Ethan gostaria de poder quebrar tudo à sua frente. Na noite anterior, havia tentado conversar com Joseph e tudo o que havia conseguido era a informação de que a causa da morte de Louise havia sido Lucy. Se ele o havia dito aquilo para encerrar uma discussão, havia conseguido, porque depois de ouvir aquilo, Joe se tornou insignificante para ele.
No caminho até Lucy, conseguiu pensar em centenas de formas de matá-la lenta e dolorosamente. Uma vez, alguém o havia dito que você sabia se era um sociopata com um teste simples: pense em coisas terríveis. Pense na pior coisa que você faria a alguém se não pudesse ser pego. Se você não sentir vergonha, culpa ou remorso pelos seus pensamentos, está feito. Você encontrou o seu sociopata interior.
Ethan tinha certeza que havia encontrado o dele.
Porém, não encostou um dedo em Lucy. Gritou, e fez com que ela sentisse dor psicológica, mas ainda precisava extravasar de alguma forma violenta. Então agora seria a vez de Joe. Ethan o traria de volta, ou o mataria. E era melhor que fosse a primeira opção, porque ele realmente estava disposto a apelar para a segunda.
Gritou para Lucy que o encontrasse na clareira em uma hora, e saiu, passando pelas casas de todo mundo que imaginou que pudessem participar daquilo e mandando que o encontrassem na clareira. Helena, Hannah, Jenna, Claire, John, Bryan, todo mundo.
Por fim, passou na casa de Joe e saiu o arrastando floresta adentro. Com a mão livre, girava uma adaga nos dedos. Quase se sentiu culpado por chamar tanta gente para assistir àquilo, mas havia adotado a filosofia Jepsen de vida: ele não ligava.
Chegou à clareira e viu todos desconfortáveis ali, sem entender direito o que estava acontecendo. Quando hesitaram, foi provavelmente ao ver a expressão maníaca no rosto de Ethan.
– Senta aí, rapaz. – disse empurrando Joe, que caiu sentado e abraçou as pernas da forma irritantemente infantil que sempre fazia agora.
– O que diabos estamos fazendo aqui? – perguntou Jenna.
– Assistindo um ritual de exorcismo. – Ethan disse sem nenhum fio de brincadeira na voz. – Hoje eu vou mostrar, senhoras e senhores, como fazer um homem ter suas emoções de volta.
Joe riu debochado, e a maioria dos presentes revirou os olhos e se remexeu desconfortável. Eles estavam tentando há dias, e parecia que ficava pior a cada tentativa.
– Boa piada, Ethan, mas eu tenho coisa melhor pra fazer. – disse Lucy com um tom meio irônico, meio ressentido.
– Nenhum passo, Smirnov. Nenhum de vocês. – Ethan avisou, o tom de ameaça em evidência na voz.
– Quem você pensa que é? – John perguntou.
– O Batman. – Ethan disse, cheio de humor negro. – Agora, Joseph, por que não me diz como se sente em relação a todo mundo aqui?
– Eu não gosto de vocês. – ele disse, e Ethan olhou para Helena, em busca de confirmação. Ela assentiu, indicando que ele falava a verdade.
– Resposta errada. – ele disse, enfiando a adaga na coxa de Joe. Ele olhou para a própria perna com uma expressão de dor, mas não reagiu mais do que isso. Sem agonia, sem desespero, sem raiva. Algumas pessoas presentes, no entanto, soltaram exclamações de surpresa.
– Quem diria, Donovan. – Joe disse com uma risada tentando tirar a adaga, mas sem sucesso.
– É, quem diria. Você não é mais o Joe, certo? Que bom. Porque eu enlouqueci, camarada, e não sou mais o Ethan também. – disse tirando uma segunda adaga do bolso do casaco.
– Eu já disse que odeio seu sotaque? – Joe perguntou.
Ethan teve uma súbita esperança, e olhou para Helena, que negou com a cabeça.
– Puta que te pariu! Será possível que você não é capaz nem de odiar? – Ethan perguntou, frustrado.
– É completamente possível. – Joe arrancou um pedaço de mato e colocou na boca, imitando um cigarro.
– Resposta. Errada. – Ethan disse pausadamente enfiando a outra adaga na outra coxa de Joseph.
– Ethan, pare... – disse Lucy.
– Sabe, Joe. – Ethan ignorou o pedido. – Você não tem reagido bem às torturas porque você sabe que ninguém aqui te faria mal de verdade. Mas adivinha? Você me deixou muito puto ontem, e eu to com uma puta vontade de usar violência. E sabe o que mais? Talvez eu tenha achado o sociopata dentro de mim, e talvez o psicopata, também. Porque eu to te vendo sangrar e não to sentindo um pingo de remorso. E só mais uma coisa: eu cansei de você. Se você não voltar hoje, amigo, eu vou matar você.
Helena deixou um pequeno som escapar, quando constou que ele não estava mentindo.
– Você não está pensando direito, mate. – disse Jenna dando dois passos para frente.
