O outro lado do Paraíso
São Paulo, a maior metrópole do país, consegue alcançar também o topo de um ranking pouco concorrido: abriga o maior número de moradores de favelas ou assentamentos irregulares no Brasil. A marginalização e a associação dos moradores à violência representam uma visão distorcida de um problema maior.
Elas são chamadas de favelas. Em outros lugares: periferia. Há quem goste de chamar de mocambos, morro, quebrada, vilas, baixadas, comunidades ou grotas. E independente do nome que estampam as manchetes, o fim é o mesmo.
São cerca de 84% dos moradores das favelas que admitem sofrer preconceito por sua condição social e apenas 64% dos entrevistados ressaltam que a mídia retrata a periferia de forma negativa, segundo pesquisa realizada pelo Data Favela.
A pesquisa vai além ao tentar alcançar a idade média dos moradores: 29,1 anos de idade - abaixo da média de idade da população brasileira. Um reflexo explícito da luta pela sobrevivência na periferia.
A violência, guerra às drogas e a falta de saneamento básico são os principais fatores que podem justificar essa estatística. A procura pela solução se torna ainda mais difícil quando comparada ao tamanho dos problemas.
Os gráficos feitos pelo portal Terra na reportagem “As favelas brasileiras” introduzem estatísticas divulgadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Com eles, é possível visualizar melhor a porcentagem de favelas documentadas em cada região, suas proporções, tamanho e concentração.
O estado de São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia estão a frente, respectivamente.
Em relação à proporção da população nas favelas, São Paulo está em 10º lugar dentre as maiores regiões do Brasil - mesmo tendo o maior número de pessoas e casas.
Apenas 30,5% das favelas paulistanas têm mais de mil moradias.
A maior favela de São Paulo, Paraisópolis, se estabelece em 8º lugar no gráfico.
Colecionar feridas no corpo e na mente por morar num campo de guerra interfere no desenvolvimento de qualquer um. A infância compete diretamente entre correr atrás de uma pipa e de um tiro. Este sentimento de perseguição foi registrado em diferentes zonas de São Paulo.
O pouco contato à cultura não é um dos tópicos mais comentados dentre os entrevistados da favela Pantanal, na zona sul de São Paulo. A preocupação é maior quanto ao sufoco causado pelo difícil acesso à escolas e fonte de energia regular. O maior medo do Samuel, de onze anos, é “ficar sem luz pela terceira vez no ano”.
Por estarem entre becos e vielas, alguns serviços comuns não podem ser feitos ou têm muita dificuldade em serem realizados, como entrega de cartas, recolhimento de lixo e manutenção de fios elétricos.
Segue o percentual de domicílios adequados nas favelas e similares do país, por tipo de serviço:
Forma de abastecimento de água: 88,3% Tipo de esgotamento sanitário: 67,3% Destino do lixo: 95,4% Energia elétrica: 72,5%
Fonte: IBGE/G1
Quinze dos trinta entrevistados concordaram com Samuel ao revelar preocupações com a fiação da energia elétrica, enquanto seis optaram por escolher o destino do lixo como tormenta.
Em compensação, nove pessoas questionam a forma de abastecimento de água e todos concordam com a falta de espaços de lazer.
Um grupo de crianças da favela Pombal, em Diadema, que caminham todo fim de semana para bairros nobres do município para brincar.
Três das quatro crianças entrevistadas apontaram que a quantidade de lixo e a pouca área livre são os principais motivos para se deslocarem até o bairro Portinari. Elas afirmam, inclusive, que os moradores já se “acostumaram com a presença deles” e “nem olham mais torto como antes”.
Uma caçamba de lixo tornou-se o verdadeiro destino do lixo da favela Pombal
Levantando esse debate à tona em sala de aula, o professor arquiteto-urbanista Francisco Luiz Scagliuse questiona a moral da predestinação e o abandono de prédios no estado.
As invasões, que são constantemente relacionadas aos moradores das favelas na mídia, são, por ora, a única solução que eles enxergam.
Enxergar-se como um cidadão, em seu mais profundo significado, é integrar-se a sociedade em uma postura superior a imagem inferiorizada que criou-se ao longo dos anos. Sentir-se parte da sociedade é conquistar o direito de cobrar pelo o que deve ser cobrado e cumprir o que deve ser feito.
Ou seja, exercer seus direitos e desempenhar seus deveres.
