partido . e talvez , por fora , fosse exatamente isso . mas por dentro , sabia que carregava algo muito mais devastador que um coração partido : a culpa .
ㅤ𓈀 ㅤ𝐜𝐚͟𝐬͟𝐭͟𝐢͟𝐥𝐥𝐚 ⠀𓂃 ⠀ leia mais sobre o reino de castilla aqui .
ㅤ𓈀 ㅤ𝐩͟𝐨͟𝐰͟𝐞͟𝐫 ⠀𓂃 ⠀ persuasão : martina tem a capacidade de influenciar a vontade de outras pessoas . o poder não funciona com palavras soltas ou olhares marcantes — ele exige contato físico direto . a sugestão funciona melhor quando o toque é intencional e o comando é direto . não é como se controlasse o alvo como uma marionete . a sugestão parece uma ideia espontânea para quem recebe , como se fosse algo que sempre estivera ali , esperando para ser feito . há limites , claro . quanto mais complexa a ordem , mais frágil o efeito . convencer alguém a entregar um copo de água era fácil . convencer um general a trair o rei ? bem , isso exige mais do que um aperto de mão . martina também precisa estar concentrada . emoções instáveis — como raiva ou medo — podem desestabilizar o poder — ou , pior , acioná-lo sem que ela perceba . foi assim que perdeu george . por isso , usa luvas o tempo todo . inicialmente , era uma exigência do pai , mas com o tempo virou hábito . as luvas bloqueiam completamente o efeito do poder .
ㅤ𓈀 ㅤ𝐭𝐫͟𝐢͟𝐯͟𝐢𝐚 ⠀𓂃 ⠀ em breve .