– Cala a porra da boca! – Ethan quase gritou com a voz esganiçada. – Eu to fazendo um favor a vocês. Um favor ao mundo.
– Você realmente soa como um psicopata. – Helena falou em tom de luto.
– Verdade, Helena? – ele perguntou. – Venha aqui. – chamou, indicando o seu lado com uma terceira adaga que ninguém havia visto de onde ele havia tirado.
– Aham, agora a sessão tortura vai ser com ela, né? To liberado? – Joe perguntou.
– Joseph, é melhor você calar a boca. – avisou Ethan. – Vou te dizer umas palavrinhas pra você se torturar quando melhorar. Ou quando estiver parado no tempo em seu próprio mundinho: você está estragando a vida de todo mundo. Você é um idiota, e todo mundo acha isso. Se você quisesse se livrar dos seus sentimentos, ótimo! Mas a partir do momento em que você começou a fazer mal, Joe, aí ninguém mais foi obrigado a te aceitar. Eu só estou fazendo aqui o que as pessoas ao seu redor têm vontade de fazer todos os dias desde que você voltou. Era melhor que você tivesse morrido por lá. Seria melhor do que voltar desse jeito. – desabafou, e até o ar em volta deles se tornou mais pesado.
– Olha, é isso o que pensam? Quem perguntou mesmo? – Joe perguntou e colocou a mão atrás da orelha, como se para ouvir melhor. – Foi o que eu pensei.
Ethan avançou até o homem e enfiou a terceira adaga entre duas costelas dele, fazendo com que Joe arfasse e olhasse para a adaga com uma sobra de choque no rosto.
Helena tocou em Ethan para puxá-lo para trás, e viu o plano que ele arquitetava na mente. Fez sinal para que ninguém se aproximasse. Hannah e Lucy, principalmente, já estavam a ponto de ir até Joe e ajudá-lo.
– Ethan, pare! – Helena gritou.
– Olha pra mim, Joe. – Ethan pediu, e Joe olhou. – O que eu vou fazer agora é inteiramente culpa sua. Espero que se lembre disso para o resto da sua vida.
E com isso, segurou o pescoço de Helena com as duas mãos e os virou. O estalo foi ouvido em toda a clareira, e Helena caiu no chão, morta. Jenna gritou. Os outros presentes estavam estáticos, em choque.
Joe arfou e arregalou os olhos, se arrastando da forma que podia com as três adagas enfiadas nele.
– Sente essa dor? – Ethan começou. – Sua melhor amiga está morta, por culpa minha. Eu a matei. Consegue sentir o ódio crescendo aí? A culpa, por ter sido tudo por causa de você? Consegue sentir? – Ethan gritou a última parte.
– Helena... – Joe respirou com dificuldade, tomando a cabeça da amiga no colo e colocando as mãos no pescoço e pulso da mulher, procurando algum sinal de vida. Não encontrou.
– Consegue sentir o desespero? Tá sentindo a agonia, Joseph? Você perdeu ela mais uma vez. Não foi bom o suficiente. O que está sentindo? – gritou.
– Helena... – Joe murmurou novamente, deitando a própria cabeça na testa da amiga, afagando-lhe o cabelo. Ethan viu lágrimas escorrerem dos olhos de Joe.
– Agora Joe, olhe para mim. – Ethan pediu em um tom afetuoso, totalmente diferente dos outros tons que usara. – Sente esse alívio ao ver que as adagas nunca estiveram aí? – Joe olhou, e as adagas haviam desaparecido, junto com o sangue. – Se sente feliz ao ver que sua melhor amiga está viva? – Helena abriu os olhos lentamente, e Joe sentiu a pulsação dela sob seus dedos. – Ou sente raiva porque tudo isso foi uma ilusão que eu criei? – perguntou com uma sombra de sorriso querendo aparecer.
Joe olhou para ele sem entender, e Helena o abraçou.
– Se sente melhor agora? – Helena murmurou.
– Eu... sinto. – ele disse.
– Eu também sinto. – Ethan disse. – Não sabia que podia usar meus poderes com tantas pessoas ao mesmo tempo, e caralho, isso de sociopata me fez bem. Sabia que acharia uma forma de usar violência sem machucar alguém de verdade. Então de nada.
– Obrigado. – Joe disse, ainda se sentindo perdido.
– Obrigado é o caralho, seu filho da puta. Você deve desculpas, ou melhor, perdão pra todo mundo aqui. Você merece tomar no seu cu bem forte, e se foder bastante também. – Ethan disse se virando para ir embora. – E antes que eu me esqueça, é bom que apareça lá em casa hoje se não quiser ser esfaqueado de verdade.
Joe abraçou Helena mais uma vez e se levantou, olhando para as pessoas em volta. Tinha tanto a fazer.
Pela primeira vez em toda sua vida, não se importou em estar chorando na frente dos outros. As lágrimas que caíam eram, agora, de alegria. Ele estava de volta. E sabia que não seria fácil, mas prometeu a si mesmo que consertaria as coisas.
E, principalmente, nunca mais seria um idiota tão grande.