Aquela noite, no bar de Amundsen, um sujeito tinha passado de uma mesa para outra de modo a chamar a atenção.
As mesas estavam bem distantes, ninguém duvidava. E separadas ainda por uma barricada de cadeiras, louças, mulheres-da-vida e homens que fumavam - resíduos do dia na madrugada dos bares.
Pois, certa hora, o tal sujeito se ergueu muito suavemente, passou por cima das cabeças, quase tocou na careca do gerente, e foi pousar na mesa do fundo. De lá, um tanto pálido mas calmo, reclamou o seu chope. Um vôo incontestável.
Mas ninguém podia admitir a possibilidade de qualquer anjo naquele bar. Houve certa inquietação entre os fregueses. O gerente errou o troco na máquina registradora. Uma mulher sentiu falta de ar e foi abanada.
Daí por diante, produziu-se completo silêncio. Ninguém tirava os olhos do sujeito. Uma onda que vinha vindo do fundo escuro da baía se quebrou perto da janela.
Alguns minutos depois - o homem deu um jeito na gravata, levantou-se e mergulhou na noite, sem pagar a conta. E o bar voltou a funcionar normalmente.