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@generoetecnico
Verdadeiro
Ou falso
Venho a vida inteira
Pensando nesse causo
Vai-se em sonhos
Minhas fantasias
Vi indo com elas
As alegrias (?)
Vermes da lógica,
Hoje fiz-me livre desses
Vorazes quanto sejam
Não me devorarão mais vezes
Finamente concluo-me
Felicidade é apenas uma vaidade
Não faço mais expectativas
Não faço mais futuro
Vivo o presente em verdade
Contente, indeciso, efêmero
Deveria ser diferente?
Ser estagiária de enfermagem é ir aprendendo a entender e cuidar do corpo humano cada vez mais, mas, mesmo assim, ser menosprezada por acharem que não tenho base científica no que faço ou falo.
Ser estagiária de enfermagem é ser obrigada a dar amor e carinho o tempo todo, quando, na verdade, só se lida com sofrimento. Além disso, a cada novo paciente é uma nova forma de amadurecimento emocional e, com isso, um novo sofrimento.
Ser estagiária de enfermagem é ser comparada a uma "aprendiz de medicina" ou então ser diminuída a um "dom de nascimento" quando, na verdade, eu estudo muito para estar ali e dar o meu melhor o tempo todo.
Ser estagiária de enfermagem é me sentir como um grão de areia, frente a tantas dificuldades que se encontra ao lidar com diferentes realidades.
Ser estagiária de enfermagem é aprender a lidar com o indivíduo integral e não só com a doença que ele tem.
Ser estagiária de enfermagem é saber ouvir, parar para refletir, pensar antes de falar, esconder a sua dor, não demonstrar a sua raiva, desenvolver bons momentos nos outros que estão no fundo do poço.
Para ser estagiária de enfermagem é preciso ter EMPATIA.
Meu orgulho
Quando decidi prestar o curso de enfermagem nos vestibulares, eu já estava ciente de todas as dificuldades que iria enfrentar. Além de ser uma profissão vista como caridade e não como uma ciência, é uma profissão alvo de sexismo e machismo.
Aos 15 anos, entrei no curso técnico de enfermagem e não sabia com o que ia ter que conviver. A princípio, apenas pensava em jaleco, roupas brancas e, quem sabe, seguir com o curso de medicina como graduação. Afinal, como dizia minha família, o que é o curso de enfermagem comparado à medicina?
Aos 16, já havia começado o estágio no Hospital das Clínicas na Unicamp e foi assim que caiu a ficha. Não pensava que já enfrentaria assédio de um cara de mais de 30 anos ou escutaria vários comentários até dentro da equipe de enfermagem que a enfermagem é própria das mulheres, vindo à tona um sentimento de vergonha e fraqueza. Toda a ilusão de que trabalhar na área da saúde é lindo com suas roupas brancas foi quebrada e já nem sabia o que seguir como carreira, ao invés da fascinação surgiu o receio. Eu estava perdida, ser alvo constante de preconceito por ser do sexo feminino e uma estagiária da equipe de enfermagem me deixou desanimada com o curso.
Mas hoje, com 17 anos, a admiração por enfermagem chegou em peso. Tenho orgulho ao ver o empoderamento surgindo na equipe ao mostrar cada vez mais que é necessário ter estudo e conhecimento para trabalhar na área, não apenas ser uma mulher caridosa com bom coração, como a grande mídia mostra. Não aceito mais assédio dentro e fora do ambiente de trabalho e vejo a grande importância de se valorizar para os outros poderem te ver com o mesmo olhar. Hoje tenho orgulho ao assumir que meu sonho é ser uma enfermeira.
10 verdades sobre a Enfermagem:
1. Não é um dom
2. Não é só dar banho
3. Não é tipo Medicina
4. Não é só pra menina
5. Não é pra ser sexualizado
6. Não é estudar pouco
7. Não é doar amor e carinho
8. Não é a arte de cuidar
9. Não é quem tem menos conhecimento
10. É 70% dos funcionários de um hospital
Minha experiência com o curso técnico de informática no Cotuca é caótica. 22 de dezembro do ano de 2014 e recebo uma das notícias mais empolgantes da minha vida, passei no Vestibulinho de um dos colégios mais aclamados de Campinas, fui o prodígio da família. Até hoje, dona Andréia enche o peito de orgulho e diz: “Meu filho estuda no Cotuca, ele é muito inteligente”. A felicidade durou pouco, o prodígio desapareceu e tudo que resta é frustração.
