Preencha o juramento antes de continuar: em nome da Excalibur, HAGAN HOFFERSON em seus VINTE E QUATRO anos, jura seguir o legado de SOLUÇO E ASTRID durante a sua estadia na Academia dos Legados. Com a sabedoria concedida a ele, deve se manter caminho da luz enquanto conclui o MÓDULO II. Com a bondade tocada em seu coração, recebe DETERMINAÇÃO e não se permite ser corrompido pela DISTRAÇÃO. Por último, é deixado um corte na mão de ALEXANDER LUDWIG como prova de seu comprometimento com a luz.
HABILIDADE MÁGICA: CONVERSÃO CORPORAL ELEMENTAR - Capacidade de transformar seu corpo nos quatro elementais naturais: água, ar, fogo e terra. Conforme sua habilidade aprimora e ele domina a forma, esta sofre uma pequena mutação para comportar a nova potência. O fogo se condensa em lava, assim como a água em gelo. A pedra fica mais dura, tornando firme feito aço e o vento cria mais dobras e o tufão nasce. Os limites permanecem no clássico tempo x cansaço.
OCUPAÇÃO: Ajudante honorário na Caverna dos Dragões (Moors), treinado no dojo Raging Fire.
SOBRE:
Era uma verdade universalmente aceita que um filho nascido entre duas crianças estava fadado ao esquecimento. Sempre comparado com o mais velho, nunca tão fresco quanto o mais novo. O preenchedor de lacunas, o que dizia ter liberdade só porque estava longe de ser o mais importante do bando. Sabemos onde essa ladainha vai e quão tóxico pode ser o final dessa história (afinal, o índice de vilões nessa posição na família é enorme! perdendo apenas para os órfãos). Bem, é verdade que Astrid só saiu de perto dos dragões quando as contrações estavam rápidas demais para manter o trabalho nas escamas. E que, basicamente, colocou o menino numa bolsa canguru entre os seios e voltou a trabalhar entre os répteis alados. Soluço não se opondo de primeira, preferindo deixar seu momento quando os dragões enlouqueceram e a passagem da guarda caiu em seus braços. Hagan conseguia colocar o braço para fora e, nesse curto momento, os dragões percebiam e se eriçavam, querendo tocá-lo com o focinho escamoso.
Não chegava a ser um descaso, não era esse o sentimento da família, mas Hagan era um filho do meio. E filhos do meio tinham um papel a cumprir, um lugar para desenvolver.
Só que... Soluço e Astrid, nessas primeiras semanas de adaptação a uma nova criança na casa, deram a lição que impediu o loirinho a cair naquele lugar comum.
E é assim, meus amigos, que Hagan Hofferson não foi avisado de que tinha um scrip para seguir.
Primeiramente, (boa noite) Hagan tinha um dragão. Criança pacotinho de um lado, ovo duro feito pedra do outro. Aquecidos e sempre girados feito espetinho para crescer sem grudar nas bordas. O dragão eclodindo quando o Hofferson manteve os olhos abertos pela primeira vez. Paixão à primeira vista? Bem, tinha que ser. Só tinham um ao outro de companhia quando o evento aconteceu, e o dragão o marcou como dono porque... Olha, vocês vão ver mais para frente, mas é muito difícil argumentar quando aqueles olhos azuis estão focados nos seus.
Segundamente, esse pequeno viking sempre foi pequeno, tanto que gerou muita preocupação aos pais quando os filhos mais novos de seus amigos ultrapassavam em altura e desenvolvimento. Hagan brigava para chegar nos lugares mais altos dos ninhos, o dragão sempre o ajudando na disposição de seus membros para apoio, mas... Algo sempre faltava. Foi aí que começou uma certa super proteção, e que foi aceita mesmo com a frustração elevada ao máximo. Quando a mais nova nasceu, pareceu melhorar um pouco, afinal, a existência de alguém para também participar desse círculo, acalentava seus simples sentimentos.
Terceiro e último arco de redenção, as duas cresceram, seus dragões era belezas escamosas compridas. A cabeça de Hagan era quase um amuleto da sorte de tanto que era esfregada e alisada. Sua altura não cooperava, tampouco o equilíbrio e a coordenação motora. Soluço incentivou a entrar no dojo Ranging Fire e só tornou ainda mais dolorosamente evidente a inaptidão do único filho homem. Nos esportes? Nas habilidades? Tinha alguma coisa errada! Alguém não podia ser assim e seguir como se nada estivesse acontecendo. Porém, mesmo com essa problemática toda, Hagan não caiu no esquecimento. Não era o coitado da família. Porque tinha na família o apoio, tinha nas irmãs um porto seguro. Cada falha, tinham mãos para levantá-lo, cada dificuldade uma voz uma ordem para seguir em frente. Um dragão não tinha ajuda do mundo para ser quem era, eram taxados de destruidores, mas estavam ali. Bem ali, debaixo da escova e mergulhados em água da fonte, brincando e sendo cobiçados pelo resto do mundo. A lição de Astrid e Soluço não moldavam mais um para o futuro, mas alguém a ser lembrado.
O quarto ponto não foi tão surpreendente em questões práticas, porque era algo que todo mundo deveria lembrar e que acabou caindo no esquecimento. Há uma coisa chamada puberdade e ela bate com força os meninos. Hagan, meus queridos, foi nocauteado. Derrubado no tablado, empurrado do precipício, sofrendo ao ponto dos ossos e juntas doerem. Ninguém sabe ao certo o que provocou (porque foi um pouco tarde) ou quando ia terminar (dizer que foi o dobro é uma piada), só que Hagan saiu numa viagem com os tios e voltou largo como um viking no ano seguinte. Não, não teve magia envolvida e não, não foi uma benção dos dragões. Foi... Uma mudança de ares, um tirar de estresse dos ombros e comida viking raiz. Quase não foi reconhecido, quase, porque os mesmos olhos azuis encaravam orgulhosos os outros que estavam espantados.
E agora, rapaz, o quarto ponto foi quase um felizes para sempre, porque tudo pareceu se encaixar com perfeição. Aqueles pés enormes combinavam melhor com a altura, o lado de dentro foi aberto e exposto para que todos pudessem ver. Hagan já era um rapazinho divertido e animado, um pouco tímido e meio desengonçado. Mas agora? Evoluído e nos trilhos certos? Era muito melhor. A confiança permeou seus movimentos, o cérebro pareceu processar melhor as informações. E tudo uma questão muito simples de reorganização de prioridades. Quem nunca tinha perdido a cabeça com um problema lá no fim do túnel e não soube lidar com os menores do dia seguinte? Um problema de cada vez, um passo de cada vez. Resolvendo conforme seguia, aproveitando cada segundo ao máximo. Achou-se no cuidado dos dragões e ajudava onde pudesse com sua força física. Entrar para a academia foi um passo mágico de bater as palmas, a Excalibur cortando sua mão e Merlin tendo que pular para trás com as chamas que explodiram da pele do Hofferson. Sua excitação tão grande, o entusiasmo brilhando, que entrou em combustão. Ou melhor, virou fogo puro. Passou uma semana sem poder frequentar as aulas até a oportunidade aparecer e conseguirem enfiar o anel anulador de poder no dedo de Hagan. Os outros elementos vieram depois e assim como dominava os módulos, Ele melhorava seu controle sobre o próprio corpo.
Ui. Muita coisa em pouco tempo, mas... O que podemos fazer? Hagan agora tem problemas normais de adolescente tardio como: dragões temperamentais voando fora da caverna, explosões ocasionais de emoção e sem querer entrando pelo ralo. O futuro ainda é muito incerto, ele ainda não sabe se segue a carreira ‘política’ da mãe ou se aventura num ramo diferente... Ainda é muito cedo para colocar um script para o filho do meio dos Hoffersons.
