Oi, não sei por onde começar, mas sei que preciso escrever, colocar tudo para fora. Decidi escrever para mim mesma, sim, você não esta lendo errado. To escrevendo para você, você Vitória, em todas suas versões que ficaram no passado. Começo falando para minha versão de 16 anos. Oi, Eu sou seu eu do futuro, hoje é dia 05 de fevereiro de 2026, tenho 27 anos, tenho uma profissão, tenho um bom emprego, tenho um carro, estou solteira, acabei de vir do cinema sozinha. Moro sozinha. Sim, a vida dos sonhos era uma farsa. Ninguém vem te salvar de si mesma e da sua vida. Pelo contrário, pessoas entram na sua vida para te ferir. Desculpa te decepcionar, você não casou, não tem filhos, nem a vida dos sonhos. Mas você tem liberdade. Se eu te falasse que isso basta, estaria mentindo. As vezes desejo ter sua inocência, e não saber o que sei hoje. As vezes desejo ter a fé que você tinha nas pessoas. As vezes quero voltar no passado, quando você era só uma folha em branco como na analogia de John Locke, lembra? Que você usava nas suas redações... Hoje me sinto uma folha escrita, e queria apagar tanta coisa que foi escrita ali... Você nunca soube se escolher, sabia? E eu sigo tentando mudar isso. 11 anos atras, em 2014, nesse momento você estaria apaixonada e sofrendo pelo Otto. No meio desse mesmo ano, Gabriel vai entrar na sua vida. No inicio, você vai ser indiferente a ele, vai desejar voltar com Otto, que em setembro vai assumir que ta namorando, seu mundo vai despedaçar, mas ainda tem coisa pior por vir. Por fim você vai se apaixonar pelo Gabriel, e quando você der por si, não vai conseguir imaginar sua vida sem ele. VocÊ vai achar que é independente desse relacionamento, que ele te ama mais do que você ama ele. Você vai desejar "ser livre", independente. Você vai achar que é forte. Que consegue tudo sozinha. Mas você deixou ele se tornar seu mundo, e nem percebeu. Se deixou de canto, como aprendeu durante toda sua vida, você nunca precisou ser importante para si mesma, não é mesmo? Quem era você? Do que você realmente gostava? Você foi feita para agradar, para fazer todos felizes menos a si mesma. O bem estar do seu pai valia mais. Fazer todos felizes, essa não era a sua missão? Afinal, seus pais já tinham tido uma vida difícil demais, você não podia ser mais um motivo de tristeza ou decepção. Você tinha que se comportar, ser a filha perfeita. Ter boas notas, ir para a faculdade federal, ser independente, bem sucedida financeiramente, casar virgem, ter filhos, uma família feliz. Não era esse o plano? Um dia um menino perfeito, apareceria na sua vida, te tiraria de toda monotonia, te faria feliz, e preencheria esse vazio que você sentia por dentro. Ele te faria feliz. Ele seria a solução. Isso nunca aconteceu. Gabriel entrou na sua vida, você perdeu sua virgindade, você nunca achou que ele era o cara certo, por um tempo você se forçou a acreditar que sim. Ele era seu mundo , não tinha coo imaginar um mundo sem ele. Vocês terminaram. E ai veio a primeira queda. No dia que você descobriu que ele tinha transado com outra pessoa. Parte do seu mundo caiu naquele dia. Hoje, olhando para trás, vejo um divisor de águas ali. Você tinha 21 anos. Sabe quando a Bella vira vampira e começa a enxergar diferente? Ou quando a Elena em the vampire diaries, se torna vampira e cai um véu da visão dela? Foi quase isso. Você perdeu parte da sua inocência ali. Lembro de olhar ao redor do meu quarto em Lavras, uma dor imensa ardia dentro de mim, e era como se nada mais fizesse sentido. Eu só tinha transado com ele, e ele comigo, eramos só um do outro. E não seria assim para sempre? Não era para ser assim? Como ele pode? Nada mais fazia sentido. Meu mundo não fazia mais sentido. Aquele mundo não fazia sentido. Por dias aquela dor me corroeu. Me culpei. Me culpei por ter terminado. Me culpei por não ter valorizado ele. Muita coisa aconteceu. Voltamos. Mas nada mais foi igual. Não tinha como ser. Tanta magoa, tanta culpa, tanto arrependimento, dos dois lados. O fim chegou de novo.
Algumas vezes você desejou morrer. Se sentiu fraca novamente, como no inicio da adolescência. A vida parecia um erro. Você se sentia fraca, sozinha, vazia. Sua força, brilho, autoestima, segurança, pareciam vir do fato de que você tinha um relacionamento. De saber que tinha alguém ali, te segurando, te validando o tempo todo. Voce não sabia ser sozinha, ficar sozinha. Você achava que gostava de ficar sozinha, mas era porque no fundo tinha certeza que ele estaria sempre ali por você. Mas ele não ficou. Ele se foi. E no fim ele se escolheu, escolher a própia sanidade mental. Escolheu sair de um relacionamento doente, que só adoecia os dois. Mas você não conseguiu superar, o culpou por ter te "abandonado". Você transou com outras pessoas, e se sentiu suja por isso, culpou ele, se culpou...