Fevereiro de 2015, as aulas começaram e eu estava muito nervoso, pois não tinha o hábito de trocar de escola, havia passado apenas por duas, sendo que a classe foi a mesma em ambas. Conhecer pessoas novas e ter aula em período integral era tudo novidade. As primeiras semanas foram passando e a rotina era difícil. Acordar seis da manhã e chegar em casa oito da noite depois de quatro ônibus era exaustivo. É preciso estudar ao menos 2 horas por dia, mas, naquele tempo, não sabia onde encontrá-las. “O que você faz entre 23:00 e 6:00? ”, “você deve se esforçar senão não passa em técnicas de programação” e “cuidado com matemática” eram frases frequentes ditas por veteranos, mesmo assim, reprovei ambas as matérias e esse foi apenas o começo do fim.
Ano de 2016 e, dessa vez, será mais fácil. Por causa das reprovações, tenho tempo livre, vou me organizar melhor e conseguirei dar um jeito. Mesmo depois de insistir em sair, dizer que estava enlouquecendo, dona Andréia dizia: “é melhor para seu futuro, não importa que você não gosta, vai para o currículo”, mas quem era eu para questionar, deixar de ser o orgulho que estuda no famoso Cotuca seria demais. Não foi.
Cheguei em 2017 totalmente sem rumo. Comecei a não ir às aulas do técnico, comecei a desleixar em matemática. Não gosto do meu curso, odeio informática, é impossível ser aprovado pelo Maligno (para um professor receber esse apelido não é por pouca coisa) e deixar de frequentar as aulas. Tudo faz parte do caos que eu causei. Caso se eu tivesse saído em 2015, será que teria me poupado de tudo isso?
Quando eu entrei no Cotuca, não fazia ideia do que ia ser do meu futuro. Agora, já no terceiro ano, poso dizer, com certeza, que eu estava mais decidida naquela época do que adora. Pois, antes, o meu problema era gostar e ir bem em todas as matérias. Enquanto, agora, eu não consigo pensar em uma coisa que eu goste. E não apenas em matérias, mas esse//////// período no Cotuca me fez perceber muitas cosias erradas com a sociedade e com o sistema educacional principalmente. Apesar de reconhecer que o Cotua ainda representa uma bolha na sociedade, é uma bolha bem maior do que a que eu me encontrava antes.
Minha infância foi incrível. Se eu tivesse que escolher uma coisa que poderia ter sido melhor, eu ficaria sem palavras. Quando fui escolher meu curso, não pensei em nenhum momento que meu gênero me limitaria de qualquer forma. No Cotuca, descobri que realmente não limita, mas que muitas pessoas (um número absurdo delas) pensam que sim. Nunca pensei que o fato de eu nunca ter gostado de ninguém romanticamente (e provavelmente nunca irei) fosse fazer eu me sentir tão diferente de todo mundo. No Cotuca, eu me senti assim frequentemente. Mas foi lá também que eu descobri que não existe essa coisa de “todo mundo” porque cada um é diferente.
No final das contas, eu não saberia dizer se o ensino técnico fez alguma diferença na minha vida. O que eu sei é que eu não fiquei satisfeita com o curso. Mas se é pela matéria em si, ou pela incompetência de muitos dos professores, eu não sei. E, sabendo das semelhanças entre os sistemas das universidades com esse que estou presenciando há três anos, sei que não estou com tanta pressa de entrar na faculdade.
Apesar de ter descoberto muita coisa ruim, esses são todos conhecimentos que eu não me arrependo de ter adquirido. É necessário perceber o que está errado para consegui lutar para melhorar. E, além disso, também aprendi muitas coisas que tornam a minha vida mais feliz, e conheci muitas pessoas que eu não me arrependo de ter conhecido (a maioria). E, por esses motivos, se alguém me perguntasse hoje o que poderia ter sido melhor nessa experiência, eu ainda estaria sem palavras.
