Quero você, tô querendo tô precisando; quero você, tô louco tô surtando.
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Quero você, tô querendo tô precisando; quero você, tô louco tô surtando.
H.
2 por tempo
A vida corre demais e sempre tentamos acompanhar, quando na verdade ela bate numa velocidade e a gente acha que o compasso tá dobrado, a gente todo mundo, no caso.
— H.
O pobre garoto, tinha mais medo de acordar a mãe no meio da madrugada do que de qualquer demônio que pudesse assombrá-lo nessa hora. O copo e o prato usados para seu lanche noturno foram colocados no balcão com o maior cuidado do mundo e ainda assim o tilintar da porcelana e vidro no mármore ecoava e reverberava nas paredes, como cornetas anunciando a chegada de sua mãe, mas infelizmente dessa vez ela não viera.
H.
Blackout
Eu queria um mundo com menos luz, mais escuridão assim poderia analisar melhor as estrelas, contemplar a imensidão ver o canal de planetas da enorme televisão, ofuscada pelos milhares de vagalumes vagabundos terrestres, perdida no antro elétrico da civilização.
— H.
Cama de queijo coalho macaxeira é lençol dois pedaços, uma só carne de sol.
H.
Nossos cochilos
Cada sonolento cochilo da tarde vale mais que uma vida de descanso, pois dura uma eternidade; é mais sublime que o mais belo dos pores-do-sol, mais relaxante que uma sauna aromatizada com eucalipto, as vezes surpreendente sempre inocente, se sustenta pleno e de repente acaba. Nascem, vivem, morrem, completando o ciclo esporadicamente, chegando ao seu fim, como todas as pequenas e grandes coisas, os primeiros e últimos cochilos, viverão eternos em mim.
— H.
Desenho de guardanapo vira sapo papa mosca tá na sopa com cebola e jerimum.
H.
Caloroso descanso
Êta que saudade de um friozinho arretado nós dois, debaixo daquele cobertor, escondidos do ar condicionado, as pernas se cruzando pés se tocando os braços estrategicamente posicionados, de forma a evitar formigamentos, e os corpos se encostando na ânsia de um caloroso descanso.
— H.
Doses de amor
Amor é um estilo de vida e sexo é só uma ideia, uma ideia na qual se sente fome, uma ideia brilhante, algo que quando bêbado se sente mais facilmente, mais rapidamente se combina e se consome. Na vida nem sempre são os bêbados, nem sempre são os fracos ou nem sempre os sóbrios são os fortes, amar é algo que se decide enquanto pode e eu, amor, tive sorte.
— H.
Ilustração por: Leonardo.
Noite de chuva forte
Venta deságua desaba resvala de repente para. (recomeça)
— H.
O trem passa gritando suas dores lamuriando seu movimento e eu parado, encostado na parede encarando os vagões chiarem aguentando meu tortuoso lamento.
H.
Pequeno astronauta
O menino saía toda noite à pequena rua empedrada de seu condomínio, recanto de seu silêncio, para observar o céu — ele o fascinava. Enxergava milhões de anos-luz de histórias esquecidas, o ecoar pela eternidade dos últimos tiros dados pelas escopetas intergaláticas. Na imaginação do moleque todo avião era cometa e todo satélite era estrela, nuvens estáticas, iluminadas pela lua, viravam poeira cósmica e por entre os vãos das nuvens ele percorria cada vez mais espaço-tempos descontínuos em sua via láctea mental.
— H.
Ilustração por: Ana Carolina Santos.
Levantou-se calmamente, sonolento como tem de ser numa manhã de sexta. O despertador soava barulhento, porém não havia ninguém por perto que se incomodasse, tampouco ele próprio se importava, aquele som era sua âncora ao mundo “real”. Havia acabado de chover quando ele despertara, as nuvens começavam a se espalhar e raios de luz passavam por entre as frestas da cortina bege. Olhava-se no espelho e só pensava em quanto queria voltar a sonhar, recordou-se do sonho calmo em que estivera: remava calmamente um barquinho azul-celeste entre balanços leves que provocavam as ondas num mar de águas quentes e esverdeadas, quando não transparentes, e o barco navegava sem parar, num ritmo constante, percorrendo toda uma noite de sonhos. Começou a se afeitar, aquele ritual estranho, praticado ainda quase uma vez na semana, para retirar os pêlos finos e esparsos que lhe tomavam o rosto, depois entrou no banho para lavar-se da sua recente atividade e finalmente se preparava para tomar o suco de laranja que lhe esperava na geladeira. Ela estava inquieta, sua noite fora turbulenta. Saiu da cama num sobressalto, minutos antes do despertador tocar, corria pro chuveiro para ver se a água quente colocava fogo nos sonhos estranhos e perturbadores, rotineiros, que tivera durante seu “descanso”. Sonhar era uma tortura, eram filmes mistos de terror e sci-fi, vindos de alguma parte obscura do cérebro que tinha em vista somente atrapalhar o funcionamento do seu organismo. Saiu do banho, passou a mão no espelho embaçado pelo vapor oriundo da água que havia fervido durante o seu banho e admirou-se: seus seios haviam aumentado bastante, o cabelo, antes mantido curto, agora encontrava-se bagunçado enquanto voltava a crescer lentamente, e as espinhas, antes tão frequentes e irritantes, começavam a aparecer cada vez menos. Depois de vestir-se, foi até a cozinha onde preparou as duas torradas, uma com requeijão e a outra com geléia e comeu-as observando o mar que pairava longe por trás do alto paredão de edifícios. Observaram-se, tinham passado tantas coisas juntos, era quase uma vida, quase um ano. Sua mão tocava seu rosto, seu rosto encostava em sua coxa e o seu pescoço era um encaixe perfeito para sua cabeça. Olharam-se, castanhos apaixonados em penetrantes verdes, “é, nós estamos crescendo”.
