o cenário: fim de tarde; a laje cinzenta de um prédio cinzento de uma capital.
atenção aos detalhes: em um dos cantos um balde - virado de cabeça para baixo - de cloro - por que há um balde de cloro se não há nenhuma piscina? - sujo pela poluição e a exposição à chuva e ao sol sem. qualquer. dó. uma mesa de madeira velha embolorada encostada a uma das paredes baixas e em cima dela o bolor se mistura com as plantas nos vasinhos marrons de barro e sabe-se Deus lá como elas permanecem vivas, mas as plantinhas - majoritariamente mato, ervas daninhas - permanecem. vivas. cada um dos quatro cantos da laje tem bolor e musgo. preto. as cinzas da cidade não perdoaram nem mesmo o musgo.
um homem sentado na mureta da laje olhando para baixo contempla a rua: cinza. o asfalto judiado e marcado que se assemelha à sua pele em tudo menos na cor. pisado, rodado, gasto, esburacado, o asfalto e o homem foram usados como trajetória, projetados e acreditados e tomados como trajetória. ele observa a rua com os olhos secos fixos no chão e inconscientemente se pergunta o motivo de ser tão movido pela distância da laje ao chão.
ao seu lado, encostada na mureta sem medo, sem nada, com os olhos vazios e um cigarro na mão esquerda, uma mulher com o cabelo preso ao topo da cabeça em um formato sem sentido traga. ela traga e à medida que seu cigarro queima ela queima também. a mulher joga a cabeça para trás e expira a fumaça como se risse de algo extremamente engraçado que o cigarro lhe contara, mas o cigarro nada diz. nada. sua risada ecoa sem som, apenas como fumaça, pelo ar, em direção ao céu de tons alaranjados. as nuvens cinzas carregam o laranja do lusco-fusco e o refletem de maneira sombria no rosto da mulher.
com as pernas para o lado da rua o homem balança seus pés - menores do que a média - como se brincasse em um alto balanço. o suor escorre por sua testa, têmpora, bochecha, maxilar, pinga pelo pescoço, torso e se esconde do fim de tarde permitindo que anoiteça mais cedo por dentro da calça jeans larga azul claro. ele balança seus pés e esboça um sorriso em sua mente, mas seus músculos não respondem da mesma forma e seu cenho se franze. o homem está melancolicamente feliz. profundamente melancólico. profundamente satisfeito. profundamente exausto.
a mulher, por sua vez, gira sua cabeça de um lado para o outro soltando todo o ar dos pulmões. um, dois, três, quatro segundos até dez e a cabeça volta à posição inicial. um, dois, três, quatro segundos e até dez para o lado oposto. seus olhos vazios marejados captam as cores em tons de sépia e cinza que a cerca. o filtro do cigarro: vermelho. seus olhos: castanhos. inconscientemente se pergunta o motivo de ser tão movida pela distância da laje ao céu.
o homem respira fora do compasso e chama a atenção da mulher como se houvesse quebrado um pacto silencioso que clamava por silêncio e por um segundo, um segundo apenas - um breve segundo - seus olhares se cruzam e ela sente. sente algo. há algo entre os dois? houve algo entre os dois? ela ainda pode sentir o cheiro de suor em seu corpo, o cheiro de desejo vindo dele, o cheiro de troca de toque entre os dois, mas as distâncias não se movem, não os move. ela deixa sua boca abrir por um instante quando ele desvia o olhar para seu sutiã preto. um sorriso quase se esboça nos lábios dela, mas ela se recorda: ele sente. ele sente profundamente. ele a olha nos olhos mais uma vez, mas seu olhar voltara aos céus como se estivesse sozinha. e o dele a atravessa como se ela nunca houvesse estado ali.
ela puxa a fumaça do cigarro e solta toda em direção ao rosto do homem que nem ao menos pisca. ele nem ao menos pisca. desinteressado por completo em aparência. inabalável como o asfalto da rua lá embaixo.
se estendesse a mão ele a beijaria sem questionar e trilharia um caminho pela pele macia até seus lábios até que voltassem a fazer o que faziam instantes antes. se estendesse a mão ele abriria seu corpo e seu peito e diria com seu olhar: me caminhe pra trilhar o teu caminho. se estendesse a mão ela reviraria os olhos e jogaria o cigarro no chão da laje junto ao cemitério de bitucas que se formara em volta de si. os olhos dele voltam ao asfalto. os olhos dela voltam a si mesma. há quanto tempo eles estavam ali naquela laje? por quanto tempo mais ficariam ali? se até mesmo o sol havia se cansado como era possível que eles mesmos permaneciam imóveis, irredutíveis, compactuando com sua própria existência condenada? mais um cigarro.
o som do bic não os tira de seus focos, ele faz parte do pacto. e se... e se ela ateasse fogo a si própria naquele exato instante será que por misericórdia divina ela brilharia tão forte quanto o sol brilhava? a chama do bic se apaga e apenas o cigarro permanece aceso. a primeira estrela da noite brilha no céu como quem diz: é chegada a hora. o tempo de um cigarro é o bastante para que seus olhos se acostumem com a iluminação noturna e as feições de ambos se modifique. a noite muda a rotina, a noite muda o pacto. ele não é mencionado, ele não é recapitulado. os olhos do homem sobem ao céu e os da mulher descem ao asfalto e por um breve instante eles compreendem. compreendem. um ao outro. e isso é o bastante para que compreendam o porquê de continuarem rendidos à suas existências como quem abaixa a cabeça e aceita o destino que lhe é imposto.
eles não fazem amor, eles fazem o mesmo. repetem o mesmo pacto noite após noite e dia após dia. talvez algum dia o cemitério de bitucas a engula por inteira. talvez alguma noite o asfalto o chame para dançar.
as existências se espelham e se repetem.
o cenário: meio dia; alpendre de madeira de uma casa de campo no interior.
um homem debruçado na estrutura de madeira observa o horizonte com um copo de aguardente nas mãos.
ao seu lado, sentada no chão, uma mulher observa as formigas andando em fila como operárias em direção ao formigueiro.
as existências se repetem.