Parece absurdo que alguĂ©m possa sofrer num dia de cĂ©u azul, na beira do mar, numa festa, num bar. Parece exagero dizer que alguĂ©m que leve uma pancada na cabeça sofrerĂĄ menos do que alguĂ©m que for demitido. Onde estĂĄ o hematoma causado pelo desemprego, onde estĂĄ a cicatriz da fome, onde estĂĄ o gesso imobilizando a dor de um preconceito? Custamos a respeitar as dores invisĂveis, para as quais nĂŁo existem prontos-socorros. NĂŁo adianta assoprar que nĂŁo passa. Tenho um respeito tremendo por quem sofre em silĂȘncio, principalmente pelos que sofrem por amor. Perder a companhia de quem se ama pode ser uma mutilação tĂŁo sĂ©ria quanto a sofrida por Lars Grael, sĂł que os outros nĂŁo enxergam a parte que nos falta, e por isso tendem a menosprezar nosso martĂrio. O prĂłprio iatista terĂĄ sua dor emocional prolongada por algum tempo, diante da nova realidade que enfrenta. Nenhuma fisgada se compara Ă dor de um destino alterado para sempre.
Martha Medeiros (via entreversos)

