A lamparina do século XXI
Depois de 28 disciplinas, enfim, o último semestre chega. São horas de dedicação divididas entre o ensino médio e o técnico (esse último em especial pela demanda do curso que exige de fato um conhecimento adequado, uma vez que erros não devem acontecer). A enfermagem originalmente foi feita por mulheres (talvez a isso possamos atribuir a pouca valorização nos dias de hoje), porém é complicado entender por que, mesmo tantos séculos depois, a sua imagem ainda é inferior a do médico. Nos dizem que somos inferiores desde a etapa teórica do curso. Por diversas vezes, já ouvimos frases como "enfermagem é fácil", "eles facilitam para vocês", etc. É como se constantemente precisamos provar que não, que estamos ali e nos esforçamos tanto quanto qualquer um. Já na fase do estágio, passamos de curso fácil a curso que limpa pessoas, como se nossa única função fosse essa. Além disso, há também a discriminação dos próprios pacientes pela profissão. Alguns agem como se, por sermos enfermeiras, tivéssemos menos conhecimento que o médico (inclusive nos subestimam em procedimentos que são exclusivos nossos). Já ouvimos frases como "mas você não vai fazer só o técnico né? Vai fazer medicina né?". Acredito que, se lutarmos por uma sociedade mais justa, esse sentimento deve pairar sobre nós. Não basta desejar algo assim se dentro de cada um não ocorrerem mudanças. Temos valores arraigados que já não se adequam ao contexto atual. As mulheres conquistam cada vez mais espaço social, mas por que foi preciso conquistá-lo? O que nos torna diferentes dos homens? Em especial a enfermagem, é preciso compreender que é uma profissão de suma importância para o funcionamento de um hospital, 70% dele é formado por nós, termos funções e atribuições que complementam várias outras profissões, mas a nossa é a enfermagem e isso não deve ser esquecido.
Se você me perguntasse há dois nãos e meio atrás o que eu acho do meu curso técnico em informática, eu simplesmente daria de ombros e diria algo como “Ah, sei lá. Por enquanto estou gostando”. Hoje, no meu último semestre do curso, se você me fizesse essa mesma pergunta, a resposta seria algo como “Por favor, me tire daqui! Eu imploro!”. E eu provavelmente começaria a chorar horrores, ficaria toda encarratada e você teria que ficar umas duas horas me ouvindos reclamar sobre minhas triste, sem graça e estressante vida no ensino médio. Eu consegui chegar aqui sem pegar uma única DP ou REC (um mistério que provavelmente nem Sherlock Holmes conseguiria resolver) e, mesmo com as toneladas de conteúdos técnicos que tive, os ensinamentos que mais me marcaram foram aquelas que não se encontram em um livro didático. Vou ser uma pessoa legal e citá-los pra você.
ENSINAMENTO NÚMERO 1:
NUNCA vá mal na prova de um professor sensível e sentimentalista, pode ser que ele comece a beber por sua causa.
ENSINAMENTO NÚMERO 2:
Ser mulher faz com que eu automaticamente não tenha capacidade de fazer softwares complexos. (OBS.: Sim, um professor me disse exatamente isso).
ENSINAMENTO NÚMERO 3:
Ser graduado te torna automaticamente o deus da sabedoria. Você pode fazer o que quiser, como passar projetos dificílimos sem ter explicado nada sobre eles, e discursar durante duas aulas inteiras sobre um assunto que vocês sequer tem conhecimento.
ENSINAMENTO NÚMERO 4:
Ir ao banheiro, ou ir buscar folha sulfite, pode ser uma forma sutil de dizer “não estou afim de dar aulas. Se tiverem alguma dúvida, se virem, porque eu provavelmente não sei resolver e, se precisarem de algo urgente, estarei na salinha ao lado comendo um bolinho”.
ENSINAMENTO NÚMERO 5:
Se a sua aula começa às 7h30, fique tranquilo, o seu professor só chegará às 9h10.
ENSINAMENTO NÚMERO 6:
Ser monitor é sinônimo de ser escravo. Você provavelmente terá que explicar para a sala inteira a matéria porque o seu professor (aquele do ensinamento número 3) NÃO vai explicar direito.
