O meu consciente estava em total acordo com o meu corpo, ambos exaustos. O suor recém-adquirido escorria pela minha pele, umedecendo o lençol macio que revestia o colchão. Minhas pernas estavam fracas, eu era incapaz de dobrar os joelhos ou mexer os pés. Meus olhos abertos fitavam o teto branco, decorando pela milésima vez os traços que formavam desenhos abstratos. Eu não queria falar, ou talvez só não quisesse ter que ouvir, ouvir de novo a mesma coisa, a mesma justificava de sempre. Enchi os pulmões de ar para tomar a respiração que há muito não desfrutava, fechando os olhos para me concentrar melhor. Sentia-me dolorida, todo o meu corpo começou a reclamar quando o efeito do orgasmo foi embora, quando o calor do tesão desceu sorrateiramente para as pontas dos meus dedos dos pés, fugindo e deixando apenas lembranças. Comecei a sentir frio, mas não era por conta do clima estranho de Las Vegas, mas sim pelo fato do meu cérebro estar informando ao meu coração o quão fraca eu havia sido, outra vez. Eu cedi, eu não aguentei seu cheiro, seus olhos traiçoeiros que me faziam dançar uma melodia sem fim. Eu escorreguei no meu próprio desejo quando ela invadiu o meu quarto, como em todas as noites. Eu lhe ofereci os meus gritos, a minha raiva, ela me retribuiu com suas mãos, seus olhares, sua boca, seu corpo, sua audácia. Eu não queria me doar, mas minha voz me traía. Eu não queria gozar, mas o meu corpo queria. E quando eu gozei... Ah, quando eu gozei na boca dela, nos dedos dela, eu senti como se toda a minha raiva triplicasse. O meu coração batendo desesperado enquanto eu gritava o nome dela, agarrada em seus cabelos e suplicando por piedade. Piedade de mim, piedade dos meus sentimentos. Eu gemi como uma boa vadia enquanto ela fazia de mim o que queria, me chupando, me lambendo, me comendo, me quebrando. Eu gemi pelo prazer desesperador, gemi pela loucura familiar, gemi pela raiva assustadora. Naquela noite, eu me encontrei deitada na cama daquele quarto de hotel, exausta e machucada, com Lauren e toda a sua crueldade ao meu lado. : - Está tudo bem? Sua voz soou baixa, o suficiente para que eu ouvisse e não me assustasse. Mas eu me assustei, me assustei e desejei que ela se calasse. : - Eu estava... Antes de você tocar em mim. Respondi depois de engolir a saliva amarga, deixando que meus olhos fechados amenizassem a dor de cabeça que comecei a sentir. Lauren respirou profundamente, seu cheiro de mulher misturado ao de cigarros me deixando tonta. : - Camila, eu... : - Por favor, Lauren, não. – Foi a minha vez de respirar fundo, torcendo os dedos no lençol ao lado do meu corpo. – Não fala nada, não me faça ter que continuar ouvindo a tua voz. Apenas saia, saia do meu quarto. Deixe-me sozinha. Eu implorei, eu precisava que ela saísse do espaço em que eu me encontrava e levasse consigo toda aquela carga, todo o meu tormento. Eu desejei que ela me respeitasse ao menos aquela vez, depois de longos anos me faltando com o respeito, fazendo com que eu perdesse toda a minha dignidade. Todo aquele tempo convivendo por fazer parte do mesmo grupo, Lauren e eu ainda éramos a mesma merda de sempre. Ela namorando, eu sendo a outra. Eu estava cansada, o meu rosto de vinte anos gritava por vergonha, o meu caráter me pedia de joelhos por um pingo de atenção e tudo o que eu conseguia fazer era cair na lábia daquela mulher. Eu me sentia humilhada, empurrando sozinha, chorando sozinha, amando sozinha. Eu me sentia usada, um pedaço de carne ambulante pronto para ser comido com garfo e faca. Era isso que Lauren fazia comigo, comia. Todas as noites ela batia na porta do meu quarto em qualquer hotel que ficássemos, entrava sem me dar chances de impedi-la e fazia o conveniente, me comia. Nós transávamos, ela vestia as roupas e saía, fazendo-me acordar na companhia de seu cheiro e lembranças. Eu não aguentava mais ser sua segunda opção, eu não podia me contentar com o pouco que passei todos aqueles anos recebendo. Eu precisava parar. : - Eu não quero te deixar sozinha. Eu ri incrédula e abri os meus olhos, sentindo o meu coração se remoer em mágoa. : - Não? Você me deixa sozinha todas as noites depois de conseguir o que quer. – Eu continuei rindo ao virar a minha cabeça para olhá-la, capturando seus grandes e intensos olhos verdes. – Porque é só isso o que você quer comigo. É trepar que você quer, é atrás de uma boa trepada que você bate no meu quarto toda noite. Não me venha com esse papo ridículo agora. É incrível o que uma pessoa ferida é capaz de dizer. Você cospe tudo como se precisasse de tal coisa para