O que todo LGBT+ gostaria de dizer para sua mãe.
E não deixe que nenhuma igreja, que nenhum pastor, que nenhum líder religioso ou até presidente faça com que você se afaste do que você tem de mais precioso na sua vida.
Olá! Eu sou Samuel Gomes, bem-vindo ao Guardei no Armário e esse é mais um ‘Chá com S’.
Eu postei um vídeo na sexta-feira da semana do dia das mães com a Rosa Luz, que ela contou um diálogo dela com a mãe dela que é incrível. Eu peço para que vocês assistam. E agora eu vou bater um papo com umas mães aqui, tá bom? Então, não deixe de se inscrever nesse canal, não deixe de deixar o seu like e não deixe de comentar o que você achou desse vídeo, tá ok?
E aí, galera, tudo bom? Primeira coisa que a gente vai fazer: se você é assumido para o seu pai ou pra sua mãe e você não tem uma relação tão boa com ela, por favor, mande esse vídeo para ela. Se você não é assumido, guarda esse link para, quando você se assumir, você mostrar pra ela. Tá bom? Porque é uma conversa minha com a sua mãe. Olá, mãe, tudo bom? Eu sou Samuel Gomes, autor do projeto e livro ‘Guardei no Armário’, eu sou um homem negro, periférico, ex-evangélico e eu estou aqui pra conversar um pouquinho com você, tudo bem? Eu tenho esse canal no YouTube e ele nasceu por conta de uma dor que eu tinha, porque eu me sentia diferente. Eu sempre me senti diferente dos outros meninos, eu sempre me senti diferente dos meus primos, eu sempre me senti diferente do meu pai, eu sempre me senti uma ovelhinha colorida na família que eu nasci. Só que, na minha infância, eu não tinha com quem conversar sobre essa minha diferença. A minha melhor amiga era a minha mãe. Eu confiei muito nela. E eu ainda confio muito nela. Só que eu não tinha como falar pra ela que eu me sentia diferente.
Os meninos do colégio brigavam comigo, eles me zoavam, eu sofria muito bullying. Você, mãe, se você teve a oportunidade de estudar, de estar num colégio, você já deve ter presenciado alguns bullyings, que na época não era bullying o nome, ou pelo menos sofrido, ou visto, ou mesmo praticado. Você sabe que isso é ruim. Quando você teve o seu filho ou sua filha, no momento do parto, eu acredito que você… ou pelo menos na concepção dos seus filhos, ou mesmo quando você adotou o seu filho, quando você encontrou o seu filho ou a sua filha, você pensou “Eu quero que ele ou ela seja muito feliz. Eu quero que ele ou ela não sofra nessa vida. Eu espero que o mundo seja melhor para que ele ou ela possa trabalhar, possa ter o seu futuro, possa ajudar a família, possa ajudar a sociedade”. Só que você não imagina o quanto a gente sofre quando a gente é LGBT. Você não imagina o quanto é dolorido saber que a gente muitas vezes pode provar do tal amor incondicional e saber que talvez esse amor incondicional seja condicional. Sabe o que eu quero dizer com isso? Muitos pais e mães têm nos filhos uma sucessão da sua própria existência. Acabam colocando nos filhos as expectativas da vida que muitas vezes não conseguiram ter. O que eu mais ouço, hoje em dia, até de pais novos, de pessoas que têm a vontade de ser mãe ou de ser pai é “Ai, eu quero oferecer para o meu filho tudo aquilo que eu não tive”. Nunca, em nenhuma dessas conversas, essas pessoas pensam na possibilidade de um diálogo e nesse momento responder “Eu vou tentar proporcionar para o meu filho tudo aquilo que ele desejar ter e, na medida do possível, o que eu puder dar”. Isso é muito importante, sabe por quê? Porque, quando você traz uma criança pro mundo, e eu não sou ninguém pra dizer como você deve ou não criar o seu filho, você está trazendo uma nova vida, uma nova experiência, que vai conhecer esse planeta. Ele vai ver o mundo de uma forma como você não vê. Ele foi gerado dentro de você, só que, quando ele nasce, ele já está vendo o mundo por uma perspectiva que você não está vendo. Enquanto ele está nascendo do seu ventre e você está vendo ele nascendo, ele está percorrendo um caminho que ele está vendo tudo novo. É diferente o olhar dele pra você e de você pra ele. A começar por aí, você já consegue entender que ninguém é igual a ninguém. E a sexualidade humana também não é igual.
Se esse vídeo chegou até você, se o seu filho é LGBT e ele chegou até você e se assumiu é porque ele confia em você, é porque ele acredita em você. É porque ele quer e tem a esperança que o relacionamento entre vocês melhore. Ele quer ou tem esperança que vocês se aproximem. Ele quer ou tem esperança que, pelo menos, você aceite ele ou ela como eles são.