Então tudo tinha se tornado um sentimento não correspondido? Delilah precisou arrancar o anel anulador de sua mão para voltar sua habilidade contra si, porque ela quis chorar e tudo que menos poderia fazer alí era chorar mais ainda. Era daquela forma que a única história de amor da vida dela iria acabar? Já iria voltar para o banco esperar por ele ir embora para poder chorar com Cosmos só sobrevoando acima, quando percebeu a troca no tom de voz, e que haviam partes dele que realmente estavam trocando de cor, de forma, de material. Sua habilidade estava a dizendo que alí era a demonstração da verdade, Hagan agora a dizia que deveria dizer algo para ela, mas a verdade era outra. Sua cabeça estava dolorida por estar usando a própria habilidade contra si para secar suas lágrimas e tentar não demonstrar quanta raiva estava tendo do destino. Pelo Coelho, ele tinha tido um relacionamento assim depois dela?! Ela iria matar essa Roxanna com toda a fúria da probabilidade, e foda-se que ela era irmã do fodido do salvador. E, pior, se sentia culpada. Tudo isso, tudo, poderia ter sido evitado e por ela, ela só precisaria falar três palavras. — Hagan — disse quando sentiu segurança que sua voz não estaria embargada e voltou a se aproximar, mas agora para um abraço rápido, para dizer algo que sentiu ali que deveria falar. — Eu sinto muito por não estar por perto quando você precisava. Agora… voltei? Se você quiser — disse quase contra sua bochecha, sussurrado, logo dando alguns passos para trás e segurando em sua mão com o cumprimento que havia ficado ali. — Delilah Hopps. A garota que está curiosa para saber como é que o maluco do Soluço não me contou que tinha um filho que virava pedra, e já me fez fazer uma bomba de lava? Você vira outras coisas? Dói? Se você virar todo de pedra, você para de se mexer? Você preserva a sua consciência? Juro que são perguntas em nome da ciência e nada mais.
Confusão não começava a definir o que acontecia e Hagan não encontrava palavras melhores para usar. A cabeça confusa e dando nós seguidos, torcendo de tal jeito que, de alguma maneira, sua trilha de pensamentos encontrou um caminho que parecia fazer sentido. Sentimento de familiaridade. Cair numa rotina conhecida e confortável, como... Como andar de dragão depois de um ano confinado ao chão. O Hofferson do meio nem ousava voltar àquela época pela quantidade de problemas que se submeteu por erros do passado. “Tudo bem, tudo bem. Não é como se eu fosse... Você conhece a minha cabeça-dura.” Ficou ali, naquele argumento, porque os e se não o teriam levado a ficar com outra pessoa além de Delilah. E pelas cauda robusta de seu dragão, não existiriam outras depois dela. Hagan balançou a cabeça e afastou o pensamento, usando o movimento até para dispersar o calor do corpo dela contra o seu. Da vontade de devolver o afeto um pouco mais afetuosamente. Levou as mãos para frente do corpo e deixou o poder fluir, subir pelos pulsos, envolver os cotovelos e se perder por baixo das mangas da camisa. “Não só pedra e papai não vê muito porque não uso toda hora. Ele geralmente está na Academia quando eu lido com os dragões mais selvagens. Hmm, uma pergunta de cada vez, tá bom? Não, não dói. E consigo muitas coisas e é um processo lento. Comecei com pedra, depois fogo e água. O ar não gosto muito, fico muito disperso. No momento, além desses, consigo gelo e aço; querendo muito o diamante e proibido terminantemente o de lava.” A transformação em pedra estava quase completa, faltando apenas o pescoço para cima. Hagan estalou os dedos, um ruído característico de pedra contra pedra, e finalizou o processo. “Como pode ver, mantenho todas as minhas faculdade físicas e mentais.” A pedra ficou mais firme, mais compacta, alguns pontos adquirindo brilho e aumentando, criando a réplica perfeita do herói non-maj Colossus. “Agora você poderia tirar uns minutos do seu precioso tempo para me explicar esse seu poder? Previsão de probabilidade? Seriously girl? Eu vou ganhar todos os sorteios de loteria a partir de hoje?”
A teimosia do pé em agitar-se contra o chão era fruto da mente cheia de Hagan Hofferson. Subindo e descendo, movimentando a perna tensa, balançando o corpo inteiro. Seus antebraços sobre os joelhos, ombros comprimidos em nós invisíveis, e a cabeça pendendo para frente. Não tem nada que você possa fazer, Hagan. Era o que se repetia sempre que caía naquele lugar perigoso, difícil de sair. Calma, não difícil por ter sentimentos conflitantes... Quem estava tentando enganar? Mentir para si mesmo era o mesmo que atirar seu machado contra o próprio pé. Ora, quem lutava para manter uma amizade e desistia com facilidade? Que ainda se sentia culpado por falar o que carregava no peito, a verdade entalada e raiva comprida? Acumulada e feita crescer pela dificuldade de se expressar? O som da coruja o tirou dos devaneios, apenas o rabo do olho para ver que pousava por perto. E que a dona estava logo atrás. Assim como ela, sua cabeça se manteve baixa para não olhá-la nos olhos. “Eu lido com dragões, não é como se eu estivesse preocupado.” Comentou sem humor, a voz monocórdia e rouca pelo desuso. As irmãs gostavam de pegar no seu pé por isso, de que a voz ficava assim de propósito, para pegar garotas. Ou como Lia ria e brincava: você é transparente demais, Hagan! O Hofferson do meio acenou positivamente à pergunta, a voz saindo tão baixinho que podia ser interpretada por um resmungo. “E eu consigo virar pedra antes que ela saia do galho.” A grama amassada pelos sapatos cobria as pedrinhas abaixo. Merda. Tinha tanta atenção no chão que podia começar a contar cada lâmina verde, cada torrão escuro de terra. Assim que se sentou, o treinador de dragões levantou. “Já estava de saída de qualquer jeito.” Acenou uma despedida, a agonia de sair maior do que o comprometimento de não se deixar influenciar pelo o que tinha prometido não interferir.
— Não — foi sua resposta imediata, porque ela nunca iria conseguir se perdoar. Ela só queria dizer aquilo. Pedir desculpas pela própria burrice mesmo sabendo que não deveria ser perdoada. Na verdade, ela não queria se perdoar. Aproximou-se dele aos pouco, cortando a distância como se estivesse se aproximando de um próprio dragão até que ele veio de novo com aquilo deles serem amigos de novo. — You’ve gotten so fucking tall, it’s kinda annoying — sussurrou com uma risada soprada antes de segurar a mão maior e encostá-la contra o peito, contra o coração completamente enlouquecido como toda vez que os dois estavam próximos. — Sente isso — derrubou suas muralhas porque não queria que ele lhe pedisse aquilo de novo sem que soubesse o porquê dela não conseguir atender. Ele poderia lhe pedir tudo, menos isso. Quando só se aproximarem, seu coração entrava em curto e chegava a doer contra seu peito — Eu já te disse, não me pede isso, por favor — Seus olhos buscaram os do outro com um sorriso derrotado. Ela, naquele momento, só queria que ele soubesse o porquê de seu peito chegar a tremer um pouco — Eu não iria aguentar ser sua melhor amiga enquanto eu morro de inveja da sua namorada porque… ela tem o posto que eu queria ter — a outra mão foi até o rosto dele o puxando de leve para si — Eu… Tentei… Ok? Talvez agora, com você sabendo, eu consiga esquecer… superar… essa parte e a gente consiga ser amigo de novo, mas eu não consigo agora. Eu preciso de tempo. Posso voltar para a sua vida, mas… — separou-se com um passo para trás, olhando para os pés. Estava negando os próprios sentimentos de novo, parecia ser sua sina. — Não me peça para ser sua melhor amiga quando eu sou apaixonada por você a anos, porque eu não consigo. Pode dizer que é o que você quer para me perdoar, ou algo assim, mas eu não consigo — seus passos estavam vacilantes, sentia que poderia cair a qualquer momento e voltar a chorar porque a verdade era simples, sabia disso mesmo sem olha a probabilidade. Ela tinha o perdido no dia em que foi orgulhosa demais para dizer três palavras mesmo que elas estivessem entaladas em sua garganta, querendo sair. — Eu te amo e eu sempre vou te amar, mas eu sei que eu te perdi, pelo menos desse jeito, então não vou pedir para você voltar comigo ou algo assim. Só… eu posso voltar para a sua vida, mas me dá um tempo para voltar do jeito que éramos antes de tudo, ok?