— H.
Me vi tão sozinho tanto barulho lá fora fogos, bebidas e comemorações urros de alegria, dança e conversações me vi numa noite tão vazia, não no aspecto da família, nesse estava feliz e completo, mas no complexo da alma me faltava um rejunte, ela está quebrada, são duas partes que estão lado a lado, mas não juntas, uma lá em cima e outra lá embaixo no mapa, faltava nela uma cola, se possível Super Bonder, pra colar os dois cacos de novo e assim reconstruir um lindo vaso, não exibir por aí uma peça rota.
H.
21, 26
Tô aqui na praia, já te escrevi bastante essa noite, continuo te mandando várias mensagens, que pra você vão chegar como uma enxurrada, talvez fora de ordem (a internet do celular tá horrível, afinal é ano novo), mas isso não me fará parar. Fiquei aqui, na rede como de costume, tendo ideias, escrevendo, vendo fotos: tuas, nossas; enfim, percebi uma coisa curiosa amor, nossos aniversários coincidem, são sempre no mesmo dia da semana. Esse ano, por exemplo, foram num sábado, no que vem será numa segunda (olhei quase dez anos à frente no calendário pra confirmar minhas especulações delirantes). Provavelmente é apenas coincidência, só uma conexão do acaso e sem muita importância, ou talvez uma confirmação daquela noite em que eu soube que era você, quem saberá dizer?
— H.
Outro dia eu ouvia música no tranquilo balanço da rede, observava uma antena de televisão brilhando verde, destacando-se do céu que exibia ainda os últimos vestígios de luz do dia, deviam ser por volta das sete. De repente, fugindo do transe momentâneo em que me encontrava, desviei meu olhar até uma cena inimaginesperável, uma lagartixa, de cabeça para baixo agarrada no teto, segurava com uma mordida outra que se debatia pendurada. Tantas histórias surgiram em minha mente após ver o que eu havia visto, imaginei que eram dois irmãos brigando pelo trono e o usurpador estava prestes a deixar o próprio irmão cair por uma morte terrível em direção às pedras do jardim. Podiam ser eles também dois amantes-lagartixa, que praticavam algum tipo de ritual estranho de acasalamento ou talvez um par de acrobatas de um circo itinerante conduzido por uma barata insana e obcecada por dinheiro e poder. Eis que, interrompendo brevemente meus devaneios dedutivos, surge outra lagartixa no teto onde transcorria-se o clímax de um filme que poderia ser facilmente um sucesso de bilheteria altamente aclamado pela crítica. Mergulhei novamente até níveis cada vez mais profundos de delírio desperto, ponderando se o sujeito inédito era um herói que havia chegado pra tirar das mãos do vilão a mocinha sequestrada que gritava enquanto balançava no alto de um arranha-céus ou se era a equipe de resgate que efetuava o salvamento de dois alpinistas-lagartixa, que haviam ficado presos numa das protuberâncias de um penhasco e que, agora, parte dela havia desabado e um deles estava prestes a cair quando seu parceiro o segurou. Fascinado, corri pra pegar a câmera e registrar aquele momento tão curioso, que imagino nunca mais presenciar de novo em minha pequena existência, dando todas minhas forças pra chegar em tempo ábil até o quarto e alcançar a prateleira mais alta onde se encontrava a máquina fotográfica. Voltei ainda mais rápido, como se tudo dependesse daquela foto e daquele instante, como se a vida houvesse passado completamente e eu estivesse a poucos metros da linha de chegada. Apertei o botãozinho redondo que ligava o aparelho e quando apontei a lente para o canto do teto onde antes acontecia um evento histórico épico, o desfecho de uma epopeia réptil, nada estava mais lá. Os breves instantes que intervalam o meu transe na rede e o meu retorno ao local da ação separaram-me do grand finale, eu não mais saberia se o personagem que se agarrava à vida com toda sua força acima de um rio que corria tranquilo setecentos metros mais para baixo conseguiu salvar-se ou foi em encontro ao destino mórbido que o esperava. Seria impossível saber se o terceiro elemento havia contribuído com ou impedido um final desastroso para o momento crítico que eu havia presenciado há poucos momentos e agora era só uma lembrança distante e fictícia. Ninguém jamais veria a beleza e a peculiaridade daquela cena reptiliana crítica, assim como tampouco eu saberei do seu desfecho.
— H.