E ai ele surgiu, o "príncipe encantado". Era o que ele dizia ser, era como ele fantasiosamente se portava. Alto, bonito, sorriso encantador, inteligente, atencioso, provedor, másculo, conquistador. Era um sonho. Você tinha tirado a sorte grande daquele homem querer você. Rápido, ele estava apaixonado. Sua autoestima voltou. Esse homem perfeito ta caidinho por mim, acho que sou maravilhosa novamente. É o destino. Era para ser. Eu era tão sortuda. Ele fazia tudo que o Gabriel nunca fez. Fazia questão de agradar seus pais, de ser o cara simpático, de cuidar de você, de fazer tudo por você. Você tava tão frágil, foi uma presa fácil. Era mais simples acreditar que era o destino e a vida tinha sido boa com você. Então você escolheu ignorar os sinais, ignorou o passado dele, o termino do ultimo relacionamento dele, ignorou os surtos de raiva, ignorou a labilidade emocional, ignorou como todo aquele relacionamento tinha iniciado rápido demais. Você tinha que ser perfeito, você tinha que se comportar, tinha que ser merecedora daquele homem, daquele relacionamento. Então mais uma vez você se anulou. Inicou um ciclo de abusos, uma montanha russa de sensações. Em um momento parecia a vida perfeita, o homem perfeito, no minuto seguinte, você era um lixo, não era merecedora dele e de tudo que ele fazia por você. Você precisava se esforçar mais, melhorar mais, se encaixar no mundo dele, ser merecedora de todo cuidado que ele dedicava a você.
Um dia você acordou, era noiva, tava caminhando para a vida perfeita, a vida que você criou na sua cabeça e para todo mundo de fora. A vida do instagram. O casal perfeito, capa de revista, como um dia comentaram na sua foto. A vida que você achou que seus pais admirariam. Mas algo estava errado. Você vivia triste, ansiosa, se escondendo, com medo. Era como pisar em ovos. O tempo todo com medo de desagradá-lo. De quando seria o próximo surto. Das ameaças que ele fazia de terminar e te deixar. Você nunca era boa o suficiente. Você tinha que viver para ele. Não tinha mais quase amigos. Se afastou da sua irma. Não se dedicava no trabalho. Não pegava quase plantão extra. Ele começou a implicar com seu colega de plantão. Tudo era motivo. Você sempre se sentia culpada, sempre tentava se adequar. A tensão virou seu sobrenome. A paz nunca era uma opção. E se ele te deixasse o que você faria? Como começaria de novo? Você não tinha pra onde voltar, Gabriel tava casado. Você já tava mais velha, tinha tido relação com outros homens, quem iria te querer? E como deixar para trás um homem não maravilhoso e perfeito que fazia de tudo por você?
Por um momento eu mesma duvidei de você, duvidei de mim mesma. Mas eu consegui. Consegui sair daquele inferno. Hoje eu vi um filme, "A EMPREGADA", e eu só conseguia chorar. O filme leva ao extremo, eu sei, mas foi aquilo, foi aquilo que eu vivi. Aquilo é viver com um narcisista. Douglas era um narcisista, ele nunca me amou, só se importava com ele mesmo e com a vida perfeita que ele criou na cabeça dele e me fazia tentar me encaixar nela. Disparou um gatilho em mim, de tudo que eu passei naquele relacionamento. E hoje eu vejo que fui uma presa "fácil", vulnerável , como a personagem do filme.
É isso, Vitória, desculpa te decepcionar, nunca fomos salvas. O príncipe não te salvou, ele transou com você bêbada, depois de você ter vomitado e passado mal, no primeiro encontro. E isso era só o inicio. Depois ele te fez sentir culpada por isso. Te envolveu num jogo de manipulações, que no fim, você não sabia nem mais quem era.
Superamos ele? Sim. Superamos o Gabriel? Sim. Superamos tudo que você passou? Não. Por isso hoje te escrevo com as lagrimas rolando pelo meu rosto desde o inicio desse texto. Mas estamos tentando.. To tentando descobrir quem você realmente é, no que você acredita, no que você quer. To tentando te reconstruir, ou no caso construir. Preciso pela primeira vez tentar me agradar, me fazer feliz. Aonde está o limite entre o que você é e o que você personifica para se encaixar no que os seus pais criaram para você!?
É o que eu tenho trabalhado na terapia. Bem vinda a 2026.