Ok. É bem visível que o técnico não foi exatamente agradável para mim (a palavra correta seria HORRÍVEL), mas as pessoas com as quais convivi e fiz amizades fizeram todo esse período de tortura e sofrimento valer a pena. Posso sair do técnico sem saber acender um LED, sem saber programar uma matriz esparsa ou sem lembrar nada regras de negócio, mas tenho certeza que levarei para sempre as lembranças das pessoas incríveis que conheci e as amizades maravilhosas que conquistei.
Desabafos de um (talvez) futuro técnico de informática
Lá estava eu, mais uma vez, de frente para o espelho, trancado no banheiro, encarando meu reflexo. Gostaria que fosse tão simples quanto apenas observar, mas a cada centímetro de pele que meus olhos focavam, um sentimento de dor e angústia aflorava em meu peito. As lágrimas já estavam secas em minha face, mas a sensação era de que elas ainda escorriam. A única pergunta que eu me fazia naquele momento era “por quê?” e por mais que tentasse encontrar a resposta, eu só conseguia pensar na solução: a cartela de analgésicos em cima da pia.
Já havia um semestre que eu estava cursando o ensino médio e técnico em informática e desde o primeiro dia de aula sabia que algo estava errado. Ali não era meu lugar, ali eu não tinha amigos, ali eu não tinha mais vida social ou, no mínimo, uma vida saudável. Nada naquela escola me fazia bem e não havia nada que pudesse ser um bom motivo para continuar lá. Mas agora você deve estar me achando um idiota, tentando descobrir por que eu ainda continuava nesse ambiente tão hostil para mim. Simples, eu ainda tinha uma pequena esperança de que isso mudasse.
Quando eu entrei nesse colégio, eu já havia feito minha escolha. Eu sabia que não teria volta: era continuar na minha antiga escola ou tentar essa nova, sem chances de voltar atrás. Na busca por novos ares, um recomeço, achei que seria ótimo mudar, embora estivesse um pouco nervoso para isso. E esse nervosismo foi crescendo dentro de mim, a ponto de me fazer querer desistir pouco antes da mudança. Mas não foi tão fácil, ainda tinha toda a pressão familiar me dizendo que era “uma oportunidade única na minha vida, algo que poderia me ajudar na escolha da minha carreira e que, caso desse tudo errado, pelo menos eu teria um diploma técnico como plano B”. Resolvi ceder. Meu lado racional me dizia que era o melhor a se fazer, por outro lado, eu sabia que meu emocional ficaria arrasado. Mesmo assim, lá fui eu, dar a cara à tapa para essa nova fase da minha vida.
No momento em que pisei pela primeira vez no laboratório de informática, o arrependimento veio como um soco em meu estômago. Mais uma vez, a ansiedade batia em minha porta. “Por que informática? Deveria ter ido para Enfermagem como eu queria ter feito desde o começo”, pensei. Mas eu já sabia a resposta para essa pergunta. Eu tinha medo. Medo de que pensassem que eu era feminino demais, porque Enfermagem é um curso para garotas, e que isso significasse que eu gostava de garotos do mesmo modo que a maioria das garotas. Eu não queria que essa fosse a primeira impressão que as pessoas teriam de mim, embora esses fatos sejam reais. Eu vinha já há algum tempo lutando contra minha sexualidade, receava ser diminuído apenas a ela, tinha muito mais a oferecer do que isso. No fim, eu mudei de escola na tentativa de poder recomeçar e ser eu mesmo, mas, graças ao medo, tudo que fiz foi me sufocar mais ainda em minha máscara.
Além disso, ainda estava sufocado em todas as minhas tarefas e obrigações como aluno. Não bastasse ter que passar o dia inteiro na escola, tive que aguentar professores que se achavam mais importantes que todos os outros e se viam no direito de cobrar dos alunos mais do que eles poderiam aguentar. Tive que aguentar professores que gostavam de se gabar pela sua formação e que por isso sentiam que podiam dizer ou fazer qualquer coisa, mesmo que fosse algo totalmente preconceituoso, cruel ou antiético. Tive que aguentar comentários machistas, homofóbicos ou puramente maldosos. Mesmo assim, segui firme. Nunca tive muitos problemas com notas ou faltas. Nunca fiquei reprovei uma matéria, muito menos fiquei de recuperação. Ao contrário, sempre me destaquei no técnico. Mas isso me fazia questionar “A que preço fiz tudo isso?”. Eu sabia que estava priorizando mais minha vida escolar do que minha saúde mental, e isso só se comprovava em situações como essa do espelho, uma cena frequente no meu dia-a-dia.