A primeira reação de Hagan foi resistir à puxada, os músculo travando no lugar ao esconder dentro dos bolsos. Mas, assim que tinha percebido a reação, afrouxou os tendões e se deixou levar; a mandíbula tensionando quando o lugar escolhido era próximo demais de uma boa fofoca. Manteve os dedos para cima, abertos para encaixar as saliências do pescoço de Delilah. Embalado pelo peso que queria fugir, a cabeça do Hofferson cedeu mais alguns centímetros. Os olhos semicerrados para tanto prestar atenção no que era dito tanto para se manter em controle. Deslizando naquele limite que tinha esquecido que existia, ele prosseguia com cautela ao engolir em seco e tentar não passar além dos batimentos. Conte-os. Os números se sucedendo à força, ignorando sensação de pele e proximidade, ancorando-o com a imagem da loira de olhos atrevidos da namorada. Você sabe o que está em jogo, do que saiu. Mas se via tentando pensar no futuro, em qual seria o próximo passo agora que se via obrigado a olhar mais adiante. “Roxanna era minha namorada antes de Sol e ela não era muito... boa. Eu estava completamente apaixonado por ela e não enxergava, nem ouvia, o que falavam para mim.” Uma filha de Branca de Neve conhecida pela personalidade frívola e maldosa, mas que Hagan tinha passado o pano por conta de uma paixão instantânea. Às vezes ele se perguntava se tinha sido real aquela relação inteira, porque bastou sair para ver no problema que tinha entrado. “Sol me fez ver quem ela era, o que ela estava fazendo comigo, e me ajudou a dar o troco. A Sol aceitou ser minha namorada para... Eu gosto da Sol.” Atrapalhava-se no resumo da história porque ela tinha se complicado recentemente, quando trocaram a vingança para algo mais rebelde nos tabloides. “O que eu estou tentando dizer é que é complicado. Complicado demais e eu não sei o que fazer. Pedi para ser minha amiga porque eu sei o que fazer com isso, não com o...” Fez um gesto vago englobando Delilah, a garganta apertando com o sentimento exposto tão cru e sem rodeios, arrebentando bem no nariz do Hofferson. “Não sinto o mesmo que você, Delilah.” Falou baixo, mais para si do que para a outra - a voz mesmo que alta para que ambos ouvissem. E as mãos que Hagan mantinha escondidas, tanto dentro do bolso quanto fechada em punho, revelaram-se em pontas dos dedos transmutadas em pedra. “Era o que eu deveria ter falado, mas seria uma mentira.” Acrescentou. “Eles não me deixam mentir.” Um sinal, um ‘defeito’ do poder que não aceitava mentiras. A pedra orgânica subindo pelas falanges e parando no meio do dorso, ela agora metade luva cinza escura. “Nós poderíamos começar de novo...? Do início. Sem cobrança de-.” Trocou o peso dos pés e soltou um suspiro pesado, o xingamento de sua língua saindo no meio do fôlego. Hagan, quando levantou o rosto, tinha um olhar de incerteza quando estendeu a mão. “Olá, eu sou Hagan Hofferson.”
A teimosia do pé em agitar-se contra o chão era fruto da mente cheia de Hagan Hofferson. Subindo e descendo, movimentando a perna tensa, balançando o corpo inteiro. Seus antebraços sobre os joelhos, ombros comprimidos em nós invisíveis, e a cabeça pendendo para frente. Não tem nada que você possa fazer, Hagan. Era o que se repetia sempre que caía naquele lugar perigoso, difícil de sair. Calma, não difícil por ter sentimentos conflitantes... Quem estava tentando enganar? Mentir para si mesmo era o mesmo que atirar seu machado contra o próprio pé. Ora, quem lutava para manter uma amizade e desistia com facilidade? Que ainda se sentia culpado por falar o que carregava no peito, a verdade entalada e raiva comprida? Acumulada e feita crescer pela dificuldade de se expressar? O som da coruja o tirou dos devaneios, apenas o rabo do olho para ver que pousava por perto. E que a dona estava logo atrás. Assim como ela, sua cabeça se manteve baixa para não olhá-la nos olhos. “Eu lido com dragões, não é como se eu estivesse preocupado.” Comentou sem humor, a voz monocórdia e rouca pelo desuso. As irmãs gostavam de pegar no seu pé por isso, de que a voz ficava assim de propósito, para pegar garotas. Ou como Lia ria e brincava: você é transparente demais, Hagan! O Hofferson do meio acenou positivamente à pergunta, a voz saindo tão baixinho que podia ser interpretada por um resmungo. “E eu consigo virar pedra antes que ela saia do galho.” A grama amassada pelos sapatos cobria as pedrinhas abaixo. Merda. Tinha tanta atenção no chão que podia começar a contar cada lâmina verde, cada torrão escuro de terra. Assim que se sentou, o treinador de dragões levantou. “Já estava de saída de qualquer jeito.” Acenou uma despedida, a agonia de sair maior do que o comprometimento de não se deixar influenciar pelo o que tinha prometido não interferir.
Seu coração foi arrancado de seu peito quando ele se levantou. Uma dor tão súbita que a única reação que teve foi uma frase que tinha se imaginado falando várias vezes pelos últimos dias. — I’m so fucking sorry — Saiu mais alto do que o sussurro que ela tinha se imaginado falando. Saiu como uma súplica embarcada com ela abraçando as pernas porque tudo doía. Até respirar doía. — Eu… acredito em você, ok? Easton confirmou tudo, e eu não acredito que eu não percebi. Como eu fui tão idiota? Eu sinto muito, de verdade. Agora, bem… — gesticulou para si e para ele e sentiu as lágrimas caindo de seus olhos antes mesmo que conseguisse, ou quisesse impedir. — Eu sinto muito por não ter conseguido falar com você, por não ter te falado os sentimentos que eu tenho por você e ter deixado alguns idiotas te contarem que você não me merecia, quando a verdade era o contrário, por não ter entendido a situação sobre a viagem, por não ter tentado entender nada e ter machucado você porque eu fiquei parada com a merda da minha bunda no chão esperando que algum ato astronômico acontecesse para me forçar a isso, porque, a verdade? Eu ‘tava apavorada — mordeu o lábio inferior sentindo o gosto salgado das lágrimas ali. — Eu não sei se isso vale de nada. Eu não sei se você quer esquecer que eu existi na sua vida. Você não precisa me perdoar, ok? Na verdade, você não precisa fazer nada, eu só… eu não iria me perdoar se não falasse isso, em nome do que já fomos um para o outro.
Travado sobre os calcanhares, o corpo inteiro entrando num pause forçado, Hagan sequer conseguiu ajeitar a postura. Ainda meio torto do ângulo para poder se levantar, ainda meio incerto do domínio sobre as próprias emoções para virar assim que ouviu o pedido de desculpas. O lábio inferior foi capturado entre os dentes, a força da mordida quase arrancando sangue. E era até bom não ter o rosto visto porque a mandíbula ficava tensa, os músculos em relevo ondulando por baixo da pele. Hagan soltou o ar da respiração que segurava sem perceber, a cabeça jogada para trás quando enfim ajustou a postura e suspirou. Deixou a tensão e o medo, e aquele sentimento ruim, saírem na lufada longa e contínua.
“Já se sente perdoada consigo mesma?” O filho do meio de Hipcup deixaria para outro momento a análise mais intensa dos significados ocultos. O implícito que não queria enxergar ainda, porque estava em outras circunstâncias, outros momentos, e não tinha sido para isso que voltou a procurá-la. “Por que foi a maior falta de educação de todas ter fechado a porta na minha cara! Eu poderia ter perdido um dedo, Delilah.” O tom meio raivoso ainda estalava, um sabor diferente no discurso de Hagan Hofferson, mas ao se virar... Ao se virar, o rosto já não tinha mais o peso do arrependimento e da incerteza. Uma hesitação, talvez, mas porque voltava a entrar num terreno que tinha sido queimado entre os dois. “E eu preciso de todos eles para manter aqueles dragões na linha.” Ameaçou, ousou puxar o canto dos lábios num sorriso lateral. O dar de ombros combinando com as mãos enfiadas nos bolsos da frente da calça. “Não estava brincando, Deli, de que quero você de volta na minha vida. E a vaga de melhor amiga ainda está aberta.” Muita coisa precisava ser reparada entre eles, fato, mas Hagan não gostava de confronto e se adiantava no conflito para não passar mais tempo do que o necessário.
Delilah seguia o voou de sua coruja com o olhar. Seus olhos azuis contra as estrelas que brilhavam acima da academia. Por quantos dias tinha chorado até dormir por conta das palavras de Hagan mesmo? Ele tinha razão, pelo amor do coelho, ele tinha razão, e ela era covarde o suficiente para estar com o anel anulado em seus dedos e ter um medo, não, pavor de encontrá-lo, ao mesmo tempo que queria encontrá-lo. Queria tanto encontrá-lo e dizer que sentia muito. Seus olhos quiseram se encher de lágrimas de novo, como sempre estavam fazendo quando ela tinha tempo para pensar no que havia ocorrido. Quis se distrair, tentar pensar em uma invenção mais recente, em algum produto que estava devendo como random master. Contudo, um pio de Cosmos a fazer correr na direção em que a coruja tinha voado, então a viu empoleirada logo acima de onde aquele que estava povoando seus pensamentos nos últimos tempos estava sentado. — Cosmos, for fuck's sake! — xingou sabendo que não tinha como chamar a atenção do pássaro sem que estivesse na linha de visão dele. A coruja não se moveu mesmo que ela a chamasse várias vezes, então Delilah percebeu o motivo: ela havia escolhido aquele galho em específico (que tinha certo disfarce, tinha que admitir) para observar o jardim e caçar, só sairia dali quando visse uma presa. — Ela não vai atacar você — disse sem ter coragem de olhá-lo diretamente, era algo trivial no lugar do que deveria falar, sabia disso. — E-Eu... posso sentar? — perguntou imaginando que ele poderia dizer que não, que poderia gritar com ela como havia feito quando ela fechou a porta na sua cara, que poderia sair de perto e simplesmente ignorá-la. Só que estava derrotada. Ela não queria brigar de novo, de verdade, não queria sentir como se seu coração estivesse sendo apertado só de olhá-lo nos olhos. Azul contra azul. — Só enquanto a Cosmos caça, se não quiser, tudo bem, eu entendo.