Já é muito difícil imaginar tudo que a gente tem que enfrentar na vida. É cuidar da saúde, é estudar, é ser um bom aluno, é ser um bom filho, é trabalhar, é ganhar um bom emprego, é um bom salário, é uma boa faculdade, são boas relações… A gente se cobra muito, muito, muito, muito, muito. E a gente que é LGBT se cobra ainda mais, porque a gente não sabe se tudo isso que a gente está fazendo vai valer a pena lá na frente a partir do momento que a gente se assumir. É muito comum ouvir de mães — e pais também, mas agora é uma conversa só com as mães — “Ah, eu não te conheço mais. Eu não sei quem é o meu filho, quem é a minha filha”.
De fato, você nunca vai saber e você nunca soube. Por mais que você ache que você é o melhor amigo do seu filho ou o melhor amigo da sua filha, tem coisas que ele não vai contar pra você e que você também não vãi contar pra eles. E está tudo bem. Só que o fato do seu filho ou da sua filha ter contado pra você que faz parte de uma comunidade que hoje é massacrada, é humilhada, é expulsa de casa, é expulsa de trabalho, não recebe aumento, não tem o direito de andar de mãos dadas na rua, de ter um plano de saúde conjunto, de doar sangue, de adotar filho, de sair na rua sem medo de morrer por ser quem é… o fato de eles falarem que é LGBT, que se assumiu LGBT, não é uma escolha, não é promiscuidade, não é falta de vergonha na cara. Muito pelo contrário, é por conta de muita coragem que esse seu filho, que essa sua filha chegou e falou
“Pai, mãe, eu sou LGBT. Pai, mãe, esse aqui, essa aqui é minha companheira, meu companheiro. Pai, mãe, eu estou aqui dizendo pra você que eu sou assim, assim e assado, mas nada muda. Porque eu sempre fui, eu só estou comunicando isso aqui a você”.
E por que é tão importante para a gente comunicar? Eu vou dar um exemplo muito simples pra você, que talvez não faça parte do seu convívio. Mas eu, como um homem negro, quando sofro algum tipo de racismo fora de casa, por eu ter uma família preta e que entende o que é racismo, porque não adianta ser preto se você não entende, porque você pode ser adotado por pais brancos e seus pais entenderem o que é racismo, você volta pra casa e você tem um amparo. Você consegue conversar sobre isso, achar soluções pra isso. Quando você é LGBT e passa por algum processo homofóbico no colégio, na faculdade ou no trabalho, você não tem pra quem conversar. E por que é tão importante conversar com pai e mãe sobre essas coisas? Porque é onde a gente vai procurar colo quando a gente está triste. Você lembra quando o seu filho ou a sua filha deitava no seu colo e você fazia cafuné? Muitos e muitas estão esperando esse cafuné de novo até hoje, principalmente filhos LGBTs. Você, mãe, que está vendo esse vídeo, que seu filho pediu para que você visse esse vídeo no dia de hoje, é um presente que ele está te dando, pra que vocês se aproximem mais, pra que vocês conversem mais, pra que vocês se unam mais. Porque vocês dois juntos, vocês vão conseguir enfrentar tudo isso que está aí. Você pode dizer “Mas o que eu falei pro meu filho, o que eu falei pra minha filha não foi para magoá-los, foi pra proteger eles desse mundo que eu sei que não é fácil”. E realmente não é fácil.
Mas o primeiro atravanque, o primeiro obstáculo que a pessoa encontra na vida muitas vezes são os pais e as mães que dizem, dizendo que o mundo vai falar coisas piores. Muitas vezes, a gente nem escuta isso do mundo, a gente escuta isso dos nossos próprios pais. E a gente só tá querendo um abraço. Eu costumo dizer que as nossas mães, e os pais também, elas entram no armário assim que os filhos saem. Porque os filhos saem do armário depois de muito estudo, muita noção de quem é, de muita força tirada de muita gente que muitas vezes você nem conhece pra poder ser feliz. Só que quando a pessoa chega e fala, ela está falando porque ela já não aguenta mais. Sabe, você já teve uma angústia muito forte, que você precisava contar uma coisa pra alguém e não conseguia dormir, e chorava, e entrava no chuveiro e pensava, e tremia na hora que pensava o que queria falar e não conseguia? Nós LGBTs passamos por isso no momento de saída do armário. Esse canal está cheio de vídeos. Eu vou listar eles aqui e em vários lugares. Se você quiser assistir e também entrar nessa militância, você não precisa negar a sua fé. Eu sei que vai ser um conflito muito grande para você conseguir entender que ao longo da sua vida você acreditou em algo que agora não é real. Eu vou falar sobre o meu lugar de fala. Durante anos, há muito tempo atrás, os negros eram impedidos de entrar em igrejas. Porque falavam que os negros não tinham almas, porque falavam que eles eram impuros, porque falavam que eles não poderiam pisar naquele lugar, entre outras coisas. Hoje, muitos desses discursos adaptados estão sendo usados por algumas instituições religiosas pra dizer contra as pessoas. Mas não estão te dizendo que o seu filho ou a sua filha quando veio falar pra você sobre a sexualidade deles é porque eles querem se aproximar de você.
