Mátir herege @well.poemas
Quem dera fosse o contrário
Não queria-me sentir tão solitário
Às vezes acho que não vou chegar aos trinta
Sou três cartas sem valor; uma trinca
Enquanto eles aplicam mais uma seringa
E eu uso correntes no pulso
Para lembrar do dia em que fui acorrentado
Acorrentado a esses padrões
E acorrentado pelos meus demônios
Apanho dos meus heterônimos
Fiz poemas com os meus personagens anônimos.
Tenho tantas personalidades que me perco
E a minha mãe ama todas elas Mãe,
faz tanto tempo que não te abraço
Sou inseguro, sempre vejo o abraço
Como oportunidade de te enfiarem uma faca no braço
De tudo para manter-me vivo
Morro nessa poesia para ver se sobrevivo.
Escrever é sobre se sentir vivo
Cansei de brincar de morto-vivo
A minha mente prega peças
Estou disposto a fazer um teatro
Eu sou o protagonista e o vilão
E às vezes-me vejo como um figurante
Sou um livro empoeirado na estante
Ninguém se importa e ninguém me lê
Sempre quis ser um herói desde pequeno
Sou um homem invisível que não se vê.
Cansei de pedir para entender-me
Essas lágrimas caem e eu vou beber
Garganta seca e hidrato-me do meu sofrimento
Aprendi a ser a minha fonte de alimento
Dentro da minha mente um crânio pensante
Até os meus ossos tem rimas escritas
Isso não é idade da pedra
Uma hora moleque e na outra cabra-da-peste
Uma hora poeta fajuto e na outra thebest.
Me sinto uma besta enjaulada
A minha cela sempre foi o caderno
A fechadura abri com a tampa de uma caneta
A caneta usei para escrever na parede
Quem for o próximo a ser preso
Pelo menos vai ficar entretido
Poemas na parede que soam como um labirinto
No caça-palavras caço palavras
E com o sangue delas me pinto.
Sou mais um detento recém liberto
E ás vezes desejo voltar ao caderno
Me acostumei com a comida da cadeia
Já me acostumei com a ideia da cadeira elétrica
Rimas que quebram a atual estética
Rimo sem métrica definida
Ninguém pode prever a minha vida.
Me sinto preso mesmo liberto
A caneta me cura e me fere
Meu merthiolarte;me cura e arde
A arte é a minha voz no silêncio
Mas também é um grito de socorro
Não sei se termino esse poema
Quebrando palavras e quebrando meus punhos
Invadindo mentes e mundos
Mãos imundas querendo limpar umas almas
Sou imperfeito e refém desse dogma
Ninguém muda as regras e eu me destruo
O primeiro mártir herege.