A teimosia do pé em agitar-se contra o chão era fruto da mente cheia de Hagan Hofferson. Subindo e descendo, movimentando a perna tensa, balançando o corpo inteiro. Seus antebraços sobre os joelhos, ombros comprimidos em nós invisíveis, e a cabeça pendendo para frente. Não tem nada que você possa fazer, Hagan. Era o que se repetia sempre que caía naquele lugar perigoso, difícil de sair. Calma, não difícil por ter sentimentos conflitantes... Quem estava tentando enganar? Mentir para si mesmo era o mesmo que atirar seu machado contra o próprio pé. Ora, quem lutava para manter uma amizade e desistia com facilidade? Que ainda se sentia culpado por falar o que carregava no peito, a verdade entalada e raiva comprida? Acumulada e feita crescer pela dificuldade de se expressar? O som da coruja o tirou dos devaneios, apenas o rabo do olho para ver que pousava por perto. E que a dona estava logo atrás. Assim como ela, sua cabeça se manteve baixa para não olhá-la nos olhos. “Eu lido com dragões, não é como se eu estivesse preocupado.” Comentou sem humor, a voz monocórdia e rouca pelo desuso. As irmãs gostavam de pegar no seu pé por isso, de que a voz ficava assim de propósito, para pegar garotas. Ou como Lia ria e brincava: você é transparente demais, Hagan! O Hofferson do meio acenou positivamente à pergunta, a voz saindo tão baixinho que podia ser interpretada por um resmungo. “E eu consigo virar pedra antes que ela saia do galho.” A grama amassada pelos sapatos cobria as pedrinhas abaixo. Merda. Tinha tanta atenção no chão que podia começar a contar cada lâmina verde, cada torrão escuro de terra. Assim que se sentou, o treinador de dragões levantou. “Já estava de saída de qualquer jeito.” Acenou uma despedida, a agonia de sair maior do que o comprometimento de não se deixar influenciar pelo o que tinha prometido não interferir.
Delilah desistiu. Agora ela realmente precisava de distância porque a verdade era que queria chorar. Encolheu as pernas forçando-o a deixá-la descer, mas ainda precisou se apoiar no corpo maior, pelo menos até a força voltar às pernas —Você não pode me pedir isso— sussurrou antes mesmo que conseguisse se frear, mordeu o lábio inferior olhando-o com pesar e tendo que usar todas as forças que tinha para que não chorasse. — Você não pode me dizer que quer voltar a ser meu amigo, sendo o cara que destruiu o meu coração — era essa afrase temida, a confissão de sentimentos que ela fora orgulhosa demais para fazer anos antes. — Eu… Eu te… Você foi meu primeiro amor, Hagan. Se você tivesse me pedido para te dar o mundo, eu daria um jeito de te dar. E eu sei, ok? Olhando para o passado agora, eu sei que só podemos culpar o fato que nós dois éramos dois idiotas imaturos, mas ainda machuca, entende? Você… Você me abandonou, eu sei que eu poderia ter fantasiado demais sobre nós dois, mas… sabe… machucou que você só me falou sobre essa viagem um dia antes. E o “não é como se eu fosse ficar sozinha”. Porque eu fiquei, eu queria meu melhor amigo e o cara por quem eu estava apaixonada por perto, e ele saiu de perto de mim na primeira oportunidade que teve achando que eu não o queria do meu lado — uma lágrima teimosa caiu de seus olhos e ela secou imediatamente, respirando fundo para evitar que mais caíssem, já tinha chorado demais por conta daquilo, não iria fazê-lo de novo. — Eu nunca zerei completamente a probabilidade da gente se encontrar. Sempre deixei uma parte, porque eu queria saber se você viria falar comigo, e é sério que, tendo o passado que a gente teve, eu tive que quase morrer nos seus braços para você ter coragem de falar comigo? — soltou uma risada fraca, quase incrédula e cambaleou até seu quarto por puro orgulho. Estava falando demais já. Aquele seria seu último ponto. — Eu não sei se consigo ter você na minha vida de novo, é essa a verdade — virou-se se segurando a porta para tentar falar a verdade. — A Lilah que era louca por você ainda existe dentro de mim, e seria… Como desrespeitar o que ela passou. Também, anos se passaram, você ainda consegue me reconhecer de verdade? Porque… — levou a mão ao peito e deixando só alguns dedos segurarem a porta. — Eu acho que o meu melhor amigo, e o garoto por que eu me apaixonei — soltou a porta prendendo o olhar no outro — Não existe mais — suas pernas vacilaram quando escutou a porta trancar, e deixou o choro que segurava cair de seus olhos como uma chuva torrencial.
Quando ainda era menor, Hagan gostava de passar tempo com o pai e ouvir suas histórias. De como ele era o mais franzino de todo o vilarejo e tinha sido responsável por trazer a paz entre humanos e dragões. De que não precisava da nada além do que carregava no coração para trazer a mudanças. “Hagan, a única certeza que a gente tem é o não. Cabe a nós nos resignar com ele ou lutar pelo sim.” E lá, naquela frase grudada no cérebro, o filho do meio dos Hofferson se via com Delilah. O não da pergunta já esperado por tudo o que tiveram, aquela esperança de que poderia conquistar o sim com algum esforço. Como estava errado. O cenho franzindo e a boca abrindo minimamente com o choque. “Destruir?” Confissão atrás de confissão sendo jogadas em sua cara e o atônito Hagan ficando ainda mais sem reação. Enxergando sem realmente enxergar, o poderio de tamanho e músculos servindo em nada quando o ataque não tinha defesa. E só ficava pior e mais confuso, a ponto dele menear a cabeça para o lado achando que a visão e o ângulo poderiam influenciar no entendimento. Porque... Porque não fazia o mínimo sentido. A acusação no fim sendo a cereja do bolo para o sangue que não sabia ter esquentado, ebulindo e fervilhando na onda ruborizada que subiu pelo pescoço. A voz voltando quando a porta foi trancada e ele avançou contra ela, o punho fechado arrancando um som oco de madeira rachando. Controle-se, a voz da razão pedia, mas não tinha poder ali. Hagan deu um passo para trás, para não quebrar, mas a voz... Essa estava bem alta. “Eu não sabia dessa viagem até um dia antes! Ninguém tinha seu poder na época que meus tios pediram ajuda com a criação de dragões na terra deles! Como você queria que eu prevesse? Como você queria que eu adivinhasse que gostava de mim desse jeito? Quando eu achava ser sorte demais ter alguém como você gostando de mim, quando vivia ouvindo que nunca seria alguém para você?” E Hagan teve sua cota daquelas comentários. Dos melhores amigos, das pessoas de fora, dele próprio. Cada beijo roubado e ‘de brincadeira’ com Delilah parecendo mais por pena do que qualquer outra coisa. Como se fosse obrigatório entre eles passar por essa experiência e salvar o outro da vergonha futura. “Éramos melhores amigos! Melhores! Amigos! Você sabia tudo sobre mim, tudo, e eu de você. Você- Eu não podia estragar tudo pensando em algo tão impossível.” Tão impossível que nem tinha passado por sua cabeça, não por muito tempo. Um pensamento de brincadeira, um e se fácil e descomplicado - completamente ilusório. “Eu viajei e avisei para todo mundo. Todo mundo teve o mesmo tratamento. Minha família, meus outros amigos, e olha só! Ninguém mudou comigo quando eu voltei. Só você. Deixar uma probabilidade? Como que adivinha isso? Deixar uma probabilidade, Delilah, e não falar nada é o mesmo que esperar que tudo aconteça enquanto fica sentado sem fazer nada. Porque eu voltei e eu olhei para você, tentei te procurar, e olha só como fui recebido.” Frieza e estranheza, o golpe tão grande que ele pecou em não procurar entender. Pecou, errou, mas não tinha achado a abertura. Não tinha visto a posição para conquistar de volta. “Então não me venha com o discurso de que eu mudei, que desapareci, quando é uma hipocrisia do carvalho quando não fui o único.” Um belo show, um excelente show realmente. “Vou atrás de alguma amiga sua para ver como você está. Uma boa noite, Delilah.” Quase esmurrou a porta de novo, mas não o fez. Lia e Hella provavelmente o espancaria se soubessem disso. Hagan apenas deu as coisas e saiu pisando duro, os ombros tensos da raiva que ainda não tinha dissipado.
