Hoje, será o fim! Hoje nem este falso silêncio dos meus gestos malogrados debruçando-se sobre os meus ombros nus e esmagados! Nem o luar, pano baço de cenário velho, escutando a minha prisão de viver a lição que me ditavam: - Menino! acende uma vela na tua vida, que o sol, a luz e o ar são perfumes de pecado. Tem braços longos e tentadores – o dia! - Menino! recolhe-te na sombra do meu regaço que teus pés são feitos de barro e cansaço! (Era esta a voz do papão pintado de belo na máscara de papelão). Eram inúteis e magoadas as noites da minha rua... Noites de lua que lembravam as grilhetas da minha vida parada. - Amanhã, terás os mestres, as aulas, os amigos e os livros e o espectáculo da morgue morando durante dias nos teus sentidos gorados. Amanhã, será o ultrapassar outra curva no teu caminho destinado. (Era esta a voz do papão que acendia a vela, tinha regaço de sombra e velava as noites da minha rua e a minha vida e pintava-se de belo na máscara de papelão). Hoje, será o fim! Hoje, nem a sombra do que há-de vir, nem os mestres, nem os amigos, nem os livros, nem a fragilidade dos meus pés feitos de barro e cansaço! Todas as minhas revoltas domadas, todos os meus gestos em meio e as minhas palavras sufocadas terão a sua hora de viver e amar! Hoje, nem o cadáver a sorrir na morgue, nem as mãos que ficaram angustiosas, arrepiadas no seu medo de findar! Hoje, será a mais bela noite do mundo! ____________________________ Fernando Namora, in 'Mar de Sargaços' ____________________________ 📷©Guto De Ramos (em Capanema, Pará)