respirar. Você quer vomitar os danos, quer aliviar o sangramento, fechar os cortes e nem mesmo toda a agressividade em forma de palavras te faz relaxar. Ri com escárnio e sentei-me na cama, colocando os meus pés para fora. : - Não fale assim. Essa não é a verdade. : - Qual é a verdade pra você? – Perguntei ao ficar de pé, virando para encará-la. Seus cabelos estavam bagunçados, seu corpo já sentado sobre a cama exibia aquela nudez que me alucinava. O suor brilhando em sua pele, os arranhões em fúria e prazer que eu havia deixado em seus braços saltavam em vermelho. Ela era tão linda, tão linda e tão vagabunda que eu sentia-me fraca. – Qual é a porra da verdade pra você, Lauren? O que você vai me dizer? Vai bancar a boazinha agora? Vai me dizer que passou todos esses anos me deixando acordar sozinha em camas como essa porque não gostou do colchão? : - Chega! Ela resmungou sob uma respiração alterada, levantando-se da cama. : - Fala pra mim o que você considera verdade. Diz na minha cara o motivo de tudo isso. Diz pra mim com o resto da honestidade que você tem, se ainda tem, que não quer só trepar comigo. O meu peito subia e descia furiosamente, minha voz um tom mais alto do que o normal. : - DIZ, LAUREN. Eu gritei quando a vi abaixar-se para começar a recolher suas roupas. : - EU DISSE CHEGA, CAMILA. Ela gritou de volta, largando o que havia pegado no chão e cerrando as mãos em punhos. Nós nos encaramos, ela de um lado da cama, eu do outro. Seus olhos refletiam raiva e mais uma dúzia de sentimentos completamente fora do meu entendimento. Eu queria machucá-la do jeito que ela me machucava, mas só sabia amá-la, amá-la de forma vergonhosa, incapaz de viver a minha vida para viver a dela, incapaz de chorar se não fosse por ela. Eu sorri triste e senti meus olhos embaçarem, meu coração acelerado deixando-me sem ar. : - Sou eu quem precisa dizer chega. – Eu disse negando com a cabeça, abraçando o meu corpo. – Chega de cair na tua conversa, chega de te deixar entrar e bagunçar o meu quarto, o meu corpo, a minha vida. Chega de bancar a idiota, chega de abrir as pernas quando você achar certo. Chega de me humilhar, de deixar a minha dignidade correr para longe de mim mais um pouco a cada dia. Chega! Você quer o que, Lauren? Você quer uma boceta pra foder, é isso? O teu namorado não dá conta de te fazer gozar? Eu acho que não, porque se desse você não iria bater na minha porta toda noite atrás de um bom orgasmo. Acontece que eu não sou sua puta, eu não quero mais o pouco que você me dá. – Deixei que as lágrimas raivosas caíssem, mais uma vez, me humilhando na frente dela. – Eu queria mais que apenas noites, mais que apenas falsas promessas, mais que um “eu te amo” dito da boca pra fora. Eu não quero mais ser a “outra”, Lauren. Eu não posso, eu não aguento mais. Eu não posso mais suportar te ter na minha cama em um momento e no outro te ver dizendo que ama o seu namorado nas redes sócias, ou em entrevistas. Eu não quero mais me sentir morrer desse jeito. Liberte-me disso, me deixe sem o seu pouco de uma vez. Saia do meu quarto e não volte, não volte porque eu não quero mais. : - Não, não há chances de deixar você, eu não vou. : - Saia. – Mandei outra vez, subindo as mãos para o meu pescoço, cravando as unhas na minha pele completamente trêmula. – Vá embora de uma vez, Lauren. : - Eu já disse que não vou. Ela deu dois passos para frente, eu dei três para trás. Tremendo de raiva, chorando de mágoa. Meu peito cheio de amor e exaustão. Pela primeira vez na minha vida eu senti que ter Lauren do lado de fora seria a minha melhor escolha. : - Não me faça chamar os seguranças para te tirar daqui. Eu apontei para a porta, ela cruzou o quarto. Eu gritei com pulmões cheios de ar, ela me apertou contra a parede mais próxima com toda a força. Eu tremi, outra vez. Ela me esquentou com seu corpo, me arrepiou com seu olhar. : - Não faça isso comigo. – Sua voz era um lamento, suas mãos seguravam o meu rosto como se fosse a última coisa a estar ali antes da morte. – Não me mande ir embora, não... Você não pode. : - Me solte. – Choraminguei contra suas mãos, sentia-me dolorida por dentro e por fora. – Você é uma vagabunda. Eu quero você longe de mim. : - Por favor! – Eu fechei meus olhos com força quando seus lábios tocaram a minha bochecha direita, suas mãos trêmulas massageando intensamente o meu pescoço. E ali, de pé, Lauren fez uma coisa que eu nunca imaginei que faria depois de tanto tempo. Chorou. Um choro alto e compulsivo, fazendo com que todo o seu corpo tremesse na minha frente, deixando-me fraca. – Por