Em alguns dias, eu chegava a ultrapassar o mero observar de meu reflexo. Dias que não gosto nem de lembrar, dias que ainda me fazem mal. Mas, com o tempo, minha convivência naquele inferno (lê-se colégio), foi melhorando. Eu consegui, aos poucos, ser mais verdadeiro, fazer amizades, tornando o meu fardo cada dia menor. E, hoje, finalmente cheguei ao final de meu terceiro ano, fato quase inacreditável para o meu eu de dois anos atrás, algo que agradeço muito às amizades que fiz e às pessoas que conheci, que me fizeram crescer e amadurecer como indivíduo.
Infelizmente, isso não foi suficiente para acabar com as minhas crises. Embora eu tenha sido um ótimo aluno no técnico, inclusive sou monitor do mesmo há dois anos, ainda tenho minhas dúvidas se essa é a carreira que quero para mim. Sei que trabalhar na área é muito diferente do ambiente que estou acostumado em sala de aula, mas, quando penso em fazer estágio, aquelas mesmas inseguranças do primeiro ano voltam a me perturbar. Têm sido muito difícil procurar por uma vaga (ainda estou na busca) e isso não faz sair da minha cabeça o fato de que talvez meu perfil não seja o apropriado para a área e que talvez eu não consiga me formar por este motivo. E, por mais que as pessoas digam que as empresas de desenvolvimento de software são muito acolhedoras e mente-abertas, tudo o que eu consigo sentir agora é que estou sendo excluído deste mundo. Talvez, no final de tudo, eu estivesse certo desde o começo: esse não é mesmo o meu lugar.
Vampiro terrível chamado técnico, Parasita de toda felicidade, Me enche de profundo terror. Socorro, socorro, socorro, socorro.
As nossas escolhas são feitas
Muito cedo, sem pensar,
Uma má decisão, no futuro
Em infelicidade pode acarretar
Um dia eu tive a ideia
Que queria programar
Porém eu não sabia
Que não ia me agradar
Nada contra quem programa
Nada mesmo de verdade
É que sou menos virtual.
E mais realidade
É muito triste que, em um curso que de uma área que já foi predominantemente feminina, vemos salas de 40 pessoas com apenas 9, 5, 2 meninas. A cultura nerd que tomou conta de tudo relacionado a computadores e fez com que a área de programação se tornasse extremamente tóxica para mulheres. No começo do curso, tive que me portar como menino para que as pessoas com quem eu queria ter amizade parassem de me enxergar como alguém para se dar em cima. Me acostumei a relevar machismo, me acostumei a relevar assédio, e, quando não relevo, me sinto extremamente sozinha.
Quando eu escolhi fazer o técnico de enfermagem no Cotuca, eu tinha apenas 14 anos e nem imaginava quanta coisa ia mudar na minha vida, mas foram mudanças boas e importantes. Escolhi esse curso, pois depois pretendia fazer faculdade de medicina. Como a maioria das pessoas, não entendia muito bem a diferença entre essas duas coisas e, acreditem, as diferenças são bem significativas. Eu passei no Cotuca, comecei a fazer o curso e tudo começou a mudar. Fui entendendo a diferença de cada profissão na área da saúde e me apaixonando por enfermagem. Cada campo de estágio que eu passava, me identificava cada vez mais com a profissão. Não demorei muito para perceber que eu não me identificava com medicina e não faria isso pro resto da minha vida. Às vezes, é claro que surge uma crise existencial questionando se é mesmo enfermagem e não qualquer outra coisa. Mas quem tem total certeza do que deseja fazer para o resto da vida com 17 anos? Foi tão fácil para mim me apaixonar por enfermagem. Estar cuidando das pessoas em um momento difícil e ajudá-las é incrível. Amo quando vejo a satisfação e agradecimento no olhar do paciente depois dos cuidados. Pequenas coisas já os deixam felizes, por exemplo, ajudar com as refeições, deixá-lo confortável no leito, ouvir e se importar com suas queixas, independente do seu nível de relevância. Conhecer a área da saúde mais a fundo não foi só alegria. Infelizmente, me deparei com situações inconvenientes. A enfermagem ainda é muito desvalorizada, pois muitos acreditam que somos submissos à medicina e que não possuímos conhecimento suficiente. A enfermagem, de fato, precisa da medicina, mas pra trabalhar em conjunto, uma equipe auxiliando a outra. E é preciso entender a importância da enfermagem para valorizar o nosso trabalho.
