Fui criada num lar cristão conservador, com cansativas e, quase sempre, desnecessárias regras de "controle" para um bom comportamento.
Acho que a primeira vez que minha mãe, escondida, cortou as pontas do meu cabelo eu já tinha uns 11 anos. Minhas amigas tinham suas mechas coloridas com papel crepom e era tudo o que eu queria.
Festa? Não. Matinê? Não. Aniversários de 15 anos com pista de dança? Não. Cinema? Não. Não. Não.
O detalhe que uma criação nesses termos ignora é que, quando inevitavelmente nos afastamos dela, ainda existe em nós o desejo por todas as coisas que foram negadas.
Fiz mecha verde no cabelo com 26 anos, e pouco antes disso cortei o mais curto que tive coragem.
Tive ressaca, em casa mesmo. Fumei um cigarro de ervas chamado kumbaya também.
E ontem estive num show com 50 mil pessoas, onde a faixa etária média devia ser 18 anos.
Fica um débito do que não fizemos porque nos impediram. O tempo passa, mas damos um jeitinho de pagar essa conta, mesmo que pareça ~fora de hora~.
A essência de criança travessa sempre resiste, só deixamos guardada. De vez enquanto, abrimos essa gavetinha emocional pra fazer alguma coisa que "não deveríamos".
Porque não dá pra fugir de quem somos.















