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@duzaibrasil
Fêmea
A minha noite tem olhos de libélula,
audição de morcego,
boca e dentes de crocodilo,
olfato de elefante,
garras de leão
e pele de búfalo.
A minha noite é silenciosa como a girafa,
solitária como o leopardo
e fiel como a arara.
A minha noite se chama Maria,
mas não é mãe, nem avó, nem irmã, nem filha,
é fêmea, assim como a eternidade, assim como a morte,
fêmea de ninguém.
Nu
Despiu-se, finalmente, diante de mim,
de todas as ilusões,
dos projetos excêntricos,
dos sonhos irrealizáveis,
da casa,
do caos,
de nós.
Estava nu, enfim, diante de mim.
E nunca sua nudez fora tão completa,
e nunca seus olhos revelaram tanto.
Beijou-me como jamais beijara antes,
sentiu-me como jamais sentira antes,
amou-me como jamais amara antes.
Como nunca fora por mim beijado, sentido, amado.
Cântico dos Cânticos: Necromancia
Eu o avistei em minha varanda: meu amante.
Ó, suco leitoso direto do bulbo em minha boca: hul gil.
Estou banhada, sedada, serena e vigorosa.
Há horas me mantenho vigilante esperando a casa adormecer,
Agora meu sexo pulsa com a aproximação do meu amado.
Sim! Finalmente!
Não o esperarei bater à porta, meu adorável afrodisíaco, minha volúpia, meu caramanchão errante.
Entre! Sua presença é um orvalho que umedece meus lábios. Meus lábios — gotas da noite.
Ele me liberta de minhas roupas, e eu das suas.
Avança sobre meu corpo,
Acaricia as frestas de minha intimidade.
Estremeço e abro as portas de meu corpo para que penetre meus cômodos.
Sinto seu doce aroma além das aldravas de minha libido.
Sua respiração: Hálito lupino.
Minha alma desfalece.
Desperto.
Estou sonhando. O melhor de todos os sonhos: oásis da saudade.
Por Deus! Onde está meu amor?
Irei ao seu encontro.
Divago pela noite a sua procura, não o encontro;
Sou encontrada, meus olhos são vendados, Um lenço me amordaça, sou espancada, ferida, estuprada, abandonada.
“Oh, doce gazela, não somos nós melhores do que seu amado?”.
[…]
Teria eu sido desagradável ao meu amor?
Por que partiu?
Quem eram aqueles soldados?
Seriam eles seus enviados para fazer sua justiça contra minha insensatez?
Estou desgraçada! Para sempre desgraçada.
Meu noivo? Onde está meu adorável noivo? Logo, eu sei, estará desorientado a procurar por mim.
Serei descoberta e castigada.
Uma mulher de pouco juízo, uma vergonha, pecadora intocável.
Pele clara, face rosada, cabelos crespos,
Terá sido o ultimo após dez mil?
Canteiro de bálsamo, flores profanas, lírios gotejantes;
Anéis de ouro e berilos, dentes de marfim, boca de safira;
Colunas de mármore, líbanos, cedros;
Voz suave e sedutora, insaciedade, flama.
Ao meu amigo, ao meu amado, ao meu amante: o amor.