Eu sempre pensei que eu o que fazia era normal, uma forma de reagir no mundo ao meu redor. Eu nunca tive expectativas altas e nem fui uma pessoa que pensava em coisas grandes. Sempre quis ter o mínimo e querer o mínimo. Minhas visões de mundo não eram nada mais do que apenas gotas de vontade e eu vivia em plena combustão entre o ar da vida e o chama do viver.
Eu não entendia como as coisas não poderiam dar certo, já que elas eram o que eu queria, mas eu sempre quis o básico, o fácil e o seguro. Eu nunca quis algo que fosse longe da minha rede ou longe do alcance dos meus braços. Eu apenas estendia o braço e pegava. Era fácil. Mas não ideal. Eu sempre tive o controle de tudo pois eu não arriscava nada. Era sempre em direção ao fácil.
Minha vida é fácil, é boa e é divertida, porque eu tenho controle sobre ela, mas quando as coisas saem do controle eu não consigo lidar e isso me gera frustração e frustração é algo que eu não sei lidar. Eu estive em um relacionamento perfeito, pelo menos pra mim, pois era fácil e bom estar nele. Porém eu não percebi o quanto toxico e ruim era essa minha atitude de apenas ser o básico. Eu dava amor e recebia amor, porém eu não dava nada além disso. Eu dava carinho e compreensão, mas nada além disso. E eu não percebi que isso era o que estava matando e quando eu percebi que o que estava fazendo começou a sair do alcance dos meus braços eu me frustrei e me deprimi.
Eu não sabia até ontem como era o sentimento de frustração e como ele agia em mim até perceber isso. Eu não estou no controle. Isso me assusta, eu me sinto um jovem Suricate na savana descobrindo que há mais coisas além da minha toca quentinha e segura. Eu me orgulhei por muito tempo sobre ter o controle de tudo, de saber exatamente o que eu deveria fazer e como fazer, sobre ler pessoas e sobre ler situações. Mas tudo isso estava em uma redoma criada por mim, pois eu tinha essa visão por segurança e não por algo construtivo.
Talvez alguns anos antes, se essa visão e entendimento sobre as coisas tivesse acontecido algumas coisas pudessem ter sido evitadas, mas eu não posso me martirizar por algo que eu não sabia e ninguém me avisou. Mas a culpa é minha. Eu que construí esse universo onde eu sou um grande Sol e tudo está ao alcance de meus braços apenas por conveniência e não por sabedoria. Eu condicionei meus relacionamentos à isso, condicionei meu trabalho à isso, condicionei a minha mente e coração à isso.
Revendo tudo isso e comparando meu comportamento, eu percebi que as minhas fases isoladas não são de fato necessidades genuínas de mim e sim uma autodefesa para um sentimento que eu nem se quer sabia que sentia. Quando eu entro no "oceano" para poder pensar, na verdade eu apenas estou me isolando do problema e não combatendo. Agora isso me parece frustrante.
Eu gostaria de poder voltar alguns anos pra poder evitar isso, mas não tem como, e como já disse, tá tudo bem. Mas eu percebo que eu fiz mal as pessoas sendo assim, criei laços onde talvez, eu tenha sido rude e uma má pessoa, mesmo sem saber de estar sendo. E pensar isso é algo estranho, porque parece que eu estou descobrindo agora como é estar fora da minha toca.
Isso me faz pensar, como será que são as minhas amizades? Devo confessar que é tentador me desligar de tudo e todos e recomeçar, pois com quais olhos irei olhar nos olhos deles? Com quais palavras irei me comunicar e com qual mão irei tocar? Eu sinto que devo à eles uma versão real de mim, mas como vou dar uma versão real de mim se tudo o que eles conhecem é o a minha versão controlada e fácil?
E quando digo fácil, não é fácil de lidar e sim fácil para mim ser aquilo. Eu gostaria de recomeçar as coisas, mas na vida não existe isso e eu tenho que lidar com esse novo sentimento de frustração. Isso faz parte de ser Eu. Penso que eu gostaria de contar isso para algumas pessoas, e pedir perdão. Porém, isso iria surtir efeito algum, pois alguns danos já foram feitos e tem coisas que não tem volta.
Eu percebi agora que eu perdi muitas oportunidades de experiencias apenas por elas estarem longe da minha zona de conforto e facilidade.
Ontem eu dormi pensando em como esse sentimento agora novo se parece um grande buraco negro e tudo o que era familiar pra mim começa aos poucos não ser mais. E eu percebo que todos os meus inimigos sabem quem eu sou e sabem o meu nome, embora isso não represente perigo algum.
Hoje eu acordei com o Sol e continuei e ainda estou e ainda ficarei meditando sobre esse novo ciclo, sobre essa nova ideia. Julgando cada atitude minha, mas não todas, apenas as que vierem na minha mente, porque eu acredito que o foco não é olhar pro passado e lamentar a minha falta de tato e sim olhar para lá e buscar o motivo, para que no futuro eu seja mais eu.
Talvez seja hora de eu ir molhar meus pés no mar e pensar em novos passos e novas ideias. Eu não sei como vai ser daqui pra frente, apenas acho que deverei mudar e me curar. Mas com total certeza irei me desligar das coisas que o ego me trouxe como armadilhas e como recompensas vazias.
Escrevo isso frustrado, agora sabendo que estou, porém não triste, aliviado. Agora eu entendo e sei onde eu tenho que ir e o que posso fazer. A frustração, em mim, não foi uma espada que atravessa o meu coração e sim um halo de iluminação.