“Você está fazendo, para com isso.” Sem mãos, Hagan apontava com o queixo para o franzido no rosto de Delilah. Era a mesma expressão que tinha visto quando amparou a outra na saída do castelo. “Porque, ás vezes, uma inteligência mais simples vale mais do que suas soluções complexas de três capítulos.” Só de pensar dava dor de cabeça e quase tinha certeza de que tinha herdado a praticidade do pai. Afinal, quem em sã consciência, acharia mais fácil domar um dragão a matá-lo? Resolver um problema não o considerando um problema? Hagan até podia se contradizer tentando usar ele como exemplo, mas graças às barbas bem aparadas de Merlin não precisava acrescentar mais nada em seu argumento. Em movimento, a calmaria voltava a permear os músculos. Só que… Ainda tinha o fator de não encaixe. De tentar colocar duas situações juntas e não saber como as peças poderiam formar o mosaico. “Lembrando quando- O último momento- Você-” Tomou um grande fôlego e soltou tudo num longo e pesaroso suspiro. Era mais fácil quando estava desmaiada, seus olhos não provocando comichão no queixo… Na face exposta daquele lado. Hagan deu uma olhadinha e voltou para frente, focado em não perder as entradas certas. “Não é como se nosso último encontro tenha sido normal para ter algo específico logo de cara para falar. E eu não- Você quase morreu agora, não é momento para assuntos sérios.” Balançou a cabeça em negativa, um cantinho da boca curvando em sorriso divertido. “O que aconteceu na sua vida foi comparar o tamanho dos seus contatos comigo?” Arrependeu-se assim que falou as palavras, os dentes castigando uns aos outro na fechada de mandíbula - tensa. “A minha não está muito agitada também. Os estudos e os dragões estão consumindo meu tempo.”
— Você… — “quer falar comigo?”. Não teve coragem de perguntar, porque se ele quisesse, Delilah não tinha coragem de ter essa conversa. — Hagan, eu te comparei com como você era antes. Já se viu no espelho? Parece que você engoliu o Hagan que namorou comigo enquanto viajava, eu tomei um susto quando você voltou — ela tentou parecer zangada e ferida, realmente tentou, mas como poderia quando tinha uma queda gigantesca como ele a tratava. O fato que sabia contorná-la instintivamente, um oposto complementar a uma mente que pensava demais para o próprio bem. Eis que uma risada fraca escapou de seus lábios, até chegando a esconder o rosto contra seu peito se divertindo um pouco com a situação em que tinha evitando tanto tempo de estar. O término deles havia sido culpa dela, sim, mas também havia o quanto ele tinha a machucado de uma vez só, e lá estava ela, rindo das idiossincrasias dos dois. Demorou um pouco para a racionalidade voltar, mas quando voltou, ela se deteve de imediato. Estava admitindo que tinha percebido quando ele voltou, não? Mesmo depois de todo o drama e de todos os assuntos mal resolvidos. A verdade era que ela nunca esteve muito longe, por mais que quisesse distância, ainda havia aquilo que a puxava para perto. — Você deveria me deixar no corredor dos dormitórios de Londres e ir embora — falou baixinho, porque a verdade era que não queria que ele fizesse isso, mas sabia que era o certo a se fazer. — Eu posso tentar manipular a probabilidade para que você esqueça meu quarto, pelo menos, se quiser, eu sei quanto… a gente, bem, é um assunto complicado — ofereceu o olhando, esperando para saber como ele responderia. Uma parte de si o queria furioso por oferecer isso, e outra queria que ele aceitasse, que ele demonstrasse que havia a superado. — Você tem uma namorada, não é? Você deveria estar com ela e suas irmãs agora e não aqui, carregando a garota que você namorou quando… você era magricela e… bem, eu ainda uso os mesmos óculos grandes daquela época, só que só no meu quarto. Pode… me por no chão, acho que consigo andar… usando você de muleta.
— Você… — “quer falar comigo?”. Não teve coragem de perguntar, porque se ele quisesse, Delilah não tinha coragem de ter essa conversa. — Hagan, eu te comparei com como você era antes. Já se viu no espelho? Parece que você engoliu o Hagan que namorou comigo enquanto viajava, eu tomei um susto quando você voltou — ela tentou parecer zangada e ferida, realmente tentou, mas como poderia quando tinha uma queda gigantesca como ele a tratava. O fato que sabia contorná-la instintivamente, um oposto complementar a uma mente que pensava demais para o próprio bem. Eis que uma risada fraca escapou de seus lábios, até chegando a esconder o rosto contra seu peito se divertindo um pouco com a situação em que tinha evitando tanto tempo de estar. O término deles havia sido culpa dela, sim, mas também havia o quanto ele tinha a machucado de uma vez só, e lá estava ela, rindo das idiossincrasias dos dois. Demorou um pouco para a racionalidade voltar, mas quando voltou, ela se deteve de imediato. Estava admitindo que tinha percebido quando ele voltou, não? Mesmo depois de todo o drama e de todos os assuntos mal resolvidos. A verdade era que ela nunca esteve muito longe, por mais que quisesse distância, ainda havia aquilo que a puxava para perto. — Você deveria me deixar no corredor dos dormitórios de Londres e ir embora — falou baixinho, porque a verdade era que não queria que ele fizesse isso, mas sabia que era o certo a se fazer. — Eu posso tentar manipular a probabilidade para que você esqueça meu quarto, pelo menos, se quiser, eu sei quanto… a gente, bem, é um assunto complicado — ofereceu o olhando, esperando para saber como ele responderia. Uma parte de si o queria furioso por oferecer isso, e outra queria que ele aceitasse, que ele demonstrasse que havia a superado. — Você tem uma namorada, não é? Você deveria estar com ela e suas irmãs agora e não aqui, carregando a garota que você namorou quando… você era magricela e… bem, eu ainda uso os mesmos óculos grandes daquela época, só que só no meu quarto. Pode… me por no chão, acho que consigo andar… usando você de muleta.
Ok, ele não tinha enxergado por aquela perspectiva. Não ainda com Delilah. A mudança de estatura foi tão abrupta para si quanto gradual, os dois sentimentos conflitantes fazendo sentido em sua cabeça. A família acompanhou de perto a transição e tiravam onde, brincavam mesmo que ele precisava sair o um pouco de casa para criar bolas. E a volta, o último ano passado dentro dos domínios da família, só o colocaram mais confortável naquela nova estatura. Hagan não era exatamente o tipo mais sociável quando era mais novo, não conhecendo muitas pessoas além dos relacionados da família. Foi como entrar na Academia como uma nova e melhorada versão, sem a estranheza da mudança repentina. “Tem vezes que eu vou escovar os dentes e me assusto com o cara no espelho, que nem quando...” A risadinha da lembrança com a ex-namorada ficando um pouco... Hagan mexeu os ombros e tentou continuar, insistindo que poderia ser uma normalidade entre eles (apesar de todos os pesares). “Para quem não conseguia criar uma barbinha rala, sou quase garoto propaganda de gilete.” Duas, três vezes no dia, dependendo do estado de espírito sobre os pêlos faciais. Era verdade que tinha desistido de deixar o rosto liso e por dois motivos bem simples. Nem sempre acertava a mão, se cortando e irritando a pele. E era tão claro seus fios, quase brancos, que um certo tamanho, em determinados ângulos, nem aparecia. Hagan fechou a expressão e ajustou-a nos braços, ocultando a raiva que preencheu as veias. Uma pena que não podia fazer nada contra o coração acelerado, não quando ela basicamente o tinha contra a orelha. “Essa foi a frase mais idiota que você já falou, Lilah. Não, as duas mais imbecis que já falou.” A voz trovejou, irritada, o Hofferson respirando fundo para se controlar. Reduzir a animosidade. “Lia fugiu com Bonito, todo mundo foge de Hella e ela está com o Fred. Minha namorada tem tantos admirados que, pela primeira vez, fico feliz em existirem. Garanti que estavam fora do salão antes de te resgatar.” O que era prioridade, sim, mas baseada no oportunismo. Hagan aproveitou a altura para fazer a varredura e já tinha o plano traçado para visitar cada uma de suas garotas quando garantisse a segurança da... ex. Seus pés ganharam confiança ao adentrar o dormitório de Londres. “Antes de ser minha namorada, você foi minha melhor amiga, Delilah. E, não sei para você, isso não mudou. Eu... Eu queria de volta, mas... Mas respeito se não for mais possível.”
