As crianças
Eu tenho um sonho frequente. Nesse sonho eu caminho nu entre árvores enigmáticas e altas. Apesar de ser noite eu consigo sentir um calor sufocante e a humidade. A floresta toda parece se movimentar, gemer e se lamentar. Por entre as profundas lamentações pode se ouvir risadas histéricas, rugidos animalescos e batidas constantes de tambor. Quanto mais eu ando mais alto se tornam os sons e mais o calor aumenta. Consigo sentir uma forte tensão elétrica percorrer meus braços e meu peito. A um ponto tenho a sensação de que a floresta corre ao meu lado rapidamente e então fico estático, paralisado com um terror que cresce à medida que os tambores vão se tornando mais altos e ameaçadores. E então tudo para. E fico numa área mais limpa, com árvores menores e grandes arbustos. E é nesse momento que eu o vejo, O Grande Touro Dourado. É aterrador, ele acima de todas as árvores, com os olhos e ventre em chamas. Ele bufa grandes bolas de fumaça de seu focinho e geme como se estivesse morrendo. Os tambores marcam as batidas de seu coração. E não consigo fazer nada além de ir mais a frente. Sou atraído por sua força e vontade, e vou para mais perto. E então eu vejo a grande festa em torno dele. Escondo-me e fico hipnotizado olhando para as mulheres nuas e cobertas de tatuagens, que correm em sua volta, num balé sinistro e frenético, enquanto cantam canções de outros mundos e vidas. Homens batem em enormes tambores rústicos numa sintonia surreal, vestindo nada além de pesados colares e coroas de cipó. E seu deus contente sopra labaredas de fogo vermelho lava, que se estendem por fortes ondas de calor que arrastam sobre o solo e tingem a todos de sangue por breves momentos. E eles vão à loucura e tocam mais forte e o deus sopra e sopra e sopra, mais e mais forte. Enquanto alguns solitários gritos de dor se ecoam no vazio e tudo é a cadência de loucura. Após um momento eterno e breve, choros de bebê invadem meus pensamentos e me arrancam do transe. Finalmente consigo olhar para o todo o local e enxergo uma longa fila de mulheres com bebês no colo em direção ao gigante. A maioria das mulheres são jovens, na idade do desenvolvimento dos seus corpos, corpos negros maravilhosos e rostos fortes. Todas estão num choro silencioso enquanto acariciam seus bebês. E todas dão um passo, e então outro e então outro. Um passo mais demorado que o outro. E é terrível quando percebo o que está acontecendo. Na ponta, uma figura, uma mulher, sobe num palanque de madeira e lança algo de suas mãos no ventre do Deus. A cena lenta e angustiante, o borrão voa por mais de três metros para dentro do ventre do Animal e some no fogo. Ela o alimenta. Ela o alimenta com seu filho. E o fogo escurece e o touro bufa mais uma vez, e o calor dessa vez assusta mais que nunca. A mulher cai e é amparada por um grande homem negro, com uma enorme capa feita da pele de algum animal nos ombros. Um enorme mago selvagem que a leva para baixo e ajuda a próxima mulher a subir. Eu penso que tenho fugir, eu me viro, e começo a correr. O que é um grande erro. Os selvagens ouvem minha barulheira, me veem e imediatamente diversos deles estão atrás de mim. Uma eterna caçada começa. Lanças e pedras passam pela minha cabeça e os seus uivos congelam minha alma. Consigo sentir meu coração querendo escapar pela minha garganta. Minha boca seca. E meus pulmões começam a rejeitar o ar. Ai então eu corro mais. Eu corro até meu diafragma inchar. Eu corro pelos arbustos e árvores. E os filhos da puta se aproximam cada vez mais e jogam cada vez mais pedras e lanças. Meus pés ficam melados de sangue quando tento pular uma pedra e a acerto em cheio. Cada vez é mais difícil correr. E o tempo passa. E quando meu corpo é só uma massa avermelhada de escoriações e sangue eu escorrego numa poça de lama e bato a cabeça num só baque no chão. É meu fim. Os selvagens chegam e começam a me atirar pedras e gritam. Gritos loucos de felicidade e glória. Uivos e batuques. Fui uma presa fácil. Quando recobro a consciência eu estou sendo levado por seis enormes mulheres. Muito mais altas que eu, com os ombros enormes e peitos caídos. Elas me carregam facilmente. Mulheres feitas em pedra, negras como a noite e tão antigas quanto o tempo. Consigo enxergar no meio de muita fumaça e vermelhidão que elas estão me levando para Ele. Eu tento pedir socorro, mas não tenho forças para isso. Tento me desvencilhar, mas é inútil. Elas me levam cantando, num tom forte e profundo. No pé do palanque elas me entregam ao grande mago de incalculável tamanho e força. Ele me joga nos ombros e sobe os degraus vagarosamente. Então me coloca de pé me segurando por baixo dos braços e me levanta. Eu choro muito e não tenho forças. No ritmo da música, dos cantos a raiva aos poucos vai se tornando calma e aceitação. Ficamos um longo momento assim. Ele me mostrando aos céus. Um silêncio toma conta de tudo, e encontro a salvação. E ele me joga.
Galdino, Março 2016