“Ah, mas não precisa ser tão afeminado. Ah, mas não precisa ser tão masculina. Ah, mas pra que usar essa roupa? Mas agora está querendo se vestir de mulher? Mas agora quer ser drag? Mas é trans? Mas é não-binário? Eu não entendo nada disso. Eu não sei como viver ao lado de pessoas que eu não sei quem são. Eu não fui preparada pra isso”.
Aí é que está. A gente tem a oportunidade de viver essa vida e entender que essa vida é uma vida de aprendizado. Nunca é tarde para aprender.
Olha que bonito quando você vê várias pessoas mais velhas indo pra escola, aprendendo a ler e a escrever com 60 anos. E você com a idade que tem, independente de ser muito mais velha ou muito mais nova, tem esse bloqueio no seu ser. De não entender o que está acontecendo de novo na vida do seu filho ou da sua filha. Apenas aceite. Procure grupos de pessoas que já passaram pelo que você está começando a passar. Não aceite respostas fáceis. “Ah, mas Deus não gosta. Deus não quer. E isso é pecado, é abominação”. E expulsa de casa. Não aceite esse tipo de resposta. Porque esse tipo de resposta só fará com que seu filho ou a sua filha se afaste de você. Existem muitos LGBTs que, por conta da não aceitação dos pais, entram num turbilhão muito grande de depressão, de confusão mental. E isso faz com que ele entre em um buraco muito fundo e acabe não conseguindo sair. E aí é muito fácil a igreja chegar e falar que é um demônio. É muito fácil a sua amiga da igreja chegar e falar que tem espírito na casa. É muito fácil você acreditar que você não foi um bom pai ou uma boa mãe, quando na verdade o erro está ali, oh, naquele momento que você não aceitou o seu filho. Naquele momento que o seu filho esperava um abraço seu. Não fala nada se você não souber o que falar. Mas dê tempo ao tempo, que o tempo é nosso aliado.
E o tempo está mostrando que, se você quiser, você consegue aprender. Olha o tanto que a gente evoluiu como sociedade. Olha o tanto que a gente evoluiu como seres humanos. Não me diga que você em alguns anos não conseguiu compreender que o seu filho não mudou, que a sua filha não mudou. E que o seu filho ou a sua filha, por gostar de outra pessoa e querer dividir isso com você, nada mais quer do que dividir a vida dele com você. Se por acaso um dia eles começarem um relacionamento, eles vão querer que eles conheçam o frango frito da mãe, a saladinha da mãe, ou o feijão que a mãe faz, ou o brigadeiro, ou o bolo. Sei lá. A piada que a mãe conta. Tem tanto de vocês neles. Tem tanto de você, mãe, na sua filha, no seu filho, que ele leva pra esses relacionamentos que eles têm. Seria tão interessante se a gente fizesse essa troca com vocês.
Então, esse é o meu desejo nesse Dia das Mães. E essa é a minha conversa com vocês, mães. Pra que vocês possam se aproximar cada vez mais dos seus filhos. E não deixe que nenhuma igreja, que nenhum pastor, que nenhum líder religioso ou até presidente faça com que você se afaste do que você tem de mais precioso na sua vida. Que é essa vida que você gerou. Ou, se você não gerou, se você adotou, se você cuidou. Ou se você tem ele como filho ou filha, que não se afaste de quem te ama de graça. Porque a gente, nós LGBTs, nós temos muito medo desse tal amor incondicional. Porque, para nós, existe uma condição. “Se você for LGBT, eu não te amo mais”. Então, vamos transformar esse amor incondicional em, realmente, incondicional? Quando você terminar de ver esse vídeo, abrace aquele que te mostrou e passe adiante. Passa para aquela sua amiga, passa pro grupo de WhatsApp. Passa pro grupo do condomínio, passa pras amigas da igreja. Eu não estou pedindo aqui pra você negar a sua fé, mas não perca a fé no seu filho ou na sua filha só porque ele é LGBT. Tá bom? Agora, pra você filho e filha que deixou esse vídeo rodar até o fim, passou pra sua família… Antes de passar pra eles também ou depois, peça pra se inscreverem nesse canal. Tá bom? Beijão. Feliz Dia das Mães!