☀ — › O revirar de olhos se dera de maneira inevitável, seu lábio ligeiramente franzido com um desgosto aparente. E não era nenhum segredo o quanto a Crystal detestava a nova namorada de @haagandazs. Assim, a mera cena da megera mulher tratando-o como um servo a sua disposição acarretou no ferver do sangue feminino. Certo que ela própria poderia ter hábitos um tanto quanto semelhantes, mas quem aquela descendente de coadjuvante pensava ser para tratar o Hofferson de tal maneira? O pior de tudo era que o loiro parecia cego a tais comportamentos - talvez distraído demais por um corpo quase atraente. No que dependesse de Apolline, porém, aquele relacionamento não duraria muito tempo. “Eu juro que esses treinamentos estão ficando cada vez mais pesados.” O tom manhoso acompanhava o ligeiro projetar do beiço em um bico ao se aproximar do loiro. “Sabe que eu não entendo por que me fazem lutar se eu pretendo administrar o império da minha família? E até onde me lembro, sapatos não são assassinos.” Ela continuou a resmungar, os dígitos alcançando um ponto de tensão em seu ombro, antes de se voltar para ele. “Está doendo tanto. Por favor, faz aquela massagem que eu amo? Só um pouquinho.”
Roxanne tinha um talento natural para descobrir onde Hagan estava e o Hofferson achava fascinante. Simplesmente levantar a cabeça e olhar naquela direção, a mesma que causava arrepios, e encontrá-la se esgueirando para chegar mais perto. Seu sorriso abria naturalmente e ele balançava a cabeça, reprimindo tanto esconderijo quanto algo que ele a teria convidado se pedisse. Agora? Ele passava a toalha com a inicial dos dois no rosto, a cor escura perfeita para esconder a sujeira que ia além do suor. “Se você não tentasse escapar de todas as aulas físicas, talvez a dor não fosse aparecer em todas. É uma questão de comprometimento e frequência, Sol.” Jogou a toalhinha sobre o ombro e a chamou com os dedos, a cabeça meneando com leveza para que se apressasse. Assim que chegou perto, as mãos foram para o arco do pescoço; deslizando até a ponta numa primeira varredura da necessidade - o polegar forçando o músculo para encontrar os nós. “Que tal combinarmos o seguinte: você faz o que eu te disser?” Ele começou a massagem, os olhos procurando os da namorada automaticamente - familiar demais em oferecer sorrisos aleatórios. Mas... O cenho franziu com a expressão que recebia. “Ou podemos marcar treinos mais leves e curtos pela manhã. Uma sequência de aquecimento para você começar melhor. O que foi, Roxy?” Perguntou assim que terminou de falar. A namorada mudou a expressão num piscar de olhos, sorriso doce e prestativo aparecendo enquanto balançava a cabeça em negativa. “Nada não, docinho. É só que eu senti as mesmas coisas... Você faz em mim? Apolline, por favorzinho, deixa ele só fazer aqui em mim! É rápido!”
☀ — › A confusão inicial frente a mensagem inesperada foi dissipada quando a Crystal chegou a uma conclusão irrefutável: Hagan estava com saudades. E como culpá-lo? A loira era a melhor namorada falsa que alguém poderia desejar - e, se fosse sincera, o Hofferson não ficava muito atrás. Era esse o motivo do sorriso que adornava os lábios rosados, este acompanhado de uma malícia que precedia a provocação na ponta de sua língua. “Já está começando a perceber que seus dias são mais escuros sem a minha presença, love?” O gracejo foi proferido com certa doçura, prolongando o beijo por um segundo a mais do que seria necessário. “Eu sempre soube que o heroísmo corria em suas veias. Sorte a minha que você seja meu.” Ela tombou a cabeça com um riso, recompensando o gesto valente com mais um toque delicado sobre a boca masculina. Seu bom humor, contudo, não durou muito. “Ela fez o que?” A incredulidade ressoou em seu timbre, suas orbes lampejando com uma ira imensurável. Como era possível que Delilah tivesse se atrevido a tal façanha? Pelos sapatinhos de cristal, não eram amigas? Não lhe importava se o relacionamento dos dois fosse uma farsa, a Hopps não sabia daquilo. “Inacreditável a ousadia dessa rapariga.” A princesa trincou os dentes, os punhos cerrados rentes ao corpo. “Eu não sei quem ela pensa que é, e na realidade não me importa, vamos deixar muito claro com quem você está. Goste ela ou não.” A Solaris bufou, levantando-se abruptamente da mesa onde, todas as semanas, eles sentavam para partilhar um brunch. E ela não pensou duas vezes ao tomar o lugar sobre o colo masculino, exibindo um sorrisinho ao notar os iWishers que, não tão discretamente, se voltavam em sua direção. “Vamos fazer valer a capa do bibbidi news, shall we?”
Tinha algo em Sol que o fazia duvidar da falsidade daquele relacionamento. Personagens muito bem interpretados que, por vezes, acabavam virando realidade. Hagan via isso quando pesquisa sobre os filmes que assistia com as irmãs, duvidando muito da química dos atores e descobrindo que se casaram nas filmagens da segunda temporada. Ele sorriu com o beijo, a tensão formada na coluna ainda permanecendo... Por quê , vocês perguntam. A resposta tão clara quanto a aura deixada pela Crystal quando adentrava o ambiente. Seu fim estava próximo. Hagan retesou e esperou aquele pior, meio que suspirando de alívio por ter ficado bem na linha respeitável do surto. Quer dizer, não que esperasse esse tipo de comportamento... Sol não era ‘ela’. “Eu tenho quase certeza de que foi alguma coisa relacionada ao cansaço e coisas dessas de pós vida. Porque ela parecia com dor? E também meio que...” Ele falava, mas se afastava um pouco. O espaço criado entre a mesa e a cadeira familiar demais para si. Abriu um pouco as pernas para que se encaixasse melhor, a mão indo automática para a cintura. “E você sabe como foi- Como nós éramos antes de viajar. Pode ser- Não acho que ela tenha feito isso intencionalmente?” Seus dedos afundaram na carne macia que aparecia naquela posição, o toque como um alerta para pedir um tempinho para respirar. “Sol, precisamos mesmo? Mesmo mesmo?” Esperava a negação e, ao mesmo tempo, ia de encontro ao rosto. Nariz roçando na ponta do arrebitado alheio, a mão livre subindo ao rosto e encaixando na lateral; dedos perdidos nos cabelos dourados.
"Hagan, você ainda não sabe disfarçar quando está desconfortável", pensou em dizer, mas qual direito ela tinha? Pelo Coelho, quantos anos se passaram? Delilah deveria ter superado ele, não? Ela se questionava isso, até que voltava aos braços do outro, se prendendo ao pescoço do maior, já que suas forças não a permitiam fazer mais do que isso. Chegou a tentar manipular a probabilidade para acelerar sua recuperação, mas da forma que estava, toda tentativa terminava em segundos com ela encolhida contra Hagan ainda com dor. — Londres, 302.
Soltou uma risada fraca carregada de uma nostalgia perigosa e o olhou. — Você não mudou muito, ainda quer me por no lugar por mais que eu sempre dê uma de intelegentona com você — foi quase um suspiro aliviado, saber que haviam partes sobre eles que ainda reconhecia. Pelo menos aquele alívio ficou até que ele lhe fez a pior pergunta possível. — "Como anda a vida?" Sério? Hagan Hofferson, esse é o melhor que consegue fazer depois de tantos anos? — ela soltou uma risada fraca e o olhou, eram quase dez anos. Como é que ainda sentia algo por ele depois de tanto tempo? — Não muito, quando comparada com você que parece que literalmente comeu o cara que namorou comigo... — "e o cara que me amou não existe mais", completou mentalmente, mas tudo que saiu disso foi um suspiro derrotado, ela não conseguiria fugir naquela situação.