No Rio de Janeiro, o Carteiro Amigo, empresa que surgiu na Rocinha e hoje atua em favelas, na sua maioria, pacificadas distribui contas e correspondências a cidadãos que para o Estado não têm endereço.
Pagando mensalmente $10 pelo serviço, as famílias enxergam o negócio como uma solução para um problema antigo: o envio e entrega de cartas. Apesar de não ser o maior dentre os diversos problemas apontados, preocupar-se com impedimentos mínimos e extremos é rotina.
“Se é difícil investir em casas para quem não tem casa, imagina produzir para todos que moram nas favelas?”, questiona Francisco.
Apesar de não ser um processo fácil, existem formas de regularizar as moradias em questão, como observa o coordenador auxiliar do Núcleo de Habitação e Urbanismo da Defensoria Pública do Estado de São Paulo - Rafael de Paula Faber.
O processo de urbanizar as favelas, para implementação de infra-estrutura, é possível, mas não é visto como prioridade para o Estado.
Sentado na cadeira no fundo do cômodo do seu quarto Bernardo, de dezoito anos, permanece inquieto ao longo da nossa conversa. Seu olhar é expressivo e aparenta falar mais do que sua própria boca.
A parede, com alguns pôsteres de grupos de rap próximos ao teto, não passou pelo acabamento necessário. Ele não estuda, nem trabalha e constantemente acredita que dificilmente vai conseguir atingir seus objetivos.
Sua insegurança e indisposição difere das letras das bandas que ele tanto gosta e escuta: a pregação de orgulho e amor próprio não parece se encaixar na sua vida.
“(...) Não era difícil morar na favela, eu cresci aqui e isso nunca foi um problema quando eu era criança. Quando somos crianças, não olhamos em volta. Somente quando começamos a crescer que é possível enxergar e reparar nos olhares em você... O tempo inteiro”
O protesto ao preconceito que sofre encaixava-se como uma armadura para Bernardo. Mas, a insistência em procurar justificativas que se encaixavam na julgamento do tribunal da vida caía como um escudo.
“Talvez seja pela minha roupa, pelo meu jeito. A forma como eu me comporto, sabe? Não gosto de chamar atenção, mas eu sabia como chamar: era só falar que eu morava na favela do Pery!”
Sua identidade de gênero competia com sua condição social ao longo da sua infância. Identificar-se como homem e morar numa favela que não havia sido pacificada causou receio e construiu sua personalidade introvertida.
A favela Pery Alto, da zona norte do estado de São Paulo, acumula becos estreitos e vielas perigosas que dificultava o seu caminho até a escola, ainda mais por estudar no turno da noite.
As ofensas diárias, o medo progressivo e as doses de transfobia em sala de aula o fizeram abandonar o segundo ano letivo durante sua transição hormonal.
“Os traficantes tomam conta daqui. Eles sabem quem mora e quem não mora na favela. Mas, o medo é constante.”
A mãe de Bernardo, Sirlene, se mantém o tempo todo escorada na porta da cozinha, com a cabeça inquieta, cambaleando em uma notória expressão de concordância a cada frase dita pelo filho.
“(...) Agora, com minha irmã trabalhando, conseguimos arrumar um pouco a casa. Mas antes, em frente a porta de entrada, todo nosso esgoto acumulava. Não trazia ninguém aqui, eu morria de vergonha!
Como você pode ver, ainda há o que fazer: várias noites acordamos assustados com o forro do teto caindo, fazendo com que os gatos saiam correndo. E a pintura, não tenho nem o que falar. Não consigo nem distinguir mais que cor é essa.”
Ao ser questionado quanto a saúde e educação, ele é ainda mais conciso:
“Temos um posto de saúde aqui perto, mas é na “borda” da favela. Já escola, só no outro bairro. E se não tiver vaga, só no outro, e no outro...”
O cheiro do café quente e do bolo de fubá abafava o cheiro de esgoto a céu aberto. E o amor entre mãe e filho disfarçava o maremoto de dificuldades que ainda existiam.
Agradecimento: Comunidades Pery, Pombal e Pantanal. Professor Francisco Scagliusi, Núcleo de Habitação e Urbanismo da Defensoria Pública do Estado de São Paulo e Centro Gaspar Garcia. Samuel, Bernardo e todos os entrevistados que aceitaram participar deste projeto. Nossos professores Alex Criado, Bernardete Tonedo, Charles, Eleni e Nicolau.
Muito obrigado!