favor, Camila! Eu estou lhe dizendo que não vou. Você é a melhor mulher que eu conheci, de jeito nenhum eu poderia ir. Não, de jeito nenhum. Seus lábios molhados por suas lágrimas beijavam as minhas por cima de meus olhos, nossas respirações alteradas tornando-se uma só, ultrapassando o meu limite. Doía mais do que algo já doeu em toda a minha vida. A dor por ser fraca diante daquela mulher era como uma faca quente entrando na garganta. Uma falta de amor próprio, excesso de amor por ela. : - Pare! – Tentei, em vão, empurrá-la pelos ombros, cravando minhas unhas na pele quente. – Vá de uma vez e termine logo com isso. Ao menos uma vez na sua vida, tenha consideração por mim. Seus beijos cheios de pavor e desespero me amoleciam, me feriam, me matavam. Lauren era um caminho completamente torto que só levava a um destino, a prisão. Seria eu prisioneira eterna de seus braços, seus desejos e caprichos. Queria eu ficar presa nos laços de seus sentimentos verdadeiros, de uma sua paixão alucinante, de seu amor puro. Queria eu ser a Camila amada e venerada por Lauren, não aquela famosa Camila eternamente amante. : - Não, não, não... – Lauren apertou meu maxilar com força, balançando a cabeça vezes seguidas, empurrando minhas costas contra a parede fria com seu corpo quente. – De jeito nenhum vou viver sem você. Não há como viver sem você. Eu não quero ser livre. Eu vou ficar, eu não vou embora. : - Lauren... – Soquei seus ombros, berrei ao vento. – SAIA DAQUI AGORA. : - Eu estou lhe dizendo que não vou. – Seus olhos verdes queimavam, um mar revolto e perdido como nunca antes. Um coração forte e barulhento batendo dentro de seu peito contra o meu. Ainda que estranho fosse, era tudo o que mais desejei sentir em todos os meus dias. – Nós somos parte do mesmo lugar, nós somos parte da mesma época, nós dividimos o mesmo sangue, nós duas temos a mesma mente. E o tempo, nós tivemos e temos muito para ver e... Não, não, não vou acordar amanhã cedo e descobrir que você não estará mais aqui pra mim. Derrube montanhas, berre, grite, você pode dizer o que quiser. Empurre, bata e mate. Mas eu não vou deixar você, de jeito nenhum eu vou deixar você. Eu ia gritar novamente, pedir ajuda para Deus e quem quer que fosse. Chorar alto o bastante não me impedia de ouvi-la, e talvez ouvir era tudo o que eu não quisesse. Ouvir só me machucaria, ou me faria sentir que criar esperanças ainda poderia valer a pena. E eu estava certa, eu descobri que meu coração era otário demais para permitir que meu cérebro avançasse com minha razão. : - Eu não vou porque eu te amo. Eu te amo, Camila. Olha pra mim. – Lauren segurou meu rosto com força, me obrigando a encará-la sem desviar o olhar. Eu queria correr para longe, ou para dentro dela. – Eu sou uma imbecil, uma egoísta, uma puta ou qualquer coisa que você ache de mim, mas eu te amo. É olhando em seus olhos e vendo que você, realmente, vai abrir mão de mim para perceber o quanto eu não saberei viver sem você. Eu não serei nada sem você. Você é o melhor que há em mim. Me deixe começar de novo, por favor. Me deixe apagar o passado e mudar o presente. Me deixe escrever o futuro de uma forma certa. Há certas situações que nem mesmo toda a vivência do mundo te prepara o suficiente para lidar com elas. E lidar com Lauren se declarando era a última coisa que eu sabia. Mas a primeira coisa que eu esperei desde os meus 15 anos de idade. : - Você não pode estar falando sério... Nem mesmo consegui terminar, apenas me deixei levar pelo rio de mágoa recente e amor fervente que corria em mim. : - Eu ficarei e você... Você vai me perdoar. – Ela beijou todo o meu rosto, me envolvendo com força em seus braços, amparando o meu corpo mole que insistia em se encaixar ao dela como se tivesse sido feito para isso. – Você vai me perdoar, Camz. Eu sei que vai. Eu preciso que me perdoe. Eu preciso de você. Não há formas de tirar alguém da sua vida, quando a mesma trilha caminhos para que não haja despedida. Não há como correr do destino, muito menos da dor que virá com ele. Não havia como impedir Lauren de ficar, nem mesmo de morrer aos poucos nos braços dela. Não havia formas de deixar de pensar na frase que repeti para ela silenciosamente todas as vezes em que a admirava dormir ao meu lado: Você vai me amar. E de alguma forma bem errada e estranha, ela amava. Ainda que prejudicial, mas amava. Naquele momento, jogada em seus braços, eu tinha apenas um pensamento: Antes adoecer e morrer por amor do que ser saudável e viver sem ele.
- Por Gisele C - And I am telling you, I'm not going/Camren.