“Você está fazendo, para com isso.” Sem mãos, Hagan apontava com o queixo para o franzido no rosto de Delilah. Era a mesma expressão que tinha visto quando amparou a outra na saída do castelo. “Porque, ás vezes, uma inteligência mais simples vale mais do que suas soluções complexas de três capítulos.” Só de pensar dava dor de cabeça e quase tinha certeza de que tinha herdado a praticidade do pai. Afinal, quem em sã consciência, acharia mais fácil domar um dragão a matá-lo? Resolver um problema não o considerando um problema? Hagan até podia se contradizer tentando usar ele como exemplo, mas graças às barbas bem aparadas de Merlin não precisava acrescentar mais nada em seu argumento. Em movimento, a calmaria voltava a permear os músculos. Só que... Ainda tinha o fator de não encaixe. De tentar colocar duas situações juntas e não saber como as peças poderiam formar o mosaico. “Lembrando quando- O último momento- Você-” Tomou um grande fôlego e soltou tudo num longo e pesaroso suspiro. Era mais fácil quando estava desmaiada, seus olhos não provocando comichão no queixo... Na face exposta daquele lado. Hagan deu uma olhadinha e voltou para frente, focado em não perder as entradas certas. “Não é como se nosso último encontro tenha sido normal para ter algo específico logo de cara para falar. E eu não- Você quase morreu agora, não é momento para assuntos sérios.” Balançou a cabeça em negativa, um cantinho da boca curvando em sorriso divertido. “O que aconteceu na sua vida foi comparar o tamanho dos seus contatos comigo?” Arrependeu-se assim que falou as palavras, os dentes castigando uns aos outro na fechada de mandíbula - tensa. “A minha não está muito agitada também. Os estudos e os dragões estão consumindo meu tempo.”
Mensagem para sol ♡ : podemos adiantar o brunch de hoje?
Mensagem para sol ♡ : é urgente
O dia seguinte tinha revelado algumas manchas roxas pelo corpo, uns cortes mínimos, e muitas cicatrizes mentais. Aquela quantidade de sangue subindo do solo colocava em perspectiva a condição de ‘existência’ dos vampiros, e... Não era lá muito positiva para o Hofferson do meio. Enfim, seus passos pareciam marcar o chão de tanto que ia e voltava naquele trajeto reduzido, nervosismo fazendo a gola da camisa mostrar os sinais desagradáveis do suor. O calor insuportável e a antecipação, dois fatores cruéis e influenciadores daquele novo corpo. “Sol!” Exclamou aliviado, a única sílaba soando tão doce quanto o beijo deixado nos lábios da mais baixa. Hagan ainda colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha, carinhosamente, antes de levá-los para dentro do Tiana’s. “Aconteceu uma coisa ontem à noite e você precisa saber: eu salvei a vida de Delilah.” Parecia uma explicação decente. Só parecia. “E eu recebi o agradecimento com um beijo?” A afirmação saiu em forma de pergunta, a mesma dúvida estampada nos olhos claros do Hofferson.
Se aquela era a maneira que ela morreria, morta pela sua habilidade grande demais para um cérebro humano, Delilah aceitava que estava feliz por, pelo menos, estar nos braços do único que já amou. Pelo Coelho, Hagan não deveria saber o estrago que tinha feito com ela, mas ali estava, a carregando sabe-se lá para onde e sendo a única coisa que ainda lhe dava algum senso de realidade, enquanto seu corpo parecia estar perdendo uma batalha contra o inevitável; ou foi assim que viu até ter uma sensação estranha contra o peito, empurrões que forçaram seu corpo para cima e para baixo, e depois algo nostálgico, um leve gosto de floresta contra seus lábios, e ar. Ele estava tentando trazê-la de volta? Ela respirava de novo! Mais uma vez e sua consciência voltou porque descobriu de onde o gosto vinha ao abrir os olhos azuis e se deparar com o corpo de Hagan contra o seu. Sem perceber segurou uma das mãos maiores contra o peito, a deixando ali e se sentou, se virando para ele. Talvez fosse imensurável pensar quantas palavras haviam entre eles, um número completamente infinito, e, por mais que a probabilidade estivesse melhor por se focar nele, Delilah via os caminhos daquela interação... Eram demais, seu coração doía só por saber disso. Contudo, a irracionalidade falou mais alto. Ela fechou os olhos e se aproximou rápido demais para que ele recuasse e roubou um beijo tão necessitado quanto as palavras não ditas entre eles eram. Delilah precisou repetir para si que era um agradecimento e uma despedida em um ato só para que não começasse a chorar ali mesmo, e confessasse mais do que seu orgulho deixava, pelo amor do Coelho, ele tinha uma namorada e ela sabia disso porque era amiga dela, o que ela estava fazendo?
A separação foi um problema. Delilah só precisava olhá-lo para lembrar de duas coisas: que ainda tinha sentimentos por ele, e que ele ainda era capaz de machucá-la. Então usou o resto de força das pernas que tinha para se afastar e abraçou os joelhos como um escudo de proteção. — Obrigada, por, sabe, ter me salvado... isso, foi... um agradecimento, nada demais... don't make a big deal out of it — Falou baixinho desviando o olhar, iria perder aquela batalha se olhasse em seus olhos de novo. — Minha habilidade... pifa... quando... quando coisas assim acontecem... — tentou parecer casual, mas ainda estava se recuperando, mas precisava da distância. Se ele não fosse para longe logo, ela não sabia do que seria capaz. Tentou se levantar, mas acabou caindo com as mãos no chão ainda sem forças. Sentiu-se tão patética. Estava fugindo de novo, e agora era óbvio. — Eu 'tô bem agora, ok? Só preciso ir pro meu quarto, tomar um belo de um banho e dar uma dormida usando o anel anulador até depois de amanhã. Você... — "pode ir embora porque eu quero você o mais longe de mim o possível", ela iria engatinhando para a Academia se fosse necessário para provar o seu ponto, e ele a conhecia bem o suficiente para saber disso. Quer dizer, eles ainda se conheciam? Já fazia tanto tempo que eram pessoas diferentes agora.
Se aquilo não adiantasse,- Hagan não completou o pensamento, não deu oportunidade para o pior se infiltrar nos próprios pensamentos. Aquela chance absurda era sua única de repertório e faria o impossível para torná-la realidade. Seu poder teria que criar relâmpagos e trovões, descargas controladas para realizar aquela manobra vista nos filmes nom-maj. Sues cabelos já começavam a agitar com o vento invisível, as pontas loiras translúcidas dissolvendo no movimento, e o suspiro de alívio saindo de si quando percebeu que não precisava mais. Se afastou o suficiente para capturar seu olhar, os lábios abrindo-se num sorriso brilhante de mais e mais da sensação de alívio. E daí que o cenho ainda queria franzir, pincelando as feições de preocupação e uma pontada sensível de desespero. Delilah estava viva. Dramático demais, diminua aí por favor. Delilah estava respirando, enfim. Quando estava pronto para soltar uma frase típica de cuidador de dragões, recheada do sotaque característico, a boca foi impedida de continuar. Hagan não esperava muita coisa daquele reencontro, a mente em branco, mas com certeza não apostaria num beijo. Seus olhos mantiveram-se arregalados, susto grande demais que o enfiara numa paralisia momentânea. O que estava acontecendo? O que isso significava? O. Que. Está. Acontecendo? O sentimento perdido em algumas dessas ligações cortadas, ou tão obstruídas pela poeira e entulho que ele não via por onde... O que...
O fim veio como a repulsão de ímãs de pólos iguais, o Hofferson indo para trás e se deixando sentar nos calcanhares. HELP. Se Lia estivesse ali, ele teria descrevido a cena clássica de computadores em tela azul, ou negro com 0 e 1 misturados em sequências impossíveis. Ele pifava e não ia para frente, não conseguindo envolver a situação toda com a rapidez que ela parecia ter seguido em frente. “A-Aye, não precisa agradecer? E eu- eu entendo. Tem vezes que passo um dia inteiro preso nas minhas formas.” Um assunto mais fácil de lidar, uma situação que piorava conforme o usava em extensão em frequência. Precisava de energia demais, maior na volta ao normal do que entrar na sólida titânica. Hagen esfregou as palmas no topo das coxas, nenhuma umidade na secura normal da anatomia (calos e cicatrizes e cinzas encruadas). “Tudo bem, eu te levo. Não precisa pedir. Não vai ser um problema. Qual é o seu dormitório?” Tudo o que sabia dessa Delilah era o que chegava em seus círculos de amizade e nunca com a profundidade que comparasse ao passado. A verdade é que Hagan estava tão dolorosamente distante, tão estranho parado ali, que o que deveria ser fácil tornava-se embaraçoso. No que ele se levantou, ele a trouxe junto. De volta, nos braços, a quentura na pele provocando comichão e arrepios. “Nem comece. Eu sei o que pifar significa e não tem nada parecido com: consigo andar sozinha para o quarto.” Mordeu a parte interna da bochecha esquerda, irritando um corte infligido pela correria do fim do baile. “Co-COmo anda a vida?”
《 🐉 ⥇ Momentos como aquele a faziam lembrar de quando era adolescente e o irmão ainda era um menino franzino que não tinha nenhuma destreza, tentando ensinar ele a jogar magibol melhor para que entrasse nos knights quando chegasse sua hora de ingressar na Academia. Se fosse sentimental - caso se permitisse ser, isso é - Hella poderia estar com os olhos marejados naquele momento, vendo Hagan, agora do tamanho de um armário, sendo seu maior parceiro no campo. Mas estamos falando de Hella, de modo que ela apenas falou ❝―――――Você precisa acelerar mais um pouco nessa hora pra funcionar ❞ corrigiu, não de modo arrogante como podia ser com os outros, porque nunca era assim direcionada aos irmãos, mas porque era simplesmente um fato. Hagan ganhava em tamanho e força, Hella em rapidez e agilidade - e os dois precisavam sincronizar as habilidades para que conseguissem fazer aquela jogada ensaiada que Lia tinha pensado para eles. ❝―――――Ó lá, Lia ta concordando ❞ apontou com o queixo para as arquibancadas, como se a caçula conseguisse ouvir qualquer coisa àquela distância - o que ambos sabiam que era impossível, era exatamente por isso que tinham exigido que a loira ficasse lá em cima. ❝―――――Ou ela estaria se conseguisse ouvir. Enfim, a gente ta ficando melhor de todo jeito, mais um treino e deve ser fácil fazer num jogo. Pra onde a gente vai quando conseguir terminar aqui? Acho que temos tempo antes de papai aparecer reclamando que vamos atrasar o jantar de família ❞
O indicador e o dedo do meio forçavam aquele pontinho dolorido no meio da musculatura do ombro, os dígitos encontrando o nó e tentando dissolvê-lo na base da força. “Aye, aye, chefia.” Meneou a cabeça num cumprimento desleixado, respeito permeando porque era mais velha, mas não indo além do que o nível em que se encontravam. Hagan sorria por baixo da barba por fazer, aquele reservado para a provocação descarada. “Próxima vez vai ser do jeitinho que Lia falou. Todos os ângulos e concentrações de energia.” O Hofferson do meio não tinha problema algum em projetar a voz bem alto, esta poderosa atravessando o campo e com sorte assustando a mais nova. Usar o poder para deixar o interior oco como uma caverna, os cabelos em moicano brilhando nas chamas vermelhas. Fazia parte do treino, certo? Jogadas com o toque à mais, surpresa a cada virada para garantir a vitória. Hagan girou os ombros, testando, mas o franzir do lábio denunciou o que já suspeitava. “Aqueles malditos corredores foram literais demais. Eu pedi uma experiência de semideus e o maldito me colocou lutando contra a Hidra, geral me chamando de Hércules.” Tinha escapado com um deslocamento de ombro, que logo fora colocado no lugar pelo próprio filho de Soluço. “Não tenho ideia alguma, Hella. O resto do time parece estar em sintonia, os retardatários saíram da enfermaria. Ainda não aceitaram minha petição de usar dragões na partida.” A língua saiu para triscar o canto do lábio, o braço tensionando para segurar o golpe. “Podemos sair da Academia, dar uma volta. Ir na Briar’s e invadir, ver o que estão planejando para o quingentésimo filme de Philip derrotando um dragão e mudarmos o rumo da história. Mostrar quem é que ganha.”
Seus olhos se abriram por alguns segundos, mas não pelo movimento. Pelo Coelho, como ela tinha sentido saudade daquele cheiro! Daquele toque! Quis recuperar os movimentos de seu corpo, abraçar Hagan contra o seu corpo e demonstrar o quanto tinha sentido a sua falta. Pelo menos aquilo durou alguns segundos até que se lembrasse que desde que tinha conseguido a sua habilidade tinha a usado deliberadamente para evitá-lo, ele tinha não partido o seu coração, mas o estraçalhado em pedacinhos que ela ainda não tinha sido capaz de remontar. — H-Hagan e-eu- — as palavras morreram junto com o ar em seus pulmões. Ela começou a tentar respirar, puxar o ar em seus pulmões, mas não conseguia, a probabilidade juntamente com o que acontecia estava roubando seu ar. E ela desmaiou de novo, caindo sobre os braços do ex-namorado que ainda povoada tanto seus pensamentos, ao ponto que ela conscientemente o evitava.
Caótico e confuso, centenas de pessoas correndo para o mesmo canto e não respeitando as ordens gritadas pelos mais velhos. Os professores tentando controlar a passagem, mas falhando com alunos caindo por cima do outro. E Delilah ficando gelada em seu abraço. A boca se mexia sem nem pensar, murmurando o apelido dela em loop e contornando as sílabas. Gastando tempo demais ao memorizar suas feições, comparar com o passado, e diminuindo o ritmo para que não caísse. Assim que saiu de Halloween Town, deu uma guinada para um alternativo e foi logo agraciado com a mudança de ares. Ela falava. “Delilah? Do you hear me? Delilah?” Uma pessoa desmaiada não tinha como responder nada, ainda menos provável de ouvir quando os lábios ficavam brancos. Hagan trouxe-a ainda mais perto, o rosto virado para trazer a boca dela rente à orelha. Nada. Fraco demais para provocar cócegas na nuca. Olhou ao redor e nada de novo, acabando por optar pelo caminho mais óbvio. De joelhos, deitando-a com cuidado no chão e calculando o lugar certo para colocar as mãos. “Não é um dragão, Hofferson. Não coloque força.” Um. Dois. Três. Quatro. Ritmado e constante, pressionando o espaço entre os seios até a contagem chegar ao fim. Hagan corria para pressionar o ouvido no peito atrás de batimentos, em cima do nariz para respiração. “Delilah?” Merda. Fechou o nariz dela com os dedos e juntou os lábios para soprar ar em seus pulmões.
Seus olhos pesaram assim que o sangue jorrou. Os gritos, o desespero, e então o que tudo aquilo poderia significar. Foram tantas possibilidades jogadas em sua mente de uma vez que Delilah caiu de joelhos no sangue. Os gritos acionaram seu instinto de sobrevivência, e ela se arrastou por corrimãos e caindo em escadas para conseguir correr para longe dos vampiros. Gritos escapavam de seus lábios, mas ela não os escutava, e como faria? Seus olhos pareciam estar chorando sangue e seus ouvidos explodiam. Um grito quase animalesco escapou entre seus lábios quando finalmente chegou até os portões, pena que ela não conseguiu atravessá-los. suas forças se esvaíram, a fazendo cair contra os paralelepípedos de pedra dos muros. Sua cabeça, já dolorida, pareceu imitar um sino quando se encontrou com uma quina perdida. A consciência a escapou quando escutou seu nome de longe, de uma voz que não escutava a anos.
A música fantasmagórica coloca o Hofferson em constante estado de alerta, a concentração destruída em milhares de pontos que exigiam sua atenção. Hella estava bem, mantra criado e mantido no subconsciente enquanto dava voltas pelo salão, à mercê de uma força mágica que não controlava. E nem o tremor da mão contra sua parecia tirá-lo daquela confusão (pobre garota não tinha culpa de Hagan ser um pouco obtuso demais em suas ações). Era sempre uma coisa de cada vez, um passo calculado, não a cacofonia de vozes internas apontando para lugares distintos. Foi com a sensação pegajosa nos pés que ele acordou e se viu livre do feitiço musical, a menina em seus braços percebendo o mesmo e fugindo para alguém conhecido. Sempre soube que não dava para confiar em vampiros! “Não precisa falar duas vezes, Sherlock Holmes.”
O poder veio em primeiro lugar, alterando a fisiologia de Hagan para a metálica orgânica. Desse jeito, não precisaria respirar nem se preocupar com vampiros o mordendo. Segundo veio num troca de olhares com o par da irmã mais nova, garantindo que esta sairia dali em segurança (ou Hagan o mataria assim que o visse). Faltando a terceira, o Hofferson tratou de traçar uma rota alternativa para o lado de fora, usando de toda sua envergadura para transitar nas dezenas de estudantes em fuga. Deixava-se ser empurrado e conduzido, os olhos metálicos não encontrando a coroa de cabelos escuros da irmã mais velha, mas captando uma visão igualmente de gelar o sangue. O grito foi a cereja do bolo, cru, fazendo vibrar o corpo inteiro em resposta. Hagan transformou-se em água e vento, num instante chegando sólido ao lado de Delilah. “Deli? Deli! Deli!” Chamava seu nome em várias entonações, suas mãos passeando pelo corpo e sacudindo com leveza. Tapinhas no rosto, levantando o queixo e sentindo a pulsação.
Hagan passou os braços por baixo dela, encaixando nas cotas e na dobra dos joelhos, e levantou o peso que não lhe custava nada. Trazendo-a tão perto de si quanto possível ao pressionar com firmeza contra o peito. Começava, ali, um caminho tortuoso de volta para academia. Dividido entre ver por onde andava e conferir se alguma cor tinha voltado para o rosto daquela que não tinha trocado uma palavra em... Pelas barbas de Merlin, por quantos anos?