Bom dia, enfermeira!
Cinco horas. Acorda, prepara o café, é a primeira mulher da casa a levantar, certo? Tá em cima da hora, mas você já foi dormir tarde ontem, precisa de um gás a mais. Se veste, mas cuidado, esse branco tá muito transparente, já pensou molha? Um absurdo andar com essas blusas justinhas na rua, depois reclama que gritam para você, vai, troca de roupa.
Chega no hospital, pega o material de bolso, tranca tudo no armário e sobe pra enfermaria. Pega o plantão, organiza a pasta e as prescrições. Vai pro quarto, dá bom dia, começam os procedimentos. “Nossa, mas tão novinha, sabe mesmo o que tá fazendo? Aquele seu colega tem mais cara de médico, é da sua turma também? Ah, então tudo bem, pode continuar”. Tudo o que era pra ser feito no período, pronto. Vai se despedir do paciente, aquele discurso que ele acha que te faz bem “nossa, que coragem! Pra seguir uma profissão dessas tem que ter dom né, tem que fazer por amor mesmo. Ainda mais você, delicada que nem mocinha. Já deve ter aprendido em casa, arte de cuidar”. Tchau, corre pegar o ônibus, tem aula o resto da tarde ainda.
“Ah, mas enfermagem só limpa bunda de velho, pelo menos já aprende pra quando os pais ficarem mais velhos, afinal é sempre a filha mulher que tem mais jeito né”. Tarde cheia, não dá pra saber se é mais difícil o conteúdo (menos o de exatas, porque pra enfermagem os professores facilitam, né?) ou ficar acordada o tempo todo.
Volta pra casa, toma banho, janta, senta na cadeira pra estudar. Pensa na hora do dia em que alguém perguntou por que não fazia medicina. Pergunta boba, parece que ninguém percebe o quanto uma frase simples desvaloriza a classe, como se a carreira devesse ser escolhida por reconhecimento e dinheiro, ou como se fosse escolhida por caridade. O fato da enfermagem ser uma ciência protagonizada por mulheres se torna invisível na visão romântica do mundo, onde as coisas são feitas somente por amor, e com coragem. Não precisa deixar de ser, mas não por caridade. Não para ser empregada e inferior à medicina, mas parte da equipe multiprofissional, que cria conhecimento. Pensa na hora em que alguém diz que ela tem facilidade na profissão por ter instinto maternal e de cuidado, desconsiderando todo o estudo e prática que levaram a execução correta das técnicas. Pensa se vale a pena ser encarada sem ser vista, e decide que não. Mas que não vai ser assim.
Decide, já deitada pra dormir porque amanhã o dia é cheio também, e talvez esperançosa demais, que de pouco em pouco, seu entorno vai entender no que consiste a enfermagem, no brilho e estudo de cada conhecido seu. E espera que um dia reconhecimento venha por mérito antes de por luta.
Procurando erros - Sobre o cansaço do curso (Paródia de “A - ha - Take on me”)
Estou programando
Não sei o que estou fazendo
Vou fazer de qualquer jeito
Hoje é outro dia para te achar
Se escondendo
Estou procurando por você, tudo bem?
Atenção em mim, (sou um erro)
Atenção em você, (sou um erro)
Estou farto
Faz uma hora ou duas
Não preciso dizer
É difícil e ponto
Estou tropeçando por aí
Aprendendo que o programa está errado
Procurando você
É melhor consertar agora do que depois
Atenção em mim, (sou um erro)
Atenção em você, (sou um erro)
Estou farto
Faz uma hora ou duas
Oh, as coisas que você faz
Isso é vida ou
Apenas umas preocupações?
Você é tudo o que eu tenho que achar
Você está se escondendo
Estarei te procurando de qualquer jeito
Atenção em mim, (sou um erro)
Atenção em você, (sou um erro)
Estou farto
Faz uma hora
Estou farto
